Coluna
Matheus Spiess

Ormuz como gatilho: como se posicionar diante do novo ciclo das commodities

28 mar 2026, 9:00 - atualizado em 27 mar 2026, 19:06
Irã EUA Trump Ormuz
(REUTERS/Stringer)

Mesmo para os padrões já voláteis da comunicação de Donald Trump, a última semana foi particularmente errática. O presidente americano passou de um ultimato de 48 horas ao Irã para a reabertura do Estreito de Ormuz, acompanhado da ameaça de ataques à infraestrutura energética, para, poucos dias depois, afirmar que teria conduzido conversas produtivas com Teerã e, com base nisso, anunciar uma moratória temporária. Ao fim da semana, o prazo foi novamente estendido, desta vez por mais 10 dias, para 6 de abril, evidenciando uma sequência de avanços retóricos seguidos por recuos táticos.

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O ponto central é que o Irã nega a existência desses contatos nos termos descritos por Washington, embora admita, de forma mais difusa, alguma margem limitada para diálogo. Isso mantém no ar a principal dúvida: houve, de fato, alguma mudança substancial ou estamos apenas diante de uma oscilação narrativa? Independentemente da resposta, os mercados continuaram reagindo quase exclusivamente ao fluxo de manchetes, com o petróleo disparando diante das ameaças e recuando rapidamente com qualquer sinal de negociação.

Nesse contexto, a tentativa de estabilizar os mercados parece ter sido, ao menos em parte, um objetivo deliberado da comunicação americana. A questão, contudo, é a durabilidade desse tipo de alívio em um ambiente estruturalmente instável, no qual a previsibilidade é baixa e a confiança, ainda mais.

É nesse pano de fundo que volta à cena o chamado TACO trade (Trump Always Chickens Out). Naturalmente, trata-se de uma simplificação, há episódios em que o presidente efetivamente leva a escalada adiante. Ainda assim, o padrão recente de endurecimento retórico seguido por acomodação tática tem sido suficiente para moldar o comportamento dos ativos no curto prazo.

No caso específico, Donald Trump se afastou, ao menos temporariamente, da ameaça de atingir diretamente a infraestrutura energética iraniana, ao conceder mais tempo e sinalizar a possibilidade de um acordo mais amplo. Por outro lado, uma eventual escalada a partir daqui teria implicações significativamente mais graves, especialmente ao comprometer ainda mais o funcionamento do Estreito de Ormuz, um ponto crítico para o fluxo global de energia. Não por acaso, o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, alertou que a situação atual pode representar um choque mais severo para a economia global do que os episódios de 1973, 1979 ou mesmo a crise energética recente associada à guerra na Ucrânia.

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Esse diagnóstico ajuda a explicar por que diversos países, sobretudo aqueles mais expostos ao fluxo energético via Estreito de Ormuz ou com menor capacidade de absorção de choques, já começaram a adotar medidas emergenciais para mitigar o aumento dos custos de energia. Em diferentes intensidades, essas respostas começam a se materializar. Nas Filipinas, por exemplo, parte do setor público adotou semanas de trabalho reduzidas como forma de economizar combustível. No Japão, o governo reativou subsídios para conter o preço da gasolina e ampliou a liberação de estoques estratégicos. Já na Coreia do Sul, autoridades lançaram campanhas nacionais de economia de energia, combinadas com restrições ao uso de veículos e outras medidas de contenção.

Mesmo os Estados Unidos, estruturalmente mais protegidos do ponto de vista energético, já começam a sentir os efeitos do choque, tanto do lado corporativo quanto inflacionário. Em outras palavras, embora o epicentro da crise esteja no Oriente Médio, seus desdobramentos já se espalham de forma concreta pelo restante do mundo. Naturalmente, o Sudeste Asiático figura entre as regiões mais diretamente impactadas, dada sua elevada dependência das rotas energéticas e comerciais ligadas à região. O Ocidente, por sua vez, não permanece imune: os efeitos se disseminam por meio da elevação dos preços, especialmente de combustíveis e alimentos, já que fertilizantes e outros insumos essenciais também transitam por Ormuz.

Vale, portanto, dimensionar a magnitude do problema. O Estreito de Ormuz é uma das principais artérias do sistema energético global: cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo passa diariamente por essa rota. Quando esse fluxo é interrompido, ainda que parcialmente, o impacto deixa de ser marginal e assume caráter sistêmico. Não se trata apenas de uma pressão pontual sobre preços, mas de um risco efetivo à disponibilidade física de oferta. O mercado pode reagir por meio do uso de estoques, redirecionamento logístico ou aumento pontual de produção, mas essas alternativas são limitadas no curto prazo e dificilmente compensam integralmente uma disrupção dessa escala.

Além disso, mesmo em um cenário de arrefecimento do conflito, a normalização tende a ser gradual e incerta. O risco geopolítico passa a ser incorporado de forma mais estrutural aos preços, elevando o prêmio de risco embutido no petróleo. Em essência, não estamos diante de um choque transitório, mas de uma mudança relevante na percepção de segurança da oferta global, um elemento que tende a persistir e a influenciar a dinâmica dos mercados por mais tempo.

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E isso sem considerar um risco adicional relevante: o Estreito de Bab el-Mandeb, no outro extremo da Península Arábica, que ainda não foi obstruído pelos Houthis, uma proxy iraniana na região. Uma eventual disrupção também nesse ponto ampliaria de forma significativa a pressão sobre o fluxo global de energia e comércio, adicionando mais uma camada de complexidade a um cenário já bastante tensionado.

Esse pano de fundo ajuda a explicar por que o setor de óleo e gás, amplamente negligenciado nos últimos anos, volta agora ao centro das atenções. Durante um longo período, investidores globais reduziram exposição ao segmento, seja pela força da narrativa de transição energética, seja por um ambiente prolongado de oferta abundante. O resultado foi uma subalocação estrutural em energia nas carteiras. O que se observa neste momento é uma reversão desse movimento: diante de um choque de oferta e do retorno do petróleo como ativo estratégico, os investidores passam a recompor exposição — e, como costuma ocorrer nesses ciclos, esse reposicionamento tende a ser rápido, desordenado e, por vezes, desconfortável para quem ficou para trás.

Mais do que um episódio pontual, a sucessão recente de conflitos sugere um ambiente global mais fragmentado, instável e sujeito a choques recorrentes. Nesse contexto, commodities como o petróleo reassumem um papel central, tanto como proteção contra a inflação quanto como hedge contra riscos sistêmicos, tornando cada vez mais custoso, em termos de oportunidade, manter exposição nula a essa classe de ativos.

Paralelamente, observa-se uma reconfiguração mais ampla das cadeias globais de suprimento. Impulsionado por tensões geopolíticas, preocupações com segurança nacional e pela tentativa de reduzir dependências excessivas, esse movimento implica aumento de investimentos em infraestrutura, logística, energia e produção local. Trata-se, por natureza, de um processo inflacionário. Diferentemente do período anterior, marcado por uma globalização mais eficiente e custos comprimidos, avançamos para um ambiente de maior redundância, menor eficiência e, consequentemente, preços estruturalmente mais pressionados.

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Nesse novo arranjo, as commodities tendem a se beneficiar por estarem na base das cadeias produtivas. O petróleo, em particular, ocupa uma posição central: não apenas acompanha a inflação, como frequentemente atua como um de seus principais vetores de transmissão, irradiando aumentos de custo para diversos setores da economia.

Embora seja possível se expor diretamente ao preço da commodity, entendemos que a assimetria mais interessante reside na exposição por meio de empresas do setor. Além de capturar a eventual valorização do petróleo, o investidor passa a acessar o fluxo de caixa gerado por companhias que tendem a se beneficiar de forma significativa em ciclos de alta. Muitas dessas empresas operam hoje com maior disciplina de capital, menor alavancagem e foco mais claro em retorno ao acionista, o que eleva a qualidade dos resultados. Ainda assim, diversas seguem negociando a múltiplos descontados, reflexo de anos de desinteresse estrutural pelo segmento, o que reforça a atratividade relativa dessa tese no momento atual.

Na prática, esse contexto cria um duplo vetor de retorno: de um lado, a valorização da própria commodity; de outro, a reprecificação das empresas do setor, seja por melhora operacional, seja por uma revisão mais ampla de seus múltiplos de negociação.

Uma forma eficiente de capturar essa dinâmica é por meio do ETF de commodities do BTG Pactual (CMDB11), que reúne, em um único instrumento, exposição a empresas brasileiras relevantes dos setores de petróleo, mineração e agronegócio, combinando diversificação com simplicidade operacional.

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Com cerca de 40% de alocação em óleo e gás, o fundo tende a se beneficiar de forma mais direta no ambiente atual. Além disso, sob uma perspectiva histórica, as commodities ainda negociam a níveis relativamente descontados frente a outras classes de ativos, o que reforça a leitura de que podemos estar diante das etapas iniciais de um novo ciclo de valorização.

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Economista e especialista em investimentos da Empiricus
Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia pela PUC. Pós-graduado no Programa Avançado em Finanças do Insper, trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimentos da América Latina, além de ter feito parte de uma boutique voltada para fusões e aquisições, na área de modelagem financeira e pesquisa. Hoje faz parte no time de analistas da Empiricus, participando de séries como Palavra do Estrategista e Double Income, além do programa Empiricus Private junto do Felipe Miranda, estrategista-chefe e um dos fundadores da casa. É analista CNPI e especialista em investimentos CEA.
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Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia pela PUC. Pós-graduado no Programa Avançado em Finanças do Insper, trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimentos da América Latina, além de ter feito parte de uma boutique voltada para fusões e aquisições, na área de modelagem financeira e pesquisa. Hoje faz parte no time de analistas da Empiricus, participando de séries como Palavra do Estrategista e Double Income, além do programa Empiricus Private junto do Felipe Miranda, estrategista-chefe e um dos fundadores da casa. É analista CNPI e especialista em investimentos CEA.
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