Coluna
Fundos de Investimento

O que explica o rápido avanço dos FIDCs?

20 jan 2026, 15:20 - atualizado em 20 jan 2026, 16:14
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Os FIDCs deixaram de ocupar um espaço periférico e passaram a desempenhar papel relevante no mercado de crédito do país. (Imagem: iStock/Rmcarvalho)

A trajetória recente dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) evidencia uma reorganização profunda no mercado de crédito brasileiro. O fato de o setor ter ultrapassado R$ 733 bilhões em patrimônio líquido em 2025 e caminhar para atingir R$ 1 trilhão já nos primeiros meses de 2026 não é apenas um marco numérico. Esses valores demonstram que os FIDCs deixaram de ocupar um espaço periférico e passaram a desempenhar papel relevante no mercado de crédito do país. A velocidade desse crescimento revela que há uma mudança estrutural em curso, impulsionada por fatores que vão desde a transformação regulatória até a busca por alternativas ao crédito bancário tradicional.

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O ponto de partida dessa expansão está na própria dinâmica do crédito no Brasil. Hoje, cerca de 76% do crédito ainda está concentrado nos bancos, mas projeções indicam que essa participação tende a cair de forma contínua. A expectativa de que o mercado de capitais alcance 37% do crédito total até 2029 e ultrapasse o sistema bancário em 2034, chegando a 51%, mostra que há um deslocamento gradual, porém consistente, da fonte de financiamento das empresas. Os FIDCs se beneficiam diretamente desse movimento porque oferecem estruturas capazes de atender demandas que o sistema bancário não absorve com a mesma flexibilidade. Empresas de diferentes portes e setores encontram nesses fundos uma forma de transformar recebíveis pulverizados em capital, algo que amplia o acesso ao crédito e reduz a dependência das linhas tradicionais.

Esse avanço também está ligado ao amadurecimento do crédito alternativo no país. O crescimento de instrumentos como debêntures, Notas Comerciais, CRIs, CRAs e CRs criou um ambiente no qual as empresas passaram a enxergar o mercado de capitais como um canal viável e eficiente para captar recursos. À medida que esses produtos ganharam escala, aumentou a familiaridade com estruturas de securitização e com mecanismos de avaliação de risco mais sofisticados. Os FIDCs se inserem nesse contexto como uma extensão natural desse processo, oferecendo uma solução que combina originação especializada, análise granular de recebíveis e capacidade de estruturar operações sob medida.

A regulação desempenhou papel decisivo nesse cenário. A Resolução 175 da CVM ampliou o acesso de investidores a diferentes classes de fundos e padronizou regras de governança e divulgação de informações. No caso dos FIDCs, a maturação das estruturas com cotas sêniores e subordinadas foi determinante para o ganho de escala. As cotas sêniores, por terem prioridade no recebimento dos fluxos de pagamento das amortizações e resgates, normalmente oferecem um baixo risco e agora são permitidas a investidores de varejo (público amplo) que antes não participavam desse mercado. Esse movimento ampliou a base de investidores e fortaleceu a liquidez dessas cotas. Em paralelo, investidores institucionais intensificaram a compra de cotas de FIDCs, reforçando a percepção de segurança e contribuindo para a expansão contínua da indústria.

Outro elemento que sustenta o crescimento é o apetite por retornos acima do CDI. Em um ambiente no qual a taxa que reflete o custo dos empréstimos entre bancos se tornou referência para boa parte dos investimentos de renda fixa, os FIDCs passaram a oferecer uma alternativa capaz de entregar remuneração bem superior sem abrir mão de mecanismos de mitigação de risco. Essa combinação atraiu especialmente investidores institucionais, que buscam previsibilidade, mas também precisam de instrumentos que superem o rendimento básico do mercado.

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A digitalização da originação de crédito reforça ainda mais esse movimento. Plataformas tecnológicas permitem avaliar riscos com maior precisão, integrar dados de diferentes fontes e estruturar operações com agilidade. Isso reduz custos, amplia o alcance dos fundos e facilita a entrada de empresas que antes não tinham acesso a esse tipo de financiamento. A digitalização também contribui para a padronização de processos e para o aumento da transparência, fatores que fortalecem a confiança dos investidores e ampliam o potencial de crescimento do mercado.

O resultado desse conjunto de fatores é visível na própria participação dos FIDCs dentro da indústria de fundos. Com 6,8% de representatividade, eles já superam os fundos de ações, algo impensável há poucos anos. A expectativa para 2026 é de continuidade da expansão, impulsionada por estruturas mais complexas, fundos multissetoriais e maior capacidade de originação. A combinação entre ambiente regulatório mais claro, demanda reprimida por crédito e busca por retornos mais atraentes coloca os FIDCs no centro da expansão do mercado de capitais brasileiro.

Se as projeções se confirmarem, o setor não apenas alcançará a marca simbólica de R$ 1 trilhão, mas consolidará sua posição como um dos principais vetores de transformação financeira do país. O crescimento acelerado dos FIDCs não é um fenômeno conjuntural, mas um reflexo de mudanças profundas na forma como o crédito é estruturado, distribuído e acessado no Brasil.

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Fundador e diretor-presidente da Ouro Preto Investimentos
João Baptista Peixoto Neto é graduado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, cursou mestrado em Direito Internacional na USP e é especialista em produtos financeiros e gestão de riscos pela FIA/FEA/USP. Nos anos de 2006 a 2019, esteve entre os primeiros colocados na categoria de estruturação de fundos de recebíveis no Brasil FIDC’s pelo ranking da empresa UQBAR, tendo sido responsável pela estruturação de mais de 300 fundos. Faz parte dos Comitês da Anbima de FII e FIDC.
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João Baptista Peixoto Neto é graduado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, cursou mestrado em Direito Internacional na USP e é especialista em produtos financeiros e gestão de riscos pela FIA/FEA/USP. Nos anos de 2006 a 2019, esteve entre os primeiros colocados na categoria de estruturação de fundos de recebíveis no Brasil FIDC’s pelo ranking da empresa UQBAR, tendo sido responsável pela estruturação de mais de 300 fundos. Faz parte dos Comitês da Anbima de FII e FIDC.
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