‘O Brasil é mais relevante para o açúcar do que a Opep é para o petróleo — e, ainda assim, somos price takers’
O Brasil é o maior produtor mundial de açúcar e responde por uma parcela dominante do comércio internacional da commodity, concentrando cerca de 2/3 do trade flow global.
Para o ex-CEO da Raízen (RAIZ4), Ricardo Mussa, esse peso torna o país ainda mais relevante para o mercado de açúcar do que a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) é para o petróleo — embora essa influência não se traduza em poder de formação de preços.
Como comparação, dados do Annual Statistical Bulletin da OPEP de 2024 mostram que a organização responde por cerca de 44% a 46% das exportações globais de petróleo cru. Quando se incluem derivados e todo o comércio internacional de petróleo, estimativas setoriais apontam que o OPEP concentra algo próximo de 60% do trade flow mundial.
“Mesmo com toda essa representatividade, não somos price makers (formadores de preço), mas price takers (tomadores de preço). Sempre acreditei que, pela qualidade do nosso açúcar e pela eficiência logística do Brasil, deveríamos ter um prêmio — o que não acontece. Temos alguns dos piores preços do mundo e frequentemente vendemos com desconto”, afirmou Mussa ao Money Times.
Ele cita o Japão como exemplo: o país favorece o açúcar tailandês em razão de acordos bilaterais mais vantajosos, enquanto o Brasil encontra dificuldades para acessar o mercado em condições semelhantes.
A falta de coordenação no mercado de açúcar
Para Mussa, o principal problema está na ausência de coordenação estratégica na exportação do açúcar brasileiro.
“O nosso açúcar sempre foi mal precificado. Quando você é o maior produtor, tem a melhor qualidade e a melhor logística, deveria ser premiado — e não descontado. Esse mercado precisaria ser mais bem cuidado, inclusive com maior envolvimento do Ministério da Agricultura”, avalia.
Ele faz um paralelo com o mercado de potássio no Canadá, onde o governo atuou para ajudar as empresas a se organizarem e exportarem de forma mais coordenada, ampliando o poder de negociação no mercado internacional.
Segundo Mussa, uma gestão mais estratégica do comércio externo do açúcar poderia gerar mais valor para o setor agrícola brasileiro e trazer benefícios econômicos mais amplos para o país.
Os ganhos potenciais com o acordo Mercosul–União Europeia
Na avaliação do executivo, o acordo Mercosul–União Europeia tende a ser positivo para o açúcar brasileiro, ao abrir espaço para negociações mais equilibradas e recolocar os acordos bilaterais e multilaterais no centro do debate. Mas vale ressaltar que essa abertura não representa grandes volumes adicionais.
“Historicamente, o Brasil nunca conseguiu acessar o mercado europeu, que é altamente protegido e subsidia fortemente a produção de açúcar de beterraba”, lembra.
Além disso, segundo ele, a política agrícola europeia frequentemente gerou excedentes artificiais, que acabaram sendo exportados e pressionaram negativamente os preços globais do açúcar.
Com regras mais claras entre Brasil e União Europeia, Mussa acredita que o produtor europeu perderá competitividade no mercado internacional, reduzindo essas distorções.
“Isso disciplina melhor o mercado europeu, para que ele deixe de ser um exportador de açúcar quando, estruturalmente, nunca deveria ser. Vejo essa influência da Europa sobre os preços internacionais diminuindo ao longo dos anos”, conclui.