Economia

Larry Fink, da BlackRock, alerta que IA pode ampliar distância entre ricos e pobres

23 mar 2026, 15:47 - atualizado em 23 mar 2026, 15:52
Presidente-executivo da BlackRock, Larry Fink, durante entrevista, em Nova York, nos EUA 14/04/2023 REUTERS/Brendan McDermid
Presidente-executivo da BlackRock, Larry Fink, durante entrevista, em Nova York, nos EUA 14/04/2023 REUTERS/Brendan McDermid

A inteligência artificial pode aprofundar ainda mais a concentração de riqueza ao ampliar os ganhos das empresas e dos investidores que já têm escala, capital e infraestrutura para capturar esse avanço tecnológico. Esse foi um dos alertas mais fortes feitos por Larry Fink, presidente da BlackRock, em sua carta anual aos investidores de 2026.

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“A IA pode acelerar ainda mais essa tendência”, escreveu o executivo, ao defender que a nova onda tecnológica corre o risco de deixar ainda mais gente para trás caso a participação nos mercados continue concentrada.

Na avaliação de Fink, a economia global já vive um processo em que o crescimento beneficia de forma desproporcional quem possui ativos. Segundo ele, “a vasta maioria da riqueza fluiu para pessoas que possuíam ativos, e não para aquelas que ganhavam a maior parte do seu dinheiro trabalhando”. Agora, acrescenta, a inteligência artificial ameaça repetir esse padrão “em uma escala ainda maior”, concentrando riqueza entre empresas e investidores que já estão posicionados para capturá-la.

O executivo afirma que o debate sobre IA costuma se concentrar sobre emprego, mas sustenta que o ponto talvez mais decisivo esteja na distribuição dos ganhos econômicos. “A questão mais ampla é quem participa dos ganhos”, escreveu.

Para Fink, quando o valor de mercado das companhias cresce enquanto a participação acionária segue restrita a uma parcela pequena da população, “a prosperidade pode parecer cada vez mais distante para aqueles que estão de fora”.

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IA e o Capitalismo

A carta também mostra que a BlackRock enxerga a IA como parte de uma mudança mais ampla no capitalismo global. Fink diz que os mercados de capitais estão assumindo papel cada vez mais central no financiamento do crescimento econômico, em um contexto de guerras, reindustrialização, corrida tecnológica e busca de autossuficiência por parte dos países.

Nesse ambiente, o investimento de longo prazo passa a ser ainda mais importante — mas, segundo ele, essa oportunidade continua restrita a quem já está dentro do sistema. “O crescimento está alcançando poucas pessoas”, resume a carta.

Ao longo do texto, Fink argumenta que o problema não está no capitalismo em si, mas no alcance limitado de seus benefícios. “É daí que vem grande parte da ansiedade econômica atual: da sensação profunda de que o capitalismo funciona, mas não para um número suficiente de pessoas”, escreveu.

Para o CEO da BlackRock, a resposta não passa por mais especulação de curto prazo, e sim por ampliar o investimento de longo prazo entre a população, de forma que mais famílias possam participar do crescimento econômico e acumular patrimônio.

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Fink defende que essa ampliação do acesso ocorra por diferentes frentes, como sistemas de aposentadoria mais robustos, educação financeira, contas de investimento desde o nascimento e modernização da infraestrutura dos mercados. “A oportunidade é ampliar a participação acionária”, diz a carta, ao afirmar que expandir o investimento de longo prazo “pode ajudar mais pessoas a participar do crescimento econômico e a construir segurança financeira a longo prazo”.

Nesse ponto, Fink também volta a defender a modernização dos mercados por meio da tokenização. Segundo ele, uma carteira digital regulada poderá, no futuro, concentrar desde meios de pagamento até ETFs, títulos tokenizados e participações fracionárias em ativos hoje inacessíveis para a maior parte dos investidores.

A ideia, segundo a carta, é reduzir atritos, custos e barreiras de entrada. “A tokenização poderia ajudar a acelerar esse futuro”, escreveu.

Ao mesmo tempo, a carta serve para reforçar a própria tese estratégica da BlackRock. Ao destacar que a IA já está remodelando a análise de investimentos, a gestão de risco e a alocação de capital, Fink posiciona a companhia como uma das plataformas preparadas para operar nessa nova fase dos mercados.

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“Uma coisa é certa: a IA criará um valor econômico significativo”, escreveu. “Garantir que a participação nesse crescimento se expanda na mesma proporção é tanto o desafio quanto a oportunidade.”

No fim, a mensagem central da carta é que a inteligência artificial deve criar riqueza em larga escala, mas não necessariamente de forma distribuída. Sem ampliar o acesso aos mercados e à propriedade dos ativos, o próximo grande salto tecnológico pode aumentar ainda mais a distância entre quem já investe e quem continua apenas vivendo de salário.

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Editor
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br
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