Os limitadores da cana, o tripé do etanol de milho e a promessa de Eike, segundo Plinio Nastari
Longe de uma disputa, o fundador e presidente da Datagro, Plinio Nastari, vê a produção de etanol de milho e de cana-de-açúcar como complementares no mercado brasileiro.
Segundo ele, sem a expansão do etanol de milho, o Brasil não teria conseguido implementar a mistura de 30% de etanol anidro na gasolina, nem avançar no consumo de etanol hidratado.
“A expansão da produção de etanol de milho em áreas onde não se usa muito etanol hidratado está viabilizando o aumento do consumo nessas regiões, como Maranhão, Bahia, Tocantins, Piauí, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Rio Grande do Sul”, afirmou ao Money Times.
Milho x cana: Diferenças estruturais entre os modelos de produção
Para Nastari, etanol de cana e de milho operam sob lógicas distintas de produção e formação de custos. A cana segue um modelo verticalizado: o produtor planta, realiza os tratos culturais e convive com a lavoura por cinco a seis anos, diluindo investimentos ao longo do ciclo e buscando maximizar o teor de açúcar. Trata-se de um sistema mais previsível e menos exposto às oscilações imediatas de mercado.
Já o etanol de milho funciona sob uma lógica mais dependente de preços. As usinas, em geral, compram o grão e têm sua rentabilidade atrelada a variáveis como o preço do milho, do DDG e da energia ou biomassa — o que torna o modelo mais flexível, mas também mais sensível à volatilidade. Em países como os Estados Unidos, por exemplo, a base energética é o gás natural, e não biomassa.
No Brasil, o uso do milho de segunda safra é um diferencial relevante. Cultivado após a soja, ele não compete diretamente com a produção de alimentos e surgiu como uma produção marginal em regiões distantes dos grandes centros consumidores.
A expansão do etanol, no entanto, criou demanda local, elevou os preços e incentivou ganhos de produtividade — a ponto de, em alguns momentos, o milho no norte de Mato Grosso atingir paridade com o porto de Paranaguá.
“Olha que extraordiário. É como se a gente tivesse levado o porto para dentro do norte do Mato Grosso”, disse.
Esse movimento também reforçou a integração entre cadeias produtivas, conectando energia, grãos e proteína animal.
O que limita o avanço da produtividade da cana?
Um dos principais gargalos do setor sucroenergético é a estagnação da produtividade da cana-de-açúcar desde a década de 2010, período marcado pelo avanço da mecanização da colheita.
Segundo Nastari, dois fatores se destacam: o aumento dos investimentos necessários para preparo do solo e a maior presença de impurezas na matéria-prima — entre 0,6% e 0,7% de impureza mineral e de 6% a 8% de impureza vegetal.
“O investimento aumentou e, quando a colheita era manual, você não tinha essas impurezas. Ou seja, parte da tonelagem entregue não é efetivamente cana”, explica.
De acordo com a Datagro, o rendimento industrial, medido em quilos de ATR por tonelada, recuou após a mecanização e, embora tenha se recuperado parcialmente, ainda não retornou aos níveis anteriores. Isso ocorre porque parte do volume processado não gera açúcar nem etanol.
Outro entrave está na própria genética da cultura. “O DNA de soja e milho tem quatro ‘letras’, enquanto o da cana tem 11. Isso torna muito mais difícil desenvolver variedades mais produtivas”.
Além disso, a área global cultivada com cana — cerca de 30 milhões de hectares — é muito menor que a de grãos, superior a 1 bilhão de hectares, o que reduz o interesse de grandes empresas em investir em melhoramento genético.
O tripé e os desafios do etanol de milho
Nastari explica que a competitividade do etanol de milho está fortemente ligada à receita com coprodutos, especialmente o DDG (grãos secos de destilaria) e o óleo de milho. Ainda assim, essa vantagem depende de três variáveis principais: preço do milho, preço do DDG e preço da biomassa.
Apesar de avaliar positivamente o avanço do setor, ele alerta para o aumento expressivo do custo da biomassa. “Há seis anos, a biomassa custava cerca de R$ 120 por tonelada. Hoje, chega a R$ 500–600. Essa é a principal preocupação das usinas dedicadas ao milho”, afirma.
Nesse contexto, as usinas de cana ganham vantagem por contar com o bagaço como fonte energética, o que favorece o modelo de usinas flex, que integram a produção de etanol de cana e milho. A tendência, segundo ele, é de aumento dessa complementaridade ao longo do tempo.
‘Supercana’: Promessa ou realidade?
Um projeto que ainda desperta ceticismo no mercado tenta se apresentar como um divisor de águas no setor: a chamada “supercana”, associada ao empresário Eike Batista.
A proposta prevê uma produtividade até duas a três vezes maior em etanol por hectare e até 10 a 12 vezes mais biomassa em relação à cana convencional.
Na avaliação de Nastari, porém, a tecnologia ainda enfrenta desafios relevantes. “É preciso desenvolver práticas de colheita para essa cana e, depois, conseguir converter a celulose em açúcares fermentáveis. O desafio é fazer isso de forma econômica e prática”.