O novo rosto dos investimentos alternativos
Durante décadas, os chamados investimentos alternativos ocuparam um espaço muito específico dentro dos portfólios globais. Ativos pensados para reduzir correlação com os mercados tradicionais, suavizar a volatilidade e adicionar fontes de retorno menos dependentes do humor diário das bolsas. Em geral, cumpriam esse papel por meio de estruturas ilíquidas, com horizonte de longo prazo, e acesso restrito a grandes investidores institucionais como fundos de pensão, endowments universitários e seguradoras.
O modelo tradicional desses investimentos era pouco amigável ao investidor comum. Exigia aportes elevados, frequentemente na casa dos milhões, envolvia chamadas de capital ao longo do tempo, tradicionalmente durante 3 a 5 anos, períodos longos de lock-up (7 a 12 anos, geralmente) e liquidez praticamente inexistente até o encerramento do fundo. Em troca, oferecia acesso a ativos privados como crédito, imóveis, infraestrutura e participações em empresas, fora do alcance do mercado público. Nos últimos anos, esse cenário começou a mudar de forma estrutural. E o surgimento das chamadas estruturas evergreen, ou semi-líquidas, está no centro dessa transformação.
Esses veículos mantêm a essência dos alternativos, ativos privados, horizonte longo e foco em geração de renda e preservação de capital, mas com um formato mais acessível. Em vez de fundos com prazo determinado, os evergreen são estruturas contínuas, que permitem entradas regulares e oferecem janelas periódicas de liquidez, ainda que limitadas. Não são fundos líquidos no sentido tradicional, mas representam um meio-termo entre o mundo fechado dos alternativos clássicos e o universo aberto dos fundos tradicionais.
Essa inovação veio resolver um problema real: como permitir que mais investidores se conectem a mercados privados sem comprometer a lógica de longo prazo desses ativos. Ao eliminar chamadas de capital e simplificar o processo de investimento, os fundos evergreen ampliaram significativamente o público potencial desse tipo de estratégia, especialmente no universo de wealth management.
Mas a expansão dos mercados privados não começou aí. Ela tem raízes profundas na crise financeira de 2008. A partir daquele momento, bancos passaram a operar sob regras regulatórias muito mais rígidas, com exigências maiores de capital e menor apetite para emprestar a empresas médias. Esse espaço foi progressivamente ocupado por gestores de crédito privado, que passaram a atuar diretamente no financiamento da economia real, oferecendo soluções mais flexíveis, escaláveis e adaptadas às necessidades das empresas.
Esse movimento não é marginal. O mercado de crédito privado já alcançou escala global e segue em forte expansão. Hoje, somam cerca de US$ 15 trilhões, com projeção de atingir US$ 23 trilhões até 2030. Dentro desse universo, o crédito privado representa aproximadamente US$ 4,5 trilhões e deve mais que dobrar nos próximos cinco anos.
Este segmento é um dos que mais cresce dentro dos mercados alternativos, com estimativas apontando para uma expansão contínua nos próximos anos, à medida que empresas permanecem privadas por mais tempo e buscam soluções de financiamento fora do mercado público. Esse crescimento foi acompanhado pela consolidação de grandes plataformas globais, com destaque para gestores como Blackstone, Apollo, KKR, Ares, Blue Owl, Oaktree e, mais recentemente, a própria BlackRock após a integração de plataformas especializadas. A presença desses players reflete não apenas escala, mas também capacidade de originação, diversificação e gestão de risco ao longo do ciclo, fatores essenciais em um mercado que deixou de ser nicho e passou a desempenhar papel no financiamento da economia real.
O crédito privado passou a ganhar maior protagonismo e, mais recentemente, também maior escrutínio. Nos últimos meses, alguns defaults pontuais (na grande maioria com impacto nos mercados públicos) trouxeram destaque na imprensa internacional ao universo de crédito privado. O tema ganhou ainda mais visibilidade depois que Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, afirmou que o setor merecia atenção redobrada, reacendendo o debate sobre riscos ocultos, governança e possíveis excessos acumulados ao longo do ciclo.
A leitura inspirada no recente memo de Howard Marks, da Oaktree, ajuda a colocar esses episódios em perspectiva. Como ele costuma lembrar, os mercados têm uma tendência recorrente de se fixar em um único foco de preocupação por vez. Quando surgem os primeiros sinais negativos, a narrativa rapidamente migra do entusiasmo para o receio de um colapso sistêmico, como se fossem “baratas na mina de carvão”, utilizando a metáfora de Marks. Foi assim em diversos ciclos passados, e o crédito privado parece ocupar agora esse papel no imaginário do mercado.
Isso não significa ignorar os alertas. Pelo contrário: monitorar a qualidade dos ativos, a disciplina de originação e os níveis de alavancagem é essencial. Haverá, inevitavelmente, operações mal estruturadas, gestores menos rigorosos e créditos que não performarão como esperado. Defaults fazem parte da natureza de qualquer mercado de crédito, seja ele público ou privado.
O ponto central é distinguir ruído de risco sistêmico. Até aqui, os episódios observados parecem muito mais idiossincráticos do que generalizados. Diferentemente de crises bancárias ou de mercados públicos altamente alavancados, grande parte do crédito privado está estruturada em posições sêniores, com garantias reais, colaterais específicos e maior controle do credor sobre a relação com o tomador. Essa estrutura não elimina perdas, mas tende a amortecer impactos e aumentar as chances de recuperação quando algo dá errado.
Esse contexto reforça dois pontos fundamentais. O primeiro é a importância da escolha do gestor. Em mercados privados, a dispersão de resultados é grande. Gestores experientes fazem diferença na originação, na análise de risco, na estrutura das garantias e na condução dos créditos ao longo do ciclo. Histórico, cultura de risco e disciplina importam, especialmente quando o ciclo começa a ficar mais desafiador.
O segundo ponto, particularmente relevante para o investidor de varejo, é o alinhamento de expectativas. Fundos de crédito privado e outras estratégias alternativas não devem ser vistos como a parte líquida da carteira. São investimentos de longo prazo, desenhados para atravessar ciclos econômicos completos, e não instrumentos para atender necessidades imediatas de caixa. Entender essa característica é crucial para evitar frustrações e decisões precipitadas em momentos de maior volatilidade ou estresse de mercado.
Além do crédito privado, outras estratégias alternativas também vêm ganhando espaço em estruturas evergreen. Fundos imobiliários focados em sale and leaseback ou triple net lease oferecem exposição a imóveis de alta qualidade com contratos longos e previsíveis. Já os fundos de infraestrutura investem em ativos essenciais, energia, logística, saneamento, dados, com fluxos de caixa estáveis e menor sensibilidade ao ciclo econômico tradicional. Em comum, essas estratégias compartilham o objetivo de gerar renda consistente e diversificação real dentro do portfólio.
No fim das contas, a expansão dos investimentos alternativos não é apenas uma tendência de produto, mas um reflexo de mudanças estruturais na economia e na construção de portfólios. As estruturas evergreen não eliminam riscos nem substituem a análise criteriosa, mas ajudam a tornar esse universo mais acessível e mais integrado às alocações de longo prazo.
Como sempre, o desafio não está em evitar riscos a qualquer custo, mas em entendê-los, precificá-los e conviver com eles de forma disciplinada, sem se deixar levar nem pelo entusiasmo excessivo, nem pelo pessimismo de curto prazo.
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