“Não apareceu uma alternativa ‘matadora’”: Esteves vê eleição travada e sem nome forte
Faltando apenas seis meses para as eleições brasileiras, o evento político mais relevante do calendário doméstico ainda exerce influência limitada sobre os preços dos ativos. Apesar da intensificação das pesquisas eleitorais e da crescente presença do tema no debate público, o direcionamento dos mercados segue ancorado, sobretudo, no ambiente internacional com o conflito no Oriente Médio.
Na avaliação de André Esteves, chairman do BTG Pactual, o motivo é evidente. “O investidor estrangeiro não está dando a menor bola para a eleição”, afirmou durante a sua participação no Global Managers Conference 2026, evento realizado pela BTG Pactual Asset Management nesta terça-feira (31). Segundo ele, a leitura predominante é de um cenário amplamente precificado, sem vetores claros de mudança no curto prazo.
- Leia mais: Reposicionamento global abre espaço para o Brasil, que tem uma “carta na manga”, diz Esteves
Esse diagnóstico está ligado à percepção de uma disputa equilibrada. “O investidor olha e vê uma eleição 50-50”, disse. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com trajetória conhecida e já testada. De outro, um campo que pode sinalizar mudanças na condução econômica, mas ainda cercado por incertezas.
Embora o quadro eleitoral sugira equilíbrio, Esteves chama atenção para uma transformação mais estrutural do eleitorado brasileiro. “A sociedade está mais à direita do que parece”, afirmou.
Mudança no perfil do eleitorado
Segundo o executivo, mudanças no perfil do mercado de trabalho ajudam a explicar esse deslocamento. O avanço de autônomos, como o caso de motoristas de aplicativo e pequenos prestadores de serviço, alterou a natureza das demandas econômicas e sociais, aproximando parte relevante da população de pautas associadas a menor intervenção estatal, carga tributária mais baixa e maior previsibilidade.
Além disso, o dinamismo recente do agronegócio e a expansão econômica de regiões fora dos grandes centros também contribuíram para esse reposicionamento, ao gerar novos polos de renda e consumo com características distintas do padrão observado nas últimas décadas.
Apesar desse movimento, a mudança de perfil do eleitor ainda não se traduziu em uma candidatura capaz de reorganizar a disputa presidencial. “Não apareceu uma alternativa ‘matadora’”, afirmou Esteves.
Na leitura do banqueiro, esse é o principal fator que mantém o cenário indefinido. Ainda que haja sinais de desgaste do atual presidente, não há, até o momento, um nome com capacidade de capturar de forma consistente o eleitorado em transformação.
“Existe uma certa fadiga. O Lula foi protagonista de diversas eleições, está no terceiro mandato, e parte do eleitorado mais jovem já não se conecta da mesma forma”, disse.
Por outro lado, o histórico político e o elevado grau de conhecimento do presidente funcionam como um ativo relevante na disputa. “Ele larga bem estando parado”, afirmou Esteves, destacando que a experiência acumulada contribuem para sustentar sua competitividade.
Os outros 50
No campo da oposição, os nomes colocados até aqui enfrentam limitações semelhantes. Embora carreguem potencial de agenda econômica distinta da já vista, ainda convivem com resistências em temas sensíveis e não consolidaram uma base eleitoral suficientemente ampla.
Esteves citou, por exemplo, o caso de Flávio Bolsonaro, que reúne, ao mesmo tempo, força política e fragilidades. De um lado, herda o capital eleitoral e o reconhecimento do sobrenome Bolsonaro.
De outro, carrega também o desgaste associado a episódios do governo anterior, especialmente em áreas como gestão da pandemia, meio ambiente e relação institucional.
Esse equilíbrio entre ativos e passivos, na avaliação do banqueiro, impede que a candidatura avance de forma mais contundente sobre o eleitorado de hoje.
Além disso, o cenário recente trouxe novas peças para o tabuleiro. A entrada do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, foi classificada como uma surpresa em relação às expectativas anteriores, que apontavam para outros nomes no campo da centro-direita, como Ratinho Jr.
Ainda assim, o impacto tende a ser limitado. “Ele deve disputar o mesmo espaço, não muda muito o quadro e não ameaça o Lula”, disse Esteves.
Na margem, segundo ele, o movimento pode até beneficiar o atual presidente, ao fragmentar ainda mais o campo adversário. “Achei melhor para o Lula essa indicação”, afirmou.
Com isso, a oposição segue pulverizada e sem um nome capaz de unificar forças ou capturar de forma clara o eleitor em transformação, o que reforça a percepção de uma disputa em aberto.