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Opinião: Bitcoin serve como reserva de valor?

05/01/2017 - 20:08

Ricardo Schweitzer é analista da Empiricus Research

Bitcoin

Eu juro que não queria falar isso. Já perdi a conta de quantas vezes me escreveram perguntando a respeito, e sempre me evadi de responder. Mas vamos lá arranjar a primeira briga do ano…

Começo fazendo questão de esclarecer que eu adoro a ideia de uma divisa na qual governo nenhum pode botar o bedelho e fazer besteira.

Volto no tempo e me lembro do primeiro ano de faculdade. Todo calouro de Economia aprende que são três as funções primordiais de uma moeda: unidade de conta, meio de troca e reserva de valor.

O Bitcoin foi apresentado ao mundo no final de 2008 e implementado no começo de 2009. Somente em 2014 alguns negócios “legítimos” passaram a aceitar a moeda como meio de troca — e, tipicamente, a convertem em moedas “tradicionais” quase instantaneamente. Estimativas (cuja precisão ignoro) apontam algo como 100 mil empresas mundo afora que aceitam a cripto-moeda em suas transações — o que, por mais impressionante que pareça, é pouco em escala mundial. Concluo, assim, que no momento é restrita a aceitação do Bitcoin como meio de troca. Pode mudar? Pode, mas esta é a situação atual.

E como unidade de conta? O fato de até mesmo os maiores entusiastas da cripto-moeda tipicamente a valorarem em relação a outras divisas — e não o contrário —, bem como a ausência de evidência (que não equivale à evidência de ausência, ressalto) de contratos (no sentido amplíssimo) firmados em Bitcoin sugerem que a divisa, na melhor das hipóteses, é pouco usada com essa finalidade. Tem exceção? Deve ter, mas não é a situação predominante.

Aí chegamos à função de reserva de valor. A ideia de reserva se associa a certa invariabilidade ante outros fatores. É o que se busca, por exemplo, com uma cesta de moedas — a expectativa de que, entre valorizações e desvalorizações das diferentes divisas, o poder de compra do estoque de capital permanecerá tão constante quanto possível. Uma rápida olhada no histórico de preços demonstra que a Bitcoin foi, até aqui, extremamente volátil. A julgar pelo passado (com todas as limitações que esse tipo de julgamento impõe), não se presta como reserva de valor.

Dirão os defensores: “ah, mas quem comprou ganhou dinheiro”. Sim! Em 2016, contra o dólar, a valorização foi da ordem de 130 por cento. Mas até mesmo isso reforça a ideia de que a cripto-moeda não está se prestando a nenhuma das funções tradicionais de moeda, mas sim a um “investimento” altamente especulativo. A maciça maioria dos compradores simplesmente espera que o valor continue subindo… até o dia que parar de subir.

Em resumo, não recomendo para ninguém. Quer se proteger de governos? Diversifique entre ativos e geografias tanto quanto possível. Quer comprar algo universalmente aceito? Ouro, prata e outros metais hão de funcionar. Nada será perfeito, mas são todas alternativas mais seguras que a Bitcoin para as finalidades que apontei.

Hoje, é assim que penso. Se mudar de opinião, aviso sem qualquer problema.

(E haverá quem, diante de tudo que escrevi, “refutará” meus argumentos simplesmente mostrando que, entre dois pontos no tempo, a Bitcoin se valorizou X por cento e eu “deixei passar a oportunidade”…)

Última atualização por Money Times - 11/09/2019 - 16:37

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