Petróleo abaixo de US$ 70? Novas quedas devem ocorrer, mas acordo entre EUA e Irã não representa fim da volatilidade
A queda do petróleo após a assinatura de um memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, considerado o primeiro passo para o encerramento do conflito, pode não ter chegado ao fim.
Segundo Jean Miranda, analista de commodities do BTG Pactual, ainda há espaço para novas baixas no Brent à medida que o mercado retira o chamado “prêmio geopolítico” incorporado aos preços durante o conflito no Oriente Médio. No entanto, a expectativa de distensão não elimina os riscos de novas oscilações bruscas.
“O que é certo que veremos daqui para frente é volatilidade, nessa commodity e em outras, em especial nas agrícolas. Antes do conflito, havia um consenso de que o Brent poderia ficar em torno de US$ 60, até abaixo disso. Com toda essa mudança no panorama internacional e nos fluxos de petróleo devido ao conflito, dificilmente vamos ver esse nível de preço”, disse Miranda, durante o quadro Radar das Commodities, no Giro do Mercado.
Desde o início de junho, o Brent recuou de US$ 96 para cerca de US$ 77 por barril, uma queda de 19%, devolvendo parte dos ganhos acumulados durante a guerra. Para o analista, o movimento reflete a percepção de que o acordo entre Washington e Teerã reduz o risco de interrupções severas na oferta global de petróleo.
Além disso, a assinatura do memorando não significa uma retomada imediata da produção e das exportações de petróleo da região. Questões complexas, como as negociações sobre o programa nuclear iraniano, ainda precisam ser resolvidas, enquanto a recuperação da infraestrutura afetada pelo conflito deve levar tempo.
“Mesmo nesse caminhar para a assinatura do memorando, o mercado já vinha há semanas precificando baixas no Brent. A nossa leitura é que a estratégia dos EUA de neutralizar as tentativas de interrupção do tráfego no Golfo Pérsico acabou sendo bem-sucedida, pois permitiu a retomada, ainda que parcial, dos fluxos de petróleo na região e reduziu o poder de barganha do Irã”, completou.
Normalização logística para o petróleo não virá tão cedo
Outro ponto de atenção é a logística. Centenas de embarcações permanecem represadas no Golfo Pérsico, e a retomada plena das operações dependerá da reorganização do tráfego marítimo e da reabertura gradual das rotas de exportação. Segundo Miranda, esse processo pode ser mais lento do que o mercado espera.
O analista do BTG também cita como exemplo o Estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho. A passagem controla o tráfego marítimo em direção ao Canal de Suez e concentra cerca de 12% do petróleo transportado por via marítima no mundo.
Mesmo após um cessar-fogo firmado em 2025, o corredor logístico ainda opera com aproximadamente metade do fluxo registrado antes dos ataques iniciados em 2023. Para Miranda, um cenário semelhante pode ocorrer no Estreito de Ormuz, principal rota de escoamento do petróleo produzido no Golfo Pérsico.
“Isso pode acontecer e o mercado vai precificar isso.”
Nesse contexto, a visão do analista é de que o Brent pode continuar cedendo nas próximas semanas, mas dentro de um ambiente ainda marcado por elevada volatilidade. Qualquer dificuldade na reabertura das rotas marítimas, atraso na normalização dos fluxos ou nova tensão geopolítica pode provocar repiques temporários nos preços.
Assim, embora o mercado tenha deixado para trás o cenário mais agudo de guerra, o petróleo segue longe de um ambiente de estabilidade. A evolução das negociações entre Estados Unidos e Irã, a retomada dos fluxos marítimos e a recuperação da oferta regional continuarão determinando os preços nos próximos meses, mantendo elevada a volatilidade do mercado.