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Opinião: Sobre Caipirinhas e juros…

24/04/2017 - 21:51

Caipirinhas

Por André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos

Hoje me pus a calcular o câmbio real do Real. É um calculo aparentemente simples, mas se mal feito pode comparar coisas diferentes e dar a entender o que não se deve. Conversei com um jornalista sobre isso e deve sair na imprensa em breve.

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Comecei a investigar mais (economista é um bicho nerd mesmo) para ver mais dados sobre o fenômeno e cheguei nesse gráfico aqui no terminal Bloomberg. Se você pegar o retorno da moeda num dado período e somarmos o retorno dos juros acumulado no mesmo período teríamos o “retorno total” hipotético.

Até aí tudo bem.

Puxei os dados e soltei um sorriso de canto de boca vendo o absurdo estampado na tela. Entre 1º de janeiro de 2004 e o dia 10 de abril de 2017 o retorno acumulado de câmbio mais juros com o Real Brasileiro foi de 302,36%, o segundo lugar, a Argentina, foi de 300,93%. Isso é uma amostra de todos os países do mundo, não só os emergentes.

No limite isso quer dizer o seguinte: ou somos o país mais rico do mundo, com a maior taxa de rentabilidade do capital no planeta, ou estamos tão quebrados quanto a Argentina. Reparem que o terceiro lugar, que é a Lira Turca, rendeu um terço disso, 98,83%. No México foram irrisórios 25,02%.

O mercado de Peso Argentino é irrisório perto do mercado de Real, logo a comparação com o vizinho é até falsa, nem deveria ser feita.

A pergunta que fica é: estamos assim tão quebrados? Será mesmo que desde 2004 o saldo das nossas possibilidades e o que fizemos é o “pior do mundo”? Evidentemente que não.

O que o Brasil fez durante esses anos foi “dar saída” para todos os investidores do mundo? Está se sentindo inseguro com a economia no pós 2008? Seus problemas acabaram! Eu conheço um país na América do Sul que paga um juros bom e ainda a moeda aprecia que é uma beleza! Está com medo do Brexit ou das tensões EUA/China?Russia? Cola em mim que você passa de ano.

E pensar que o Brasil é credor em moeda forte e se você pegar as reservas brasileiras e ponderar sobre a média de importações podemos viver sem exportar 31 meses (no México é menos de 6 meses)! Não temos sob hipótese alguma problema de solvência externa e por isso é ultrajante termos pagado tanto de juros e variação cambial. Esquece a Argentina, pagamos três vezes mais que a Turquia, uma região cheia de problemas e do lado de uma zona de guerra.

Um leitor esquerdista aqui do meu facebook poderá dizer: tá vendo? O Brasil é vendido ao capital internacional! Vamos cortar os juros na porrada e acabar com o rentismo!

Dou de ombros para não dizer risada; não é tão simples assim pequeno gafanhoto.

Fiz um post dias atrás de uma conta de padeiro, do custo implícito de acessar recursos líquidos no Brasil através de uma ticket alimentação. O pedágio para se fazer a logística de dinheiro no Brasil é de 10% (e nem vem me falar da inflação do período porque estamos falando em termos reais, em Pratos Feitos, pensa antes de falar bobagem).

Os juros são como um estimulante, vivemos dopados por assim dizer. Ganhos financeiros ocultos fazem parte do nosso dia a dia sem sabermos; de uma barraca de pipoca ao dono de uma indústria, todos nós temos ganhos financeiros ocultos, a questão importante é saber quanto ganhamos desse fluxo.

Não sou fã de psiquiatria, não se acaba com depressão via decreto. O ato de melhora mental é um esforço cotidiano de resignificar a própria história e de avançar aos poucos. Nesse sentido sou mais microeconomista do que macroeconomista. Mais Freud e menos Prozac.

A realidade econômica é o que é revelado de nós mesmos em preço e nesse sentido é também uma formação neurótica. Nossa opinião sobre o país se revela nos juros, nesse preço pelo tempo…

Enquanto não decidimos o que fazer com nós mesmos (por isso o problema do Brasil nunca é econômico, mas sim Político com P maiúsculo) estamos dando saída para as contradições do mundo.

Não à toa “gringo” gosta tanto de caipirinha e de mulata… O Brasil é uma festa.

E em tempo: O Brasil é sim o país mais rico do mundo, não o contrário como nós mesmos, de maneira cômoda, queremos acreditar. Mas para mudar essa opinião de nós mesmos vão ser anos e mais anos de “terapia”…

AP

 

Última atualização por Money Times - 11/09/2019 - 10:59

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