O CDB do Banco Master e o almoço grátis
O economista Milton Friedman (1912-2006) publicou em 1975 um livro que virou mantra no mercado financeiro. There Is No Such Thing as a Free Lunch. Não existe almoço grátis. Toda escolha tem custo. Toda vantagem aparente embute um risco. Em finanças, essa lógica é elementar. E conhecida.
O caso dos Certificados de Depósito Bancário (CDB) do Banco Master recolocou essa discussão no centro do debate. Não por ser algo novo. Mas porque expôs, mais uma vez, a dificuldade de parte do mercado em reconhecer princípios básicos das finanças
Os títulos emitidos pelo Master ofereciam rentabilidade acima da média e chegaram a pagar 140% dos juros de mercado medidos pelo CDI. Esse rendimento era excepcional e superava com folga o retorno oferecido por papéis de bancos concorrentes do Master. O motivo é simples: o risco de inadimplência oferecido pelo Master, um banco pequeno, sem operação de varejo e com ativos concentrados em poucos clientes, era maior.
Isso não estava escondido. Não era uma pegadinha. Estava na essência do produto. Qualquer investidor com conhecimento mínimo de finanças entende essa relação. Retorno e risco caminham juntos. Mesmo assim, quando o Master sofreu uma intervenção do Banco Central (BC) em dezembro de 2025 surgiram acusações e questionamentos. Assessores de investimento e plataformas de distribuição de produtos financeiros foram responsabilizados. E a capacidade de o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) lidar com a situação foi colocada em dúvida.
Segundo levantamento do E-Investidor, XP e BTG concentraram cerca de R$ 33 bilhões em CDBs do Banco Master. O valor corresponde a aproximadamente 83% do rombo total anunciado pelo FGC, de R$ 40 bilhões.
Os números não surpreendem. Essas duas plataformas são as maiores distribuidoras de investimentos do país, com uma base de milhões de clientes. São as que têm mais alcance e oferecem a maior variedade de produtos. Graças a elas, o mercado brasileiro de investimentos deixou de ser concentrado nos grandes bancos de varejo e foi possível a pequenos investidores ter acesso a alternativas antes disponíveis apenas a clientes dos private banks.
Plataformas de distribuição de produtos financeiros e assessores de investimento não obrigaram ninguém a comprar um CDB do Master. A regulamentação do mercado financeiro exige que os bancos e assessores informem formalmente o investidor dos riscos. O investidor pode (e deve) ler as advertências antes de investir (se lê de fato é outra história).
Na hora de investir, quem ofereceu os CDBs do Master informou os riscos, além da data de vencimento, da rentabilidade e da garantia do FGC. A decisão final é do investidor. Transferir a responsabilidade integral para a plataforma é confortável. Mas não é correto.
Um supermercado vende produtos com muito sal, açúcar e gordura. Em excesso, esses produtos fazem mal à saúde. Em alguns casos, como no caso de pacientes hipertensos e diabéticos, sal e açúcar fazem mal ainda que em poucas quantidades.
Graças a um avanço recente (e positivo) na legislação, os fabricantes de alimentos processados têm de informar se o produto é rico em sódio, açúcar ou gordura saturada. O cliente sabe (ou deveria saber) o que está comprando. Não há pessoas armadas nos corredores do supermercado forçando clientes a comprar salame ou chocolate. A decisão é individual e o supermercado não é responsável.