NuCel do Nubank cresce, mas quem lucra é a Claro — e quem fica no prejuízo?
Depois de redesenhar o setor bancário, oNubank (NU;ROXO34) decidiu mirar outro mercado conhecido por tarifas confusas, contratos complexos e experiência frustrante: a telefonia móvel. A meta era ambiciosa: repetir a disrupção que transformou o “roxinho” em um dos maiores bancos digitais do mundo.
A lógica da NuCel parecia simples. Se o Nubank conseguiu simplificar um setor historicamente complicado como o bancário, por que não faria o mesmo com planos de celular? Mas, na prática, o caminho é menos óbvio.
O setor de telefonia brasileira é consolidado e resistente a mudanças rápidas, e talvez nem passe por uma revolução completa.
Desde 2022, com a saída da Oi (OIBR3) e a consolidação nas mãos da Vivo/Telefônica Brasil (VIVT3), Claro e TIM (TIMS3), o setor entrou em uma fase de previsibilidade rara. Receitas crescentes, margens em expansão e investimentos em 5G menos pesados que o esperado transformaram a telefonia móvel em um “porto seguro” para investidores.
Segundo a Anatel, as três operadoras dominam 94% do mercado móvel em janeiro de 2026, com a Vivo liderando (38%), seguida pela Claro (33,1%) e TIM (22,9%).
Em ambientes assim, novos entrantes costumam aparecer, seja por operadoras regionais como Brisanet e Unifique, seja por operadoras móveis virtuais (MVNOs), que alugam a infraestrutura das gigantes. Foi nessa segunda opção que o Nubank apostou.
Ao lançar a NuCel em 2024, o Nubank decidiu não atacar a estrutura do setor, com barreiras físicas altas como espectro e antenas. Em vez disso, escolheu operar como MVNO, usando a rede da Claro.
A estratégia muda a natureza da disputa: a NuCel não compete por qualidade de sinal ou cobertura, mas pela experiência do usuário e simplificação de planos.
Especialistas lembram que MVNOs historicamente não oferecem preços mais baixos, mas focam na experiência. Hoje, a NuCel se posiciona no meio do mercado, com planos a partir de R$ 45.
A fintech identificou como dor do consumidor cancelamentos difíceis, atendimento ineficiente e planos cheios de “asteriscos” e burocracia, e é nesse ponto que busca se diferenciar.
O modelo cria uma dinâmica curiosa: cada novo cliente da NuCel também gera receita para a Claro, a operadora que fornece a rede. “Ter metade de um cliente que antes era da Vivo é melhor do que não ter nada”, comenta um analista.
A NuCel estreou com expectativas altas, considerando que o Nubank já atingiu 113 milhões de clientes no Brasil, equivalente a 62% da população adulta. No entanto, até agosto de 2025, tinha apenas 58 mil usuários, uma fração mínima do mercado de mais de 270 milhões de linhas.
Mas, a partir do fim de 2025, a base acelerou graças a estratégias como chips físicos, bônus de dados, pagamento via conta Nubank, preços mais agressivos e marketing reforçado. Estimativas do Citi indicam 232 mil usuários no fim de 2025.
Desde setembro de 2025, a Anatel consolidou os clientes da NuCel na base da Claro.
Mesmo com crescimento, a NuCel não é vista como fonte relevante de receita, mas como instrumento estratégico para engajar clientes, reduzir churn e aumentar o tempo de uso do app. A lógica é semelhante à de big techs e fintechs no mundo.
Porém, depender da rede de um concorrente implica risco reputacional: falhas da Claro podem respingar na marca Nubank.
O maior trunfo da NuCel é também sua limitação: operar sobre a infraestrutura da Claro define um teto de crescimento.
Analistas lembram que poucas MVNOs se tornam grandes players, justamente por dependerem de redes de concorrentes. Porém, com a base massiva do Nubank, é possível ganhar escala relevante.
Mesmo pequena, a NuCel já mexe no mercado: dados de portabilidade indicam que a Claro ganhou clientes em fevereiro, possivelmente pela parceria, enquanto TIM e Vivo perdem terreno.
A TIM, com base jovem e urbana, maior exposição a pré-pago e maior churn, é a mais afetada. A Vivo, com base mais premium e pacotes convergentes, parece menos impactada, embora a NuCel Ultravioleta possa futuramente disputar clientes de alta renda.
No fim, a NuCel não é disruptiva como o Nubank no setor bancário, mas também não é apenas um experimento marginal. Ela segue um caminho intermediário: melhorar a experiência do cliente sem confrontar diretamente as grandes operadoras. Analistas estimam que novos entrantes, incluindo a NuCel, podem formar uma “quarta força” com 10% a 20% do market share.
O Bank of America projeta que, se a NuCel e outros entrantes conquistarem 10 milhões de assinantes, a receita da TIM cairia 2,8% e da Vivo 2,2%, impacto ainda não refletido nos preços das ações.
*Com informações do Seu Dinheiro