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Brasil

Opinião: Assim como no mito da Caixa de Pandora, a última coisa que resta é a esperança

03 set 2026, 15:14
(Gustavo Moreno/STF)

Vou dizer o que precisa ser dito. E desta vez vou até o fim, porque a história não cabe em 30 segundos, e porque no fim vou dizer a única coisa que ninguém está dizendo.

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Todo mundo está olhando para as mensagens, para o contrato, para o uísque. Eu quero olhar para outra coisa: como foi que chegamos aqui. Todo mundo fala que abriram a Caixa de Pandora. Abriram. Mas o ato tem data de abertura, e não foi este ano.

1. O dia em que o desvio saiu de graça

Agosto de 2016. O impeachment da presidente Dilma Rousseff, no Senado, foi presidido por um ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski. Naquela sessão a votação foi fatiada: a presidente perdeu o cargo, mas manteve os direitos políticos. O artigo 52 da Constituição diz que uma coisa acompanha a outra. O Supremo nunca validou aquele fatiamento como tese jurídica. Foi uma manobra negociada, à vista de todos, e ficou por isso mesmo.

Opinião minha, assinada: não foi o primeiro desvio da história do país. Foi o primeiro sem custo. E quando o desvio não tem custo, transforma-se em método.

2. O mecanismo, só o mecanismo

Um tribunal que recebe poderes excepcionais para resolver uma crise excepcional nunca devolve esses poderes. Cada expansão temporária foi justificada por uma emergência e transformou-se em permanente. Não é uma teoria — é uma lista.

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Inquéritos abertos de ofício, relatados por quem se declara vítima. Decisões monocráticas movimentando bilhões de reais e definindo eleições: uma caneta, 11 cadeiras. Um ministro suspendeu a campanha de um candidato a presidente num sábado e devolveu tudo na segunda — sozinho nas duas pontas, sem levar ao colegiado. Na eleição de 2022, decisões de censura prévia, inclusive sobre conteúdo verdadeiro que pudesse ser “descontextualizado”. Um presidente da Corte declarou em público que o tribunal tinha papel “civilizatório” — e depois, em Londres, que “derrotamos o bolsonarismo”. Ministro não derrota candidato. O Ministro julga.

Penas de 14 e 16 anos para réus do 8 de janeiro sem arma e sem função de comando — a cabeleireira do batom pegou 14. Uma discussão privada de família, num aeroporto em Roma, terminou no Brasil com os civis do outro lado alvo de busca e apreensão da Polícia Federal. O país aprendeu o apelido no aumentativo, e houve quem o chamasse de herói da democracia. E um ex-presidente, sem cargo nenhum, julgado direto no Supremo — sem primeira instância e sem o caminho que a lei desenha para qualquer cidadão — e condenado a 27 anos.

Aqui cabe uma correção que eu mesmo preciso fazer. Muita gente diz que a Lava Jato “nunca deveria ter ficado em Curitiba”. Está errado, e errar nisso entrega o argumento. A competência de Curitiba tinha fundamento: o caso Banestado e o doleiro Alberto Youssef estavam lá havia mais de dez anos. A pergunta correta não é “por que começou lá”, é “por que ficou lá para tudo, e por que o Supremo, que corrigiu tantas coisas, demorou anos para corrigir essa”. Mecanismo, de novo: um foro que concentra poder excepcional não o devolve por vontade própria.

Cada um desses fatos tem defensores. Junta todos e me diz: qual é o freio? Quem fiscaliza? A resposta honesta é: ninguém. E aí a captura desce a escada.

3. A captura desce a escada

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O procurador-geral da República. Desde Fernando Henrique existia o costume da lista tríplice: os próprios procuradores votam e indicam três nomes ao presidente. Lula ajudou a construir essa tradição e a seguiu nos dois primeiros mandatos; Dilma e Temer também. Em 2023, a lista tinha três nomes — Luiza Frischeisen, Mario Bonsaglia e José Adonis. O presidente não recebeu nenhum dos três. O presidente da associação dos procuradores pediu audiência para apresentá-los e não foi recebido. Quem foi recebido, pessoalmente, foram candidatos de fora da lista. Um deles, Paulo Gonet, virou procurador-geral. Em 2025 foi reconduzido — de novo sem lista, com a maior rejeição no Senado em décadas.

Esse procurador aparece no relatório da Polícia Federal sobre o Banco Master: em Londres, no círculo do banqueiro Daniel Vorcaro, uísque Macallan, “saudade dele”. E no dia 1º de setembro assinou, ele mesmo, o parecer de oito páginas pedindo a anulação do relatório inteiro por vício de forma — sem contestar um único fato descrito nele.

O diretor-geral da Polícia Federal. Em 2020, o Supremo impediu o presidente da época de nomear o nome que escolheu para dirigir a PF — prerrogativa constitucional do chefe do Executivo. O diretor atual, Andrei Rodrigues, aparece no mesmo relatório: Londres, mesmo círculo, “todas as despesas bancadas por nós”. Quem vigia o vigia, quando o vigia janta com o vigiado?

4. Como o dinheiro se esconde — agora com nomes e páginas

Dinheiro que não quer ser visto usa sempre as mesmas técnicas. São poucas, e depois que você as conhece, reconhece sozinho em qualquer jornal. Vou fazer a leitura com o documento na mão. Relatório da PF nº 3298613/2026, 218 páginas, sigilo derrubado pelo próprio relator do caso no Supremo, o ministro André Mendonça.

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O ponto de partida é um contrato. Janeiro de 2024: R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes — 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, no quinto dia útil. Os metadados do arquivo registram a última edição, à noite, num perfil chamado “Ministro Alexandre de Moraes”. O escritório confirmou a consulta ao ministro e diz que o acesso serviu para checar impedimentos legais antes da assinatura. Registrado.

Agora as técnicas, uma a uma:

Técnica um — pagar sem dinheiro. Maio de 2025: segundo contrato, R$ 50 milhões, entre a holding pessoal do banqueiro e o mesmo escritório. Está escrito que pode ser quitado “mediante dação em pagamento”. A proposta enviada: R$ 40 milhões em cotas de uma empresa dona de um jato Legacy 650 e de um helicóptero, mais R$ 10 milhões em reembolso de despesas de uso das aeronaves. Um sócio do banqueiro avisa que as aeronaves já eram utilizadas pelo ministro e pela esposa. O banqueiro responde: “os ativos são deles… já”. A Junta Comercial de São Paulo não tem registro de que as cotas tenham mudado de mão. O pagamento em bens, se aconteceu, não deixou o rastro que um pagamento em dinheiro deixaria. É a técnica mais antiga que existe.

Técnica dois — a boneca russa. O jato e o helicóptero não estão em nome de ninguém. Estão no nome de uma empresa — Vikings Participações — e as pessoas teriam cotas da empresa. Quem olha o registro da aeronave vê uma empresa. Quem voa nela não aparece em lugar nenhum. E há uma segunda boneca russa neste caso, em outro tribunal, que eu conto mais abaixo.

Técnica três — escolher o trilho. O relatório registra a ordem de nunca pagar o escritório por PIX. O PIX é desenhado para ser rastreável em tempo real. Quando alguém escolhe sistematicamente o trilho mais opaco, a escolha em si é informação.

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Técnica quatro — o papel depois do dinheiro. Março de 2024: o pagamento atrasa, e a instrução do banqueiro à tesouraria é “pode pagar sempre, sem nota. Do jeito que for”. O relatório registra pagamento feito antes da emissão da nota fiscal. A contabilidade escrita de trás para a frente: o documento correndo atrás do dinheiro, e não o contrário.

Técnica cinco — a porta de saída de um real. Esta eu não encontrei na camada de texto do relatório, e é importante que eu diga isso. Se houver cláusula de recompra simbólica no contrato de dação, ela está nos anexos que ainda não li. Não afirmo o que não vi.

Quatro das cinco técnicas, no mesmo fluxo, na mesma direção. Nenhuma delas, sozinha, prova crime. Investigador não procura técnica — procura padrão. A pergunta deixa de ser “isso é legal?” e vira “por que esse dinheiro precisou de tanto esforço para não ser visto?”. Quem responde isso é o plenário, não eu.

O ministro nega ter recebido as mensagens e chama o conjunto de “ilação”. O escritório diz que os serviços foram prestados. Fontes do gabinete dizem que ele não cogita renunciar. Tudo registrado. Eu não disse que é crime. Eu li as páginas.

5. A segunda boneca russa

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O ministro Dias Toffoli foi relator do caso do Banco Master. Enquanto era relator, era sócio — com irmãos e um primo — de uma empresa familiar chamada Maridt, uma sociedade anônima de livro, em que o nome dos acionistas não é acessível a terceiros. A Maridt controlava um terço de um resort no Paraná, o Tayayá. Um fundo ligado à rede financeira do banqueiro entrou na sociedade do resort; o Estadão documentou R$ 35 milhões do fundo no empreendimento, em aportes coordenados nas mesmas datas em que o fundo ingressou. Em fevereiro deste ano, a Polícia Federal apontou o nome do ministro nas mensagens do banqueiro com o cunhado. O ministro deixou a relatoria.

Ele nega ter recebido qualquer valor de Vorcaro ou do cunhado, diz que tudo foi declarado à Receita, e afirma que o caso só chegou ao gabinete dele quando a Maridt já tinha saído do negócio. Registrado, os três.

Lembre a técnica dois: o bem no nome de uma empresa cujos donos não aparecem. É a mesma boneca. E lembre o que a Polícia Federal diz sobre o grupo do banqueiro: uma organização criminosa estruturada para fraudes financeiras. Não sou eu que uso a expressão. É o documento.

No último dia 31, esse ministro declarou, num evento no Rio, que quem ataca o Judiciário quer, na verdade, atacar o pobre. Eu não vou comentar. Só coloquei as duas coisas no mesmo parágrafo.

6. A prova de que o sistema inverteu

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O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi indicado pelo próprio governo. Em abril, na CPI, disse sob juramento: “Não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontre qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos.” Ou seja: recusou-se a entregar a narrativa de que a crise do Master era herança do antecessor. E manteve o juro que segura a inflação, contra a vontade pública do governo.

Segundo relatos de interlocutores ao Poder360, o presidente da República teria dito que essa é a maior traição política que já sofreu — maior que a do ministro que o acusou de propina.

Pensa no tamanho disso. No sistema que construíram, o único que fez o trabalho técnico foi o traidor. Não estou interpretando nada: estou reportando um ranking, com a fonte. O personagem Capitão Nascimento resumiu isso num filme, há quase 20 anos: o sistema é foda.

7. Aos intérpretes

E agora eu quero falar diretamente com um grupo. Os intérpretes. Em 11 de agosto de 2022, no Pátio da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, uma carta “às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”, lida em voz alta, com mais de um milhão de assinaturas — e, no topo da lista, banqueiros, empresários, juristas, ex-ministros e reitores. Gente que decide onde o dinheiro deste país dorme. Eu não vou nomear ninguém: a lista é pública, e cada um sabe onde assinou.

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Aquela carta dizia defender instituições. Na prática, o que ela fez foi dar cheque em branco a um método: qualquer medida fora do figurino era necessária para “salvar a democracia”, e quem avisava que poder excepcional não se devolve era exagerado, golpista, gente que não entendia o momento. Vocês explicaram isso nos jornais, nos painéis e nos jantares. Explicaram para mim.

Então a pergunta é para vocês, os que assinaram: estão surpresos agora? Sério?

Como é que isso surpreende alguém? O contrato de R$ 131 milhões é de janeiro de 2024. O resort do relator saiu no jornal em fevereiro deste ano. O jato e o helicóptero estão numa Junta Comercial. A lista tríplice foi ignorada em 2023, à vista de todos, e ninguém fez uma nota. Estava tudo escrito, para quem quisesse ler — e era óbvio para qualquer um com o mínimo de bom senso. Mas não. Estávamos ocupados salvando a democracia.

Quatro anos depois, o relatório de 218 páginas descreve o método que vocês endossaram — e o que ele custou. Estão satisfeitos com o resultado?

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Dizem que o mal triunfa quando os bons se calam. Vocês não se calaram — vocês aplaudiram, e por escrito, com nome e sobrenome. E depois desta semana eu já nem sei mais medir a bondade. A conta desse endosso está nos editoriais desta semana, dos mesmos jornais: “Moraes tem de sair do Supremo”, “a Moraes cabe a renúncia”. A mesma tinta que aplaudia.

8. O que isso custa, em juro

Este é o meu terreno, e é o que ninguém está dizendo. Quando coisa julgada deixa de ser definitiva, quando uma decisão individual pode mover bilhões de reais sem colegiado e sem revisão, quando o relator de um caso é sócio de quem tem interesse nele, isso não aparece na manchete. Aparece no preço. Aparece na ponta longa da curva de juros, no prêmio que o investidor cobra para emprestar ao Brasil por 10 anos, na empresa que adia o investimento porque não sabe se o contrato assinado hoje vale amanhã. Insegurança jurídica é um imposto que ninguém vota e todo mundo paga — e ele chega no boleto como Selic.

Eu passei 30 anos alocando capital. O que eu li nesse relatório não é uma história de corrupção — corrupção é conclusão de tribunal, não minha. O que eu li é o preço do risco Brasil escrito à mão.

9. A única coisa que ninguém está dizendo

Ontem eu ouvi gente séria dizer: “que dia terrível, não consegui dormir”.

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Eu durmo melhor esta semana do que em muitos anos. Porque pressão não se dissipa — pressão acumula. E a única coisa pior do que o dia em que tudo vem à tona é o dia em que nada mais vem. Lembra como termina o mito: da caixa de Pandora saíram todos os males do mundo, e a última coisa que ficou lá dentro foi a esperança. O dia em que os fatos aparecem, com documento, com página numerada, com o sigilo derrubado pelo próprio relator, é um dia de esperança. O dia de desistir é outro: o dia em que você olha e não pode dizer o que vê.

E a esperança tem data e tem tamanho. A eleição deste ano não escolhe só o próximo presidente. Pelo calendário das aposentadorias compulsórias, o próximo mandato pode indicar até quatro das 11 cadeiras do Supremo. O Planalto e uma fatia decisiva da Corte, na mesma urna.

Nada disso é irreversível. Mas ninguém conserta o que não aceita ver.

Documento, como sempre. Opinião, assinada. A conta chega.

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CEO da AZ Quest
Walter Maciel iniciou sua carreira em 1991 no Banco Safra, como trader de mesa proprietária internacional. Entre 1995 e 2003 atuou na área de mercado de capitais no Banco Garantia. Em 2006, Walter ingressou na Quest Investimentos como sócio-diretor responsável pelo Relacionamento com Investidores e Desenvolvimento de Negócios, tornando-se CEO da empresa em 2011. Walter é formado em Economia pela PUC-RJ e cursou o Harvard Business School Owner President Management Program (OPM 52).
Walter Maciel iniciou sua carreira em 1991 no Banco Safra, como trader de mesa proprietária internacional. Entre 1995 e 2003 atuou na área de mercado de capitais no Banco Garantia. Em 2006, Walter ingressou na Quest Investimentos como sócio-diretor responsável pelo Relacionamento com Investidores e Desenvolvimento de Negócios, tornando-se CEO da empresa em 2011. Walter é formado em Economia pela PUC-RJ e cursou o Harvard Business School Owner President Management Program (OPM 52).

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