O fim do orelhão: Anatel manda retirar telefones públicos das ruas a partir de 2026
Durante décadas, ele esteve ali: na esquina, na praça, em frente ao bar ou ao lado do ponto de ônibus. Agora, vai sair de cena de vez. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) autorizou o recolhimento definitivo dos últimos orelhões ainda espalhados pelo país, encerrando oficialmente um dos capítulos mais icônicos da história da telefonia no Brasil.
A decisão faz parte do cronograma oficial da Anatel. Com a popularização do celular, dos aplicativos de mensagem e das ligações por internet, os telefones públicos perderam função, manutenção e sentido econômico.
A história do orelhão
“De repente – notaram? – a rua melhorou em São Paulo, com o aparecimento do telefone-capacete.” Foi assim que Carlos Drummond de Andrade reportou o surgimento do Orelhão no cenário brasileiro, em sua crônica “Amenidades da Rua”.
Criado em 1971, o Orelhão recebeu vários apelidos, como tulipa e capacete de astronauta, porém o nome técnico na CTB era Chu II, em homenagem a sua criadora Chu Ming Silveira.
Na época, Chu chefiava o Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira e assumiu o desafio de criar um protetor para telefones públicos que reunisse funcionalidade e beleza.
A inauguração para o público veio apenas em janeiro de 1972, quando orelhões foram instalados no Rio de Janeiro, no dia 20, e em São Paulo, no dia 25.
Agora, quase 54 anos depois, os telefônicos públicos estão vivendo seus últimos dias nas ruas brasileiras.
Quando o telefone era território neutro
Antes da geolocalização, dos históricos de chamadas em nuvem e das notificações em tempo real, o orelhão oferecia algo raro: uma ligação sem rastros pessoais imediatos. Não por acaso, virou personagem recorrente do cinema. Cada ligação é um risco calculado, cada ficha depositada carrega tensão.
Em “O Agente Secreto”, filme com direção de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura como protagonista, o telefone público aparece como parte do imaginário da espionagem clássica: aquele mundo em que informação circulava por códigos, encontros rápidos e chamadas curtas, feitas longe de casa.
O orelhão não era só cenário: era ferramenta narrativa.
Hollywood também entendia isso. Em “Donnie Brasco”, o personagem de Johnny Depp, um agente infiltrado na máfia, usava telefones públicos como quem troca de pele.
A decisão da Anatel
A decisão da Anatel acontece porque terminam as concessões do serviço de telefonia fixa das empresas responsáveis pelos aparelhos. Assim, a Oi, Algar, Claro, Sercomtel e Telefônica não são mais obrigadas a manter telefones fixos e orelhões nas ruas.
A estimativa é que cerca de 30 mil orelhões sejam removidos ao longo deste ano, principalmente em áreas centrais, corredores comerciais e avenidas de grande circulação.
Apesar da retirada dos orelhões, a Anatel avalia que o serviço ainda pode ser necessário em pontos específicos do país, como regiões rurais, áreas remotas e comunidades indígenas.
Além disso, as empresas de telefonia devem fazer investimentos em redes de banda larga ou móveis.