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O Brasil um ano após o impeachment de Dilma

Gustavo Kahil é editor do Money Times. Texto publicado originalmente em Storia Brasil

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O então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, vota pela abertura do processo de impeachment

"Sr. Presidente. Permita-me, antes de ler o compromisso, que entregue a Vossa Excelência a minha declaração de bens” (veja vídeo abaixo aos 9'39''). Foi desta forma, em 29 de dezembro de 1992, que Itamar Franco tomava posse como o presidente da República diante do Congresso Nacional após a renúncia de Fernando Collor em meio ao processo de impeachment.

O gesto de Itamar ao tirar tal documento do bolso de seu paletó não fazia parte do protocolo, mas foi simbólico sobre a legitimidade que o político mineiro, alçado à presidência, buscava da sociedade em 1993. Em 2016, entretanto, a Lava Jato já assustava Brasília a cada dia e tornava tal postura um tanto quanto impensável para o sucessor de Dilma Rousseff. Essa pulga atrás da orelha da sociedade – e do mercado – pairou como uma nuvem negra sobre aqueles que apostavam em um novo governo.

Um ano depois da aprovação do impeachment na Câmara dos Deputados, o que praticamente sepultou as chances de Dilma se manter no Planalto, a “Lista de Fachin” deixou claro o que Michel Temer poderia ter dentro do paletó. O presidente foi citado diversas vezes nas delações de executivos e ex-executivos da Odebrecht, porém negou em vídeo que tenha negociado propina e que “não tem medo dos fatos”.

Vários paletós

Os investidores logo ficaram alvoroçados e temorosos sobre os efeitos de tal “fato”, afinal, não só Temer foi citado, mas também vários dos seus ministros estavam atolados na lama da Odebrecht. Isso tudo enquanto um terço do Senado e 39 deputados federais eram delatados em negociações que deixaram de cabelos em pé até os mais acostumados com a corrupção brasileira.

Afora a discussão política, economistas e investidores se questionavam sobre qual seria a capacidade de um novo governo mudar o rumo da política econômica do país, que já estava mergulhado no maior período recessivo de sua história. Claro, Dilma pode ter sido afastada pelo crime de responsabilidade ao cometer as famosas “pedaladas fiscais”, mas a verdade é que a queda foi em muito motivada pelas pobres decisões econômicas que levaram o Brasil para a recessão.

Foi algo parecido com Collor, que foi absolvido pelo STF (Supremo Tribunal Federal), mas nunca perdoado pela população que viu as suas poupanças sumirem em um dos seus planos econômicos furados.Temer, por sua vez, se mostrou muito mais sagaz do que se pensava e, ao montar um “dream team” com Henrique Meirelles (Fazenda), Ilan Goldfajn (Banco Central), entre outros, andou com reformas impopulares e muito necessárias.

Reformas

O governo aprovou neste curto período o teto de gastos para o governo e está à beira de chegar a um consenso para a reforma da Previdência e Trabalhista. Aos trancos e barrancos, a economia parece estar perto de deixar a recessão de 11 trimestres já neste início de ano. Um dado do Banco Central publicado hoje, inclusive, reitera essa visão ao mostrar um crescimento de 1,3% em fevereiro na passagem mensal.

Em 1993, após a mudança de governo, a expectativa da comunidade empresarial também melhorou substancialmente, provavelmente por conta da esperança de melhores políticas. O mercado de ações disparou 75% nos 12 meses após a renúncia de Collor. Agora, a alta é mais comedida e chega a 21% desde quando o 342º deputado votou “sim” pela abertura do processo de impeachment, mas é quase consenso entre os economistas que o processo de reformas implementado por Temer agora é o mais importante desde o Plano Real. Isto, talvez, tenha seja o que de mais importante o presidente tenha no bolso do seu paletó.


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