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Minecraft, jornalismo e o limite da censura

24 mar 2020, 9:26 - atualizado em 24 mar 2020, 9:27
A “Biblioteca sem Censura” é um mundo criado no jogo Minecraft para que jornalistas que tiveram seus artigos censurados em seu país de origem possam publicá-los livremente, sem represálias (Imagem: YouTube/Reporter ohne Grenzen – RSF)

A guerra global pela liberdade de expressão está acontecendo em linhas de frente tecnológicas: de plataformas descentralizadas de redes sociais ao Bitcoin, além do mundo virtual dos jogos on-line.

O tão popular jogo Minecraft, que permite que comunidades colaborem para criar mundos virtuais a partir de blocos digitais de construção, agora está desenvolvendo um projeto que desbloqueia jornalismo censurado.

Lançada no dia 12 de março, no Dia Mundial contra a Censura na Internet, a Uncensored Library (“Biblioteca sem Censura”) é um mundo no Minecraft criado pela Blockworks para a fundação Repórteres sem Fronteiras (RSF, na sigla em francês).

Dentro do mundo virtual, usuários podem visitar a gigante e virtual biblioteca neoclássica. Hospeda textos do mundo real que foram banidos em seu país de origem — desde o trabalho de Jamal Khashoggi, jornalista árabe-saudita assassinado, a artigos do Mada Masr, jornal egípcio anticorrupção.

O lar digital da liberdade de imprensa

24 “construtores” de 16 países diferentes levaram cerca de 250 horas para criar a biblioteca, que fica em um mapa da ilha chamado de “lar digital da liberdade de imprensa”.

O estilo arquitetônico neoclássico, que geralmente simboliza “poder e cultura”, é utilizado para “representar o poder da liberdade de imprensa do que a autoridade de regimes governamentais”, de acordo com James Delaney, fundador da Blockworks e ex-estudante de Arquitetura.

 

Dentro do prédio, existem cinco países no Press Freedom Index (índice de liberdade de imprensa) — Rússia, Egito, México, Arábia Saudita e Vietnã — que possuem sua própria ala.

Quando um jogador anda até o púlpito, no centro, uma seleção de textos censurados daquela região aparece na tela. Estima-se que haja cerca de 16 livros até agora, mas espera-se que mais sejam publicados conforme o projeto se popularizar.

Porém, críticos sugerem ser provável que a diversão do mapa seja interrompida conforme países comecem a banir Minecraft em represália, retirando o jogo de usuários apolíticos.

“Esses jornalistas sabem quão opressores são esses países, então por que estão colocando essa fonte de diversão para jovens jogadores em perigo?”, comentou um usuário enfurecido no fórum Reddit.

Qual é o limite da censura?

Enquanto isso, do outro lado do mundo, uma jornalista do South China Morning Post (SCMP) afirma ter resistido à censura usando o que pode ser considerado um método mais permanente.

Sarah Zheng fugiu da rotina de “limpeza” do governo chinês nas redes sociais ao publicar uma entrevista com o doutor Ai Fen, delator sobre o coronavírus, em um lugar onde esse conteúdo não pode ser facilmente banido ou deletado: o blockchain da Ethereum.

Já que todas as plataformas on-line fazem o seu melhor para mitigar o fluxo de desinformações sobre o coronavírus, alguns usuários do Twitter afirmam terem sido bloqueados parcialmente (“shadow-banned”) por conta do algoritmo supervigilante, como o editor do site cripto Messari, Ryan Selkis, que vem fazendo uma cobertura completa sobre a pandemia desde antes de sua propagação:

Jack Dorsey, CEO do Twitter, afirmou que a plataforma está dando o seu melhor para dar o selo de verificação a “especialistas em saúde pública” e apresentar medidas que usuários da plataforma possam usar para ajudar nesse processo.