Luis Stuhlberger: “Hoje o Brasil opera com um gasto público insano”
O gestor Luis Stuhlberger, da Verde Asset, enxerga o Brasil operando com um nível de gasto público “insano” para um país emergente.
“A gente tem um déficit primário de 0,5%, 0,6%. Nós estamos gastando aí 38,5% do PIB, o que é um negócio insano para um país emergente e pobre. Não existe paralelo”, afirmou o gestor, ao comparar o tamanho do Estado com a renda per capita brasileira em evento do UBS BB realizado nesta terça-feira (27).
Na avaliação do gestor, isso impulsiona a trajetória da dívida pública para um quadro preocupante, com alta de três pontos percentuais sobre o PIB todo ano.
Ele ponderou, do outro lado, que alguns fatores vêm ajudando a “mitigar” a conta — como revisões do PIB nominal e mudanças na composição da dívida —, mas reforçou que a tendência segue ruim: “Mesmo assim, nós vamos encerrar esse governo com 82% de dívida.”
Stuhlberger argumentou que essa dinâmica ajuda a entender por que a economia brasileira segue rodando apesar dos desequilíbrios. “Isso explica em grande parte a resiliência econômica, porque não só o governo gasta primariamente. Ao consideramos juros, daqui a pouco o que o governo consome está chegando em 50% do PIB”, disse.
Para ele, somado ao impulso de crédito, o estímulo fiscal segue elevado: “Quando você tem um impulso fiscal dessa natureza, é muita coisa.”
Na prática, a visão do gestor da Verde Asset é que o Brasil, hoje, tem uma economia em que o Estado sustenta a atividade, com reflexos diretos no cotidiano.
“A vida segue normal. Restaurantes lotados, aeroportos lotados, shoppings lotados, as empresas indo bem. Esse é o mistério”, afirmou. “De 215 milhões de habitantes, 112, 113 milhões recebem o cheque do governo todo mês.”
Fórmula inviável e cautela
O gestor, porém, não enxerga essa fórmula se sustentando indefinidamente. “O problema é que a gente está mantendo um status através de uma fórmula que é inviável. A pergunta que fica é: o dia que isso acabar, o governo estiver fazendo um ajuste fiscal, o que acontece com a nossa economia?”
Além do diagnóstico fiscal, Stuhlberger demonstrou cautela também em relação ao cenário político à frente, especialmente com a proximidade das eleições.
Ele afirmou que tenta ser “mais pessimista do que o mercado” em relação a um eventual novo mandato de Lula, avaliando que o mercado hoje trata o risco eleitoral com complacência excessiva.
No entanto, o gestor vê que a disputa eleitoral tende a permanecer aberta e binária até o fim, o que exige proteção. “Acho muito difícil que isso deixe de ser um 50/50 até o final”, disse, destacando que o investidor não pode assumir que o desfecho será benigno sem custo.
Na gestão da carteira, esse ceticismo se traduz em uma postura mais equilibrada e defensiva em relação à bolsa brasileira. Stuhlberger afirmou que a Verde não está concentrada apenas em ações, mantendo exposição distribuída entre bolsa, juros e câmbio, além de hedges eleitorais considerados baratos.
Embora reconheça a forte performance recente do mercado acionário, ele ponderou que boa parte do movimento, vindo de estrangeiros que não consideram o risco eleitoral, pode ter sido capturada.
“O volume de dinheiro no mundo é grande demais para mercados pequenos como o Brasil. Se uma fração mínima desse capital resolve se realocar, o impacto nos preços é enorme”, afirmou Stuhlberger. “Não é uma fuga estrutural do dólar, é uma realocação marginal, mas ninguém sabe quando isso para — e quando para, costuma parar rápido.”