Petróleo assombra inflação, que deve acelerar em março com impacto da guerra; o que esperar?
O mercado se prepara para receber a inflação brasileira fechada de março. O dado, que será divulgado na sexta-feira (10), deve mostrar algum impacto dos choques do preço do petróleo no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
As estimativas do mercado mostram um avanço de 0,77% em março, segundo a mediana apurada pelo Broadcast. No acumulado dos 12 meses, a mediana indica alta de 4,03%, acima dos 3,81% registrados em fevereiro, já encostando no teto da meta de inflação.
As estimativas refletem os efeitos diretos e indiretos, inclusive via alimentos, do aumento do custo de combustíveis e energia. A alta do petróleo tende a se espalhar pela economia, elevando custos de transporte, pressionando cadeias produtivas e chegando ao consumidor final com algum atraso.
A prévia já deu um gostinho do que pode vir, já que o número mensal veio acima das expectativas do mercado. No terceiro mês do ano, o IBGE registrou uma alta de 0,44% no índice, ante os 0,29% projetados, de acordo com a mediana das projeções do Broadcast.
O que pode pressionar a inflação?
Na leitura do Banco Daycoval, o IPCA de março deve avançar com uma combinação de vetores já conhecidos, e outros que voltaram ao radar, pressionando os preços.
Entre os principais destaques estão os alimentos e as passagens aéreas, que já vinham mostrando alta no IPCA-15, além dos combustíveis, impactados pelo conflito no Oriente Médio.
A inflação de serviços segue como um ponto de atenção. As passagens aéreas voltam a pressionar o índice, enquanto itens mais ligados ao ciclo econômico, especialmente os intensivos em mão de obra, permanecem em níveis elevados. Esse comportamento mantém os chamados serviços subjacentes pressionados, um dos principais desafios para a condução da política monetária pelo Banco Central.
No caso dos bens industriais, a expectativa é de uma alta mais moderada, após a pressão recente vinda do etanol. Ainda assim, o segmento de vestuário pode aparecer como destaque de alta nesta leitura.
Já os preços administrados devem refletir novos aumentos em energia elétrica e combustíveis, reforçando o efeito do choque externo sobre a inflação doméstica.
Analistas já enxergam inflação acima da meta em 2026
Nesse contexto, casas de análise já revisam seus cenários para o ano. A XP Investimentos, por exemplo, elevou sua projeção para o IPCA de 2026 de 3,8% para 4,8%, refletindo principalmente o choque nos preços de energia. A revisão incorpora pressões mais persistentes em combustíveis, bens industrializados e serviços, ainda que parcialmente compensadas por um câmbio mais apreciado.
Segundo a XP, a gasolina — que tem peso relevante no índice — deve subir cerca de 8,2% no ano, enquanto o diesel pode avançar 23%, com impactos indiretos relevantes via fretes. Já a inflação de serviços deve permanecer elevada, próxima de 5,9%, enquanto alimentos também passam a representar um risco maior, diante do aumento dos custos logísticos e incertezas sobre fertilizantes.
Apesar da piora para 2026, a casa mantém a projeção de IPCA em 4,0% para 2027, apostando em um alívio nos preços do petróleo e em uma política monetária ainda restritiva.
O banco Daycoval também revisou sua projeção para a inflação ao fim de 2026 para 4,2%, com viés de alta. No horizonte, pesam tanto o cenário externo quanto riscos climáticos domésticos, como a possibilidade de um evento de El Niño no segundo semestre, que pode afetar a dinâmica de alimentos.