O impacto indireto da invasão dos EUA na Venezuela para o agronegócio: ‘Minha grande preocupação é com a política agrícola e comercial’
Apesar de não enxergar impactos diretos no curto prazo para o agronegócio do Brasil em meio a operação dos EUA na Venezuela, o professor do Insper, Marcos Jank, vê um movimento norte-americano com objetivo de reduzir a influência da China na América Latina.
“Isso pode afetar, no futuro, países como o Brasil, que têm relações comerciais muito fortes com a China no agronegócio. Esse tema não é imediato, mas está no horizonte estratégico. O Brasil precisará navegar com cuidado nesse novo cenário geopolítico”, comentou, ao Money Times.
Jank lembra que a crise na Venezuela é mais uma entre várias que existem hoje no mundo. “Temos problemas na Europa, no Oriente Médio, no entorno da China. O mundo caminha para uma fragmentação maior”, pontua.
A grande preocupação de Marcos Jank
Para o produtor brasileiro em 2026, o recado do professor do Insper é claro: aprofundar a gestão de risco e o controle da empresa.
“Antes, era possível trabalhar com um cenário provável de médio e longo prazo. Hoje, isso não existe mais. É preciso trabalhar com vários cenários, porque as surpresas vêm do clima, da geopolítica, da política doméstica e das eleições. Muitas dessas variáveis são exógenas. Um conflito entre Estados Unidos e China, por exemplo, pode afetar profundamente o agro brasileiro sem que o produtor tenha qualquer controle sobre isso”.
A grande preocupação do especialista é sobre o que os EUA farão na política agrícola e comercial externa. “Eles querem recuperar mercados e estão pressionando países a conceder acesso privilegiado. Todas as negociações do Trump — com Europa, Japão e China — envolvem produtos agropecuários. Os EUA são o maior concorrente do Brasil. A política comercial agrícola americana, especialmente na Ásia, nos afeta diretamente”.
Marcos Jank lembra que o “farmer” americano tem competitividade e reforça que o produtor do país depende de fertilizantes, defensivos, máquinas e mão de obra baratos. “As tarifas elevaram custos, há escassez de mão de obra, e os produtores estão desanimados. Eles sofreram com quedas fortes em soja e do boi. Trump promete subsídios compensatórios, mas isso é uma distorção: você cria o problema com tarifas e depois tenta consertar com subsídio. Historicamente, os EUA defenderam comércio aberto — esse protecionismo tende a prejudicar o agricultor americano”.
Desde 2017, o Brasil se beneficiou do enfraquecimento das relações EUA–China. Agora, com tarifas contra o mundo inteiro, isso não é positivo para um setor que depende tanto do comércio global como o agro.
Brasil x EUA: produtividade e competitividade
O professor do Insper faz um exercício e diz que a agricultura brasileira avançou muito mais rápido que a norte-americana nos últimos 20 anos.
“Nossos sistemas integrados são hoje mais eficientes. Nos anos 1970, fomos aos EUA aprender; hoje, o Brasil se tornou o maior exportador mundial de commodities agropecuárias. Isso não significa que é fácil produzir aqui — temos insegurança jurídica e entraves institucionais — mas, em termos de produtividade, estamos puxando a fila”.
O risco para Jank, é que, à medida que o farmer americano perde espaço, ele pressione politicamente para culpar o Brasil e tentar nos tirar do mercado. “Isso exige atenção redobrada às novas ‘regras do jogo’, que hoje são unilaterais e bilaterais, não mais multilaterais. A OMC perdeu relevância”.