O mito da desaceleração da China: Por que a “fragilidade” econômica é, na verdade, um salto para a autonomia tecnológica
A meta de crescimento econômico entre 4,5% e 5% anunciada recentemente pela China tem provocado interpretações divergentes entre analistas internacionais. Para observadores acostumados às taxas de dois dígitos que caracterizaram a economia chinesa nas décadas anteriores, esse intervalo pode parecer modesto.
Em algumas análises mais pessimistas, esse objetivo chegou a ser interpretado como sinal de perda estrutural de dinamismo ou até como indício de um possível declínio econômico.
Essa leitura, no entanto, ignora um aspecto fundamental: a economia chinesa de hoje é profundamente diferente da economia chinesa de duas décadas atrás.
Com um PIB superior a US$ 17,7 trilhões, a China representa cerca de 18% da economia mundial. Em uma economia desse porte, crescer entre 4,5% e 5% ao ano significa adicionar aproximadamente US$ 800 bilhões a US$ 900 bilhões em nova produção econômica por ano.
Esse incremento anual equivale ao tamanho de economias inteiras como Suíça ou Arábia Saudita. Ou seja, mesmo com taxas de crescimento mais moderadas do que no passado, a China continua sendo um dos principais motores da expansão econômica global.
A nova meta precisa ser entendida dentro de uma transformação estrutural do modelo econômico chinês que vem sendo conduzida nos últimos anos.
Durante mais de três décadas, o crescimento do país foi impulsionado principalmente por exportações manufatureiras e investimentos intensivos em infraestrutura e construção imobiliária. Esse modelo foi extremamente eficaz para acelerar a industrialização e integrar a China às cadeias globais de produção.
Nos últimos cinco anos, entretanto, a política econômica chinesa passou a enfatizar um novo equilíbrio. O objetivo é fortalecer o mercado doméstico, distribuir renda de forma mais igualitária, expandir o consumo das famílias e aumentar o peso da inovação tecnológica no crescimento econômico.
Essa transição exige necessariamente um ritmo de crescimento mais moderado, que permita ajustes estruturais importantes do próprio mercado sem gerar instabilidade econômica.
Nesse contexto, o intervalo de crescimento entre 4,5% e 5% funciona como uma espécie de zona de estabilidade macroeconômica que permite à economia chinesa consolidar seu novo modelo de desenvolvimento nesse primeiro ano de 15º plano quinquenal.
Fortalecimento do mercado interno e redução de dependência externa
Um dos aspectos centrais dessa transformação é a redução gradual da dependência externa da economia chinesa. Em meados dos anos 2000, as exportações representavam mais de 36% do PIB da China. Hoje, essa participação caiu para cerca de 19% do PIB, refletindo uma economia muito mais orientada para o mercado doméstico.
Esse processo é reforçado pelo tamanho do mercado interno chinês. O país possui hoje mais de 400 milhões de consumidores de classe média, formando um dos maiores mercados consumidores do mundo.
O crescimento da renda média, a erradicação da pobreza, a urbanização contínua e a expansão da economia digital têm ampliado progressivamente o papel do consumo interno na dinâmica econômica do país.
Essa mudança estrutural reduz significativamente a vulnerabilidade da China a choques externos. Em algumas análises recentes, argumenta-se que tensões geopolíticas envolvendo rotas energéticas ou conflitos em regiões produtoras de petróleo poderiam fragilizar de forma decisiva a economia chinesa. No entanto, a própria evolução da estrutura energética e industrial do país sugere uma realidade diferente.
Forte presença nas cadeias indústria de economia verde
A China tornou-se líder global em energias renováveis e responde atualmente por cerca de 50% da capacidade global instalada de energia solar e eólica. No setor de energia solar, empresas chinesas produzem mais de 80% dos painéis fotovoltaicos do mundo. Essa liderança reduz gradualmente a dependência energética externa e fortalece a posição do país na transição energética global.
Ao mesmo tempo, a economia chinesa consolidou uma posição dominante em diversas ecossistemas e cadeias industriais estratégicas. Empresas chinesas respondem por mais de 60% das vendas globais de veículos elétricos, enquanto o país controla grande parte da cadeia mundial de produção de baterias de lítio.
Em 2025, a China alcançou um avanço importante na indústria de semicondutores, dominando a produção e exportação de chips de 7 nanômetros com tecnologia própria. Esse avanço reflete uma transformação profunda da estrutura produtiva chinesa, que passa a competir cada vez mais com base em tecnologia e inovação.
Essa transformação tecnológica é sustentada por investimentos crescentes em pesquisa e desenvolvimento. Em 2023, os gastos chineses em P&D ultrapassaram 3 trilhões de yuans, equivalentes a aproximadamente US$ 420 bilhões, representando cerca de 2,6% do PIB. Em termos absolutos, a China já é o segundo maior investidor mundial em inovação, atrás apenas dos Estados Unidos.
Internacionalização de RMB
Outro elemento frequentemente subestimado nas análises sobre o futuro da economia chinesa é a crescente internacionalização do renminbi (RMB). Nos últimos anos, o uso internacional da moeda chinesa tem avançado de forma gradual, mas consistente. Atualmente, o RMB já responde por cerca de 4% a 5% dos pagamentos globais, tornando-se uma das moedas mais utilizadas no comércio internacional.
Mais relevante ainda é o crescimento do uso do renminbi no comércio bilateral entre países emergentes e em acordos financeiros regionais. A China estabeleceu acordos de swap cambial com dezenas de bancos centrais e tem incentivado a liquidação de comércio exterior diretamente em RMB. Esse processo reduz gradualmente a dependência de moedas intermediárias e amplia a autonomia financeira do país.
A expansão do sistema de pagamentos internacional chinês, o CIPS, e o desenvolvimento de centros financeiros offshore em renminbi também contribuem para fortalecer o papel internacional da moeda chinesa. Esse avanço não significa substituir o dólar no curto prazo, mas indica uma tendência de maior diversificação no sistema monetário internacional.
Inteligência Artificial (IA) aplicada compensa o envelhecimento da população
Outro argumento frequentemente citado por críticos refere-se ao envelhecimento da população chinesa. De fato, a China enfrenta mudanças demográficas relevantes nas próximas décadas. No entanto, esse fenômeno também ocorre em diversas economias avançadas.
No caso chinês, os efeitos demográficos vêm sendo parcialmente compensados por ganhos expressivos de produtividade por aplicação de IA aplicada à manufatura e aos produtos do cotidiano
A China tornou-se o maior mercado mundial de robótica industrial, respondendo por mais da metade das novas instalações globais de robôs industriais nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, o país forma anualmente milhões de graduados em engenharia, ciência e tecnologia, fortalecendo sua base de capital humano e sua capacidade de inovação.
Nivel de endividamento sustentável
Também é comum encontrar críticas relacionadas ao nível de endividamento da economia chinesa, que supera 100% do PIB. Embora esse número pareça elevado à primeira vista, é importante observar que a maior parte dessa dívida é doméstica e denominada em moeda local.
Além disso, a China possui uma taxa de poupança extremamente elevada, próxima de 44% do PIB, o que fornece uma base robusta de financiamento interno.
Além disso, a posição financeira agregada do país permanece sólida quando se observam outros indicadores macroeconômicos. A China mantém reservas internacionais superiores a US$ 3 trilhões, um sistema bancário majoritariamente doméstico e forte capacidade de coordenação estatal do crédito. Diferentemente de muitas economias emergentes, a dívida externa representa apenas uma fração limitada do total, reduzindo riscos cambiais e de fuga de capitais.
Paralelamente, o novo modelo de crescimento baseado em indústrias de alta tecnologia — como semicondutores, veículos elétricos, inteligência artificial e energias renováveis — amplia a base produtiva e gera novas receitas tributárias, fortalecendo a capacidade fiscal do Estado.
Nesse contexto, o alto nível de poupança interna e a profundidade do sistema financeiro permitem que o endividamento funcione principalmente como instrumento de investimento produtivo, e não como um fator estrutural de instabilidade econômica.
Conclusão
Portanto, essas características tornam a economia chinesa estruturalmente menos vulnerável a crises financeiras externas do que muitas economias emergentes dependentes de financiamento internacional.
Diante desse conjunto de transformações, interpretar a meta de crescimento entre 4,5% e 5% como sinal de fraqueza econômica pode levar a conclusões equivocadas. Em muitos aspectos, essa meta reflete justamente o contrário: uma estratégia deliberada de transição para um modelo de desenvolvimento mais equilibrado, mais inovador e menos dependente de fatores externos.
Para uma economia do tamanho da China, o desafio central já não é apenas crescer rapidamente, mas crescer com maior qualidade, maior autonomia financeira e maior capacidade tecnológica.
Nesse sentido, a nova meta de crescimento representa menos uma desaceleração e mais um sinal de maturidade econômica de uma economia que continua a se transformar e a desempenhar um papel central na dinâmica da economia global.