Ouro tomba mais de 12% desde o início da guerra no Irã; é hora de abandonar o hedge?
O ouro, tradicionamente considerado um ativo de segurança em cenários de incerteza, tem apresentado um movimento que contraria o seu padrão histórico desde o início da guerra no Oriente Médio.
Ao contrário do observado em crises recentes — como a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022 —, o metal precioso passou a cair mesmo diante do aumento das tensões geopolíticas.
Desde o início do conflito dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o metal precioso acumulou desvalorização de 12,5%, para US$ 4,6 mil por onça-troy até a última terça-feira (31).
Segundo analistas ouvidos pelo Money Times, a dinâmica recente do ouro reflete uma combinação de fatores, além do contexto geopolítico: a forte valorização recente do metal, ajuste técnico dos investidores, expectativa de juros mais altos por mais tempo nos Estados Unidos e uso de reservas dos Bancos Centrais.
Mas, sobretudo, “a resultante do conflito vai ser bem importante para determinar a trajetória do ouro daqui para frente”, afirmou Bruno Shahini, especialista de investimentos da Nomad.
Os motivos por trás da queda do ouro
Em 2025, o ouro acumulou valorização de mais de 60% em meio a incertezas sobre os juros nos Estados Unidos (EUA) e à política tarifária do presidente norte-americano, Donald Trump.
O metal iniciou este ano em ritmo de valorização e bateu recorde ao superar os US$ 5,3 mil por onça-troy em janeiro.
Após o rali, os investidores avistaram uma oportunidade para realizar os lucros, avaliou o gestor de fundos multimercados da Daycoval Asset, Fabio Zaclis, em entrevista ao Money Times.
Embora o metal precioso seja visto como um ativo descorrelacionado e atrelado à preservação de valor, Zaclis aponta que o aumento das preocupações quanto à duração da guerra pesou na cotação do ouro em março, com os alocadores reduzindo a exposição a risco.
Para o analista da Empiricus Matheus Spiess, para além do ajuste técnico, o enfraquecimento do ouro começou antes mesmo do início do conflito no Oriente Médio, impulsionado pelas incertezas sobre a trajetória dos juros nos EUA e pela indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano.
“Se, no fim de janeiro, já observávamos perda de tração por conta dessas sinalizações relacionadas ao Fed, em março o choque geopolítico pressionou as expectativas de inflação”, afirmou Spiess ao Money Times.
“No curtíssimo prazo, o ouro sofre pressão porque a expectativa de inflação eleva os juros dos títulos americanos. Como consequência, há maior competição pelo posto de porto seguro, e o ouro perde competitividade”, acrescentou.
Apesar da preferência pelos títulos americanos, a demanda observada pelos Treasuries de 10 anos foi menor em relação a outros momentos de instabilidade geopolítica, ressalta Zaclis. Para ele, quanto mais rápido terminar a guerra no Irã, melhor será o efeito para o ouro.
Busca por liquidez
Na avaliação de Zaclis, da Daycoval Asset, os BCs também contribuíram para o tombo recente do ouro.
“Além dos players tradicionais, como o mercado financeiro, e os alocadores, têm aqueles que usam o ouro para garantir liquidez. Na época da Covid-19, o ouro também teve uma correção, mas depois foi se recuperando e voltou a subir bem”, observa.
Segundo Zaclis, portanto, em um primeiro momento, o ouro responde à necessidade de garantir maior liquidez pelos bancos centrais.
O BC da Turquia, por exemplo, vendeu cerca de 58,4 toneladas de ouro, equivalentes a US$ 8 bilhões, até a semana de 20 de março.
Hora de abandonar o hegde?
Em relatório recente, o UBS Wealth Management avaliou que a resposta moderada do ouro às tensões geopolíticas e à elevada volatilidade de preços pode parecer contraintuitiva para muitos investidores, mas a história mostra que o ouro nem sempre sobe durante períodos de conflito, especialmente na fase inicial.
“Durante os choques do petróleo dos anos 1970, o ouro disparou à medida que os temores inflacionários dominavam, enquanto sua reação em eventos como as guerras do Iraque foi mais contida devido a forças macroeconômicas concorrentes”, afirmou o banco.
“Cada episódio geopolítico ocorre dentro de um contexto macroeconômico único, moldado por diferentes combinações de inflação, expectativas de política e fluxos de capital”, acrescentou.
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No cenário atual, afirmam os estrategistas, o ouro enfrenta um série de ventos contrários: expectativas de juros mais altos impulsionadas pela inflação energética, um dólar mais forte e saídas de capital de investidores.
“Porém, em nossa visão, esses fatores devem ser temporários, com as condições atuais potencialmente levando a uma desaceleração do crescimento global e à reversão de alguns dos fatores que recentemente prejudicaram o ouro.”
Para os estrategistas do Goldman Sachs, o ouro deve permanecer em território negativo no curto prazo, já que a commodity permanece vulnerável a novas liquidações caso persistam as disrupções no Estreito de Ormuz por causa do Irã.
O cenário base do banco, porém, é de que não haverá nova liquidação de ouro pelo setor privado, nem diversificação adicional significativa para o metal precioso, além do impulso modesto vindo dos cortes de juros do Fed.
O Goldman Sachs projeta o ouro a US$ 5.400 por onça-troy até o final de 2026, à medida que a diversificação dos BCs continue, o posicionamento especulativo atualmente baixo se normalize e o Fed realize corte nos juros norte-americanos.
A equipe de economistas do banco espera uma redução de 50 pontos-base nos juros pelo Fed, levando a taxa para a faixa de 3% a 3,25% ao ano. A visão vai na contramão da precificação do mercado, de retomada do ciclo de afrouxamento monetário apenas no segundo semestre de 2027.
Na ponta otimista, o JP Morgan considera que, quanto mais prolongada for a disrupção no setor de energia e maiores forem os impactos inflacionários e, principalmente, sobre o crescimento econômico, o cenário para o ouro pode rapidamente se tornar significativamente mais favorável.
Isso, acrescenta o banco, seria potencializado por uma mudança brusca para afrouxamento monetário por parte do Fed, à medida que o lado do emprego em seu mandato duplo passe a ser priorizado. “Ainda assim, o momento ideal para aproveitar essa queda provavelmente dependerá mais de fatores técnicos”, pondera.
Do ponto de vista técnico, o JP Morgan prevê que o ouro encontre suporte acima da faixa de US$ 4.200 a US$ 4.400 por onça-troy e considera a região entre US$ 4.967 e US$ 4.996 como uma resistência inicial, embora o mercado possa eventualmente romper com essa zona e continuar a subir.