Opinião: O novo patamar do S&P 500 entre estrutura e exuberância
Nos últimos meses, voltou à moda a frase: “a bolsa americana está cara”. Hoje, o S&P 500 negocia em torno de 23 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, acima das médias de aproximadamente 20x nos últimos cinco anos e 18-19x na média dos últimos dez anos, segundo dados da FactSet.
Em comparação com a referência histórica de longo prazo — muitas vezes situada em torno de 16x — o diagnóstico superficial parece óbvio: o índice estaria esticado e condenado a uma correção.
Mas essa leitura ignora um ponto central: o S&P 500 de hoje não é o mesmo índice de 10, 20 ou 30 anos atrás. A sua natureza mudou e a transformação é, antes de tudo, setorial. Em 2025, tecnologia da informação responde por cerca de 33% do S&P 500; comunicação e consumo discricionário juntos somam pouco mais de 30%, enquanto setores como energia, utilities, materiais e imobiliário têm peso combinado inferior a 10%.
Duas décadas atrás, o quadro era mais equilibrado, com maior relevância de bancos, energia, industriais e negócios intensivos em capital. Ou seja: hoje o índice é dominado por empresas asset light, escaláveis, com alta participação de intangíveis, margens elevadas, geração de caixa robusta e, em muitos casos, baixa alavancagem. Gigantes de tecnologia e plataformas digitais operam com ROEs e margens operacionais estruturalmente superiores às médias históricas de setores tradicionais.
Se aplicarmos, de forma simplificada, algo como 15-18x de múltiplo para setores tradicionais e 25-28x para tecnologia e software, o resultado agregado converge para um P/E consolidado próximo de 22x. Não é uma aberração aritmética; é a consequência de um índice com maior peso em negócios que racionalmente merecem múltiplos superiores.
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Há também uma mudança estrutural na base de investidores. A presença do investidor de varejo na bolsa americana é hoje muito mais relevante. Estimativas recentes apontam que investidores individuais respondem por algo à volta dos 30% do volume diário de negociações nos EUA, impulsionados por plataformas sem corretagem, negociações fracionadas, opções acessíveis e redes sociais.
Esse novo investidor olha menos para modelos tradicionais de valuation, é mais sensível a narrativas, tecnologia, “histórias de crescimento”, pratica com frequência o mantra do buy the dip e, por vezes, é movido por FOMO — o medo de ficar de fora. Na prática, isso significa que movimentos de alta podem ser mais longos e persistentes, sustentando múltiplos elevados por mais tempo, mesmo diante de métricas que, aos olhos da velha guarda, parecem exigentes. A nova composição do mercado, portanto, é setorial e comportamental.
Grande parte do desconforto com o valuation atual vem da comparação automática com a média histórica. Mas essa comparação traz uma armadilha: supõe que o futuro se comportará como o passado. O S&P 500 de décadas atrás refletia uma economia mais pesada, cíclica e intensiva em capital físico; o índice atual reflete uma economia de dados, software, inteligência artificial, propriedade intelectual, plataformas globais e serviços recorrentes, com empresas capazes de crescer sem o mesmo volume de investimento tangível e sem depender tanto de dívida.
Usar o mesmo “termômetro” histórico, sem ajustar para o novo mix setorial e para a mudança de qualidade dos lucros, é impreciso. O fato de o múltiplo atual estar acima da média histórica não basta, por si só, para concluir que há uma bolha.
Mas aqui entra o ponto crucial: uma justificativa estrutural para múltiplos mais altos não significa ausência de risco. A possibilidade de correção é real. Uma desaceleração mais forte do crescimento, revisões negativas de lucros ou choques de confiança podem reprecificar rapidamente esse “novo patamar”. E a mesma força que sustenta o mercado na alta pode acelerar a queda. Dois fatores ampliam esse risco: a participação elevada do investidor de varejo — em cenário de stress, a busca por liquidez, o medo e as vendas em massa podem aprofundar movimentos de baixa — e níveis recordes de alavancagem em margem.
Dados da FINRA mostram o margin debt acima de US$ 1,1 trilhão em outubro de 2025, renovando máximas históricas. Em uma correção mais brusca, calls de margem forçam liquidações automáticas, tanto de investidores individuais quanto institucionais, amplificando a pressão vendedora. O buy the dip pode virar forced to sell the dip. de 2025, renovando máximas históricas. Em uma correção mais brusca, calls de margem forçam liquidações automáticas, tanto de investidores individuais quanto institucionais, amplificando a pressão vendedora. O buy the dip pode virar forced to sell the dip.
Nesse contexto, um indicador anedótico — mas revelador — ganha peso: Warren Buffett está desconfortável. A Berkshire Hathaway reportou recentemente cerca de US$ 382 bilhões em caixa, o maior nível da sua história, após vários trimestres vendendo mais ações do que comprando.
Para um investidor cuja filosofia sempre privilegiou preço de entrada, margem de segurança e paciência, manter esse volume de liquidez é, por si só, uma forma de expressão: Buffett não enxerga muitas barganhas. Em paralelo, o chamado Buffett Indicator — a relação entre o valor total do mercado acionário americano e o PIB — está na casa de 220%, bem acima da média histórica e acima do nível de 200% que o próprio Buffett já descreveu como “brincar com o fogo”. É um sinal perfeito? Não. É um call de venda? Também não. Mas funciona como contraponto importante à tese do “novo normal”: mesmo que exista fundamento estrutural para múltiplos mais altos, há elementos de exuberância que não podem ser ignorados.
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No balanço dos argumentos, há espaço para defender que o S&P 500 opera hoje em um patamar estruturalmente mais elevado de múltiplos, sustentado por maior peso de empresas de alta qualidade, margens superiores e modelos asset light, menor dependência média de alavancagem e maior capacidade de monetizar tecnologia e intangíveis em escala global.
Ao mesmo tempo, há sinais claros de alerta: participação crescente de investidores menos racionais e mais movidos por narrativa, alavancagem recorde em operações de margem, e indicadores agregados, como o Buffett Indicator, em zonas historicamente associadas a risco elevado. O erro, portanto, está nos extremos: nem assumir que “22x é bolha garantida”, nem aceitar cegamente que “22x é o novo 16x”.
Para o investidor, a recomendação mais honesta continua surpreendentemente simples. Como dizia Peter Lynch: “mais dinheiro foi perdido tentando antecipar correções do que nas próprias correções”. Em outras palavras: quem passa a vida inteira esperando “o múltiplo certo” muitas vezes nunca entra.
Em um mercado com o porte, a liquidez, a profundidade e a capacidade de inovação dos Estados Unidos, pode ser interessante manter uma exposição consistente e diversificada; respeitar valuation e qualidade na escolha dos ativos; e aceitar a volatilidade como parte do jogo, não como justificativa permanente para ficar de fora. Discutir múltiplos é essencial; ignorar o risco de exuberância é perigoso. Mas, para o investidor com horizonte de longo prazo, a pergunta-chave talvez não seja se o S&P negocia a 18x, 20x ou 23x hoje — e sim se ele consegue permanecer investido o suficiente para atravessar ciclos, correções, narrativas e modas, capturando o poder composto das melhores empresas do mundo.
Tenha em mente que os indivíduos não podem investir diretamente em nenhum índice, e o desempenho do índice não inclui custos de transação ou outras taxas, o que afetará o desempenho real do investimento. Os resultados individuais do investidor variam. O desempenho passado não garante resultados futuros.
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