Internacional

O que Irã e Venezuela têm a ver com a disputa EUA-China, e por que o gigante asiático está fadado a perder, na visão deste gestor

09 mar 2026, 14:27 - atualizado em 09 mar 2026, 14:27
china eua
(iStock: primeimages)

Os recentes ataques dos EUA ao Irã, bem como a invasão da Venezuela, no começo deste ano, não têm a ver exclusivamente com estes países. O pano de fundo, na verdade, é a disputa geopolítica entre os EUA e a China, afirma o economista Walter Maciel, CEO da gestora AZ Quest.

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Maciel foi responsável pelo painel sobre “Visão de Mundo” durante um evento da Blue3 Investimentos no último sábado (7), em Ribeirão Preto (SP).

“A disputa final não é contra o Irã. Nunca foi. Nem contra a Rússia. Nem contra a Venezuela, muito menos. A disputa geopolítica é entre Estados Unidos e China”, afirmou ele. “E, na nossa geração, há hoje uma dúvida muito grande: quem vai vencer essa corrida? Eu, pessoalmente, acho que ela já está vencida.”

Na visão do gestor, a China está fadada a perder essa batalha (leia mais abaixo).

O lado bom de Trump

Maciel falou de forma entusiasmada sobre o atual momento dos Estados Unidos, atraindo investimentos para a indústria norte-americana, mas reconheceu que o presidente Donald Trump tem lá seus defeitos.

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Walter Maciel, CEO da AZ Quest

“O Trump é um cara, vamos dizer assim, brusco. Que fala de uma maneira arrogante, às vezes, e arruma muito inimigo”, ponderou. Mas concluiu que o líder norte-americano não está errado em suas decisões geopolíticas. “Obama e Biden tentaram sentar com China, tentaram sentar com Irã, tentaram fazer acordo, fazer negociação, ficaram 20 anos fazendo acordo, chegaram a lugar nenhum.”

No caso específico do Irã, segundo ele, houve o avanço nos planos de dominar a tecnologia de armas nucleares, o que é preocupante em se tratando de um país que financia o terrorismo no mundo todo, diz que tem como missão eliminar o Estado de Israel, sustenta o Hamas e o Hezbollah e, além disso, “é uma peça importante dentro do xadrez entre EUA e China”.

Por que a China está fadada a perder

Segundo o economista, a China hoje enfrenta desafios matemáticos que não têm solução, exatamente como aconteceu no passado recente com outro país oriental.

“A gente vai ter uma crise financeira nos próximos três anos, muito provavelmente, e uma crise fiscal seríssima nos próximos cinco. E, depois, a gente vai ver uma estagnação a la Japão”, disse, referindo-se ao país que enfrentou 30 anos de economia estagnada e perdeu seu posto de maior rival norte-americano após o boom dos anos 1980.

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O que deu errado com o Japão e deve dar errado também com a China, continua Maciel, foram três fatores: um problema demográfico (a queda da taxa de natalidade, combinada ao envelhecimento populacional), o endividamento fiscal (a dívida pública no caso da China chega a 350% do PIB), somados a uma crise imobiliária.

Além disso, segundo ele, a China hoje depende massivamente da importação – de petróleo, soja e insumos em geral – e os investimentos estatais em inovação e em IA não têm o mesmo nível de retorno que nos EUA.

“Quem mora no Brasil tem obrigação de saber que investimento estatal não é muito produtivo. O modelo chinês hoje gasta US$ 500 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. Até hoje não consegue produzir um semicondutor de ponta. A China até hoje não consegue produzir um motor de avião. A China, onde tinha o New Coronavirus Laboratório, que é onde o negócio explodiu, até hoje não consegue fazer uma vacina RNA eficiente.”

A principal diferença entre os dois países asiáticos, pontua Maciel, é que, enquanto nos últimos 40 anos o Japão teve quase 30 primeiros-ministros, na China o poder se manteve de forma autoritária com o líder do Partido Comunista.

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Seria esse regime, então, inquebrável? Na opinião do gestor, como aconteceu na antiga União Soviética, em que o sistema autoritário parecia tão sólido, mas ruiu em três meses, um futuro semelhante deve acontecer para o regime chinês.

O caso do Irã e da Venezuela

O que se vê no caso dos ataques ao Irã e da invasão à Venezuela, afirma Maciel, é “uma demonstração da superioridade militar e tecnológica dos EUA”. A motivação para as iniciativas, segundo ele, é que os dois países eram alvos de sanções globais e forneciam petróleo a preços mais baixos para a China.

E a China não resolveu retaliar. Após a invasão militar dos EUA à Venezuela, a decisão do gigante asiático foi não reagir. “Qual foi a reação da China? Nenhuma. Baixou a cabeça. O que o [Nicolas] Maduro aprendeu, ou quem está lá olhando: a China não vai me ajudar. Ela não vai brigar com o americano.”

Ainda segundo Maciel, o Irã também era o maior fornecedor de drones para a Rússia, o que deve acabar afetando positivamente o conflito com a Ucrânia. “Você tirou o petróleo da Venezuela, tirou o petróleo do Irã, e o Irã era o maior fornecedor de drones para quem? Para a Rússia. Além disso, você vai matar a capacidade do [Vladimir] Putin de fazer guerra com a Ucrânia.”

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Nova ordem mundial – e o Brasil?

O resultado disso tudo, na visão do gestor, é uma nova ordem mundial: um mundo unipolar, em que não há várias superpotências, mas só uma: os EUA. “Eu tenho absoluta convicção disso”, afirmou Maciel. “A China está perdendo a Venezuela, está perdendo o Irã, já já vai perder a Rússia, e vai ficar sozinha com a Coreia do Norte.”

Esse mundo unipolar, opina ele, é um mundo com menos risco e onde o preço da energia tende a despencar. O problema, segundo ele, é o Brasil estar alinhado ao lado errado da briga.

“Porque o Brasil não só não está fazendo o que foi sempre a nossa tradição, de se dar bem com todo mundo, de não brigar com ninguém, mas, além disso, escolheu ser um parceiro do ‘cara’ errado. E isso pode custar caro demais para a gente.”

* A jornalista viajou a convite da Blue3 Investimentos.

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É jornalista formada pela ECA-USP, com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais para Jornalistas pela B3. Tem mais de 25 anos de experiência e passagem pelas principais redações do país – entre elas, Estadão, Folha, UOL e CNN Brasil. Atualmente, é editora-chefe do Money Times.
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