Mais Magazine Luiza (MGLU3) e menos Embraer (EMBJ3): As ‘pimentas’ de Christian Keleti, da Alpha Key, para lucrar com trade Flávio
Ter empresas resilientes e com receitas previsíveis na carteira era uma recomendação de nove em cada dez gestores. Também pudera: com a Selic, a taxa básica de juros, em 14% ao ano, assumir riscos adicionais não parecia prudente.
Agora, porém, a maré virou, e tomar um pouco mais de risco pode fazer sentido. Isso, pelo menos, na avaliação de quem vê na possibilidade de vitória de um candidato de oposição, como Flávio Bolsonaro (PL), uma oportunidade para o tão sonhado ajuste fiscal — embora ainda não haja clareza sobre a dimensão e a forma como ele seria implementado.
“Só o fato de o Brasil mudar de governo já reduz muito o risco fiscal. Desaparece o risco de insolvência fiscal e da necessidade de juros ainda mais altos para financiar a dívida pública”, diz Christian Keletti, sócio e fundador da Alpha Key, gestora com R$ R$ 1,68 bilhão sob gestão.
Na avaliação do gestor, em entrevista ao Money Times, caso o candidato do PL vença a eleição, o Ibovespa pode terminar o ano aos 230 mil pontos. Já o índice de small caps, mais ligado às empresas domésticas, pode chegar aos 160 mil pontos, com potencial de valorização superior a 20%.
Menos Embraer
Keletti conta que a gestora decidiu deixar a carteira mais apimentada para aproveitar as oportunidades que podem surgir com a mudança de cenário.
Uma das decisões foi vender, perto da máxima, metade da posição em Embraer.
“Imaginamos que, se o Flávio viesse forte, o dólar perderia força e essas ações ficariam para trás. Assim, poderíamos redirecionar o dinheiro para empresas domésticas”, afirma.
O movimento parece ter ido na direção esperada: desde meados de setembro, as ações da fabricante de aeronaves acumulam queda de cerca de 10%, enquanto o dólar recuou quase 2% no mesmo período.
Além disso, Keletti conta que mantém posições vendidas em empresas mais defensivas e ligadas ao dólar. Na prática, operar vendido — ou shortear — significa buscar lucro com a queda do preço de uma ação.
As pimentas da carteira
Para equilibrar a estratégia, Keletti resolveu “temperar” a carteira com algumas ações de maior risco. No mercado, o termo “pimenta” costuma designar investimentos com maior potencial de valorização, mas que também estão sujeitos a oscilações e perdas mais expressivas.
Do outro lado da balança, a gestora passou a apostar em empresas domésticas que já estavam no radar, mas para as quais havia ressalvas relacionadas aos fundamentos, à estrutura de capital e aos juros elevados.
Entre os papéis selecionados estão Vamos (VAMO3), Movida (MOVI3), Ecorodovias (ECOR3), Magazine Luiza (MGLU3) e construtoras voltadas aos segmentos de média e alta renda.
A lógica é aproveitar uma eventual melhora das perspectivas econômicas e a redução da percepção de risco fiscal, fatores que podem beneficiar empresas mais dependentes da atividade doméstica e do custo do crédito.
Opções para ampliar os ganhos
Mas nem só de ações vive a estratégia da gestora. A Alpha Key também montou uma estrutura com opções sobre o índice de small caps, que estava próximo das mínimas dos dez dias anteriores.
Opções são contratos que dão ao comprador o direito, mas não a obrigação, de comprar ou vender um ativo por um preço predeterminado, dentro de um prazo estabelecido.
“Sabemos que, quando o cenário melhora, as empresas menores e mais domésticas costumam subir mais”, afirma Keletti.
O gestor também estruturou operações de call spread e comprou opções de ações específicas, como Sabesp, Itaú e Itaúsa.
A trava de alta, ou bull call spread, é uma estratégia com opções de compra que busca lucrar com a valorização de um ativo, ao mesmo tempo que limita tanto o risco quanto o ganho máximo da operação.
“Capturamos praticamente toda essa alta via derivativos. Conseguimos aproveitar muito bem esse movimento sem precisar aumentar excessivamente o risco ou a volatilidade do fundo”, diz.
Até onde vai a euforia?
Com ações acumulando altas de 30% a 40% — e, em alguns casos, até mais — em determinados pregões, fica a dúvida: até que ponto ainda há espaço para valorização?
Keletti conta que já aproveitou o movimento para realizar parte dos lucros em algumas posições, especialmente depois de papéis acumularem ganhos expressivos.
“Porque certas empresas subiram 50%, 60%, até 80%. Mas ainda vejo espaço para valorização nas domésticas”, afirma.
Entre os bancos, porém, o gestor avalia que boa parte do movimento já aconteceu. Alguns papéis chegaram a níveis que considera razoáveis, com potencial adicional de valorização de 10% a 15%.
Ainda assim, há oportunidades em outros segmentos. Setores como energia elétrica, infraestrutura, construção civil, shopping centers, varejo seletivo e educação podem surpreender, na avaliação do gestor.