Petróleo em US$ 100 traria efeitos ambíguos para a economia brasileira, segundo o BTG Pactual
A alta do petróleo provocada pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio pode ter efeitos ambíguos sobre a economia brasileira. Embora o encarecimento da commodity pressione a inflação e complique o trabalho do Banco Central, o movimento também tende a fortalecer as contas externas e ampliar a arrecadação do governo.
Em relatório macro divulgado em março, o BTG Pactual destaca que o Brasil se beneficia parcialmente de choques positivos de commodities energéticas por ser um exportador relevante de petróleo. Nesse contexto, preços mais altos da commodity representam um fator de melhora para o setor externo.
“O aumento do preço do petróleo representa um risco altista para o saldo comercial”, afirmam os economistas do banco no documento divulgado nesta segunda-feira (9).
A instituição projeta um superávit comercial de US$ 75 bilhões em 2026, acima dos US$ 68 bilhões registrados em 2025, refletindo uma combinação de desaceleração das importações, aumento da produção de commodities e diversificação de mercados de exportação.
Caso o petróleo permaneça em níveis mais elevados, esse número pode subir ainda mais. Segundo o relatório, o Brent ao redor de US$ 80 por barril poderia elevar o superávit comercial brasileiro para cerca de US$ 84 bilhões em 2026 e US$ 90 bilhões em 2027, um incremento de aproximadamente US$ 8,5 bilhões em relação ao cenário-base.
“Em um cenário de Brent a US$ 100/barril, o superávit total poderia alcançar US$ 95 bilhões em 2026”, avaliam.
Parte desse efeito vem da expansão da própria produção doméstica. O banco destaca que a produção brasileira de petróleo atingiu o recorde de cerca de quatro milhões de barris por dia no fim de 2025 e deve crescer cerca de 10% ao longo de 2026, impulsionando as exportações da commodity.
Com isso, o superávit da balança de petróleo e derivados pode chegar a US$ 36 bilhões em 2026, ante US$ 32 bilhões em 2025, segundo as estimativas da casa.
Além desse fator positivo, o BTG acrescenta que o impacto fiscal também tende a ser bom. O aumento do preço do petróleo eleva a arrecadação relacionada ao setor de energia, incluindo royalties, tributos sobre combustíveis e dividendos de empresas estatais ligadas ao segmento.
Segundo as estimativas do BTG, cada aumento de US$ 10 no preço médio do barril de petróleo pode elevar a receita líquida do governo central em cerca de R$ 15,3 bilhões, mantidas as demais premissas constantes.
Em um cenário de petróleo mais caro, o banco calcula que o impacto poderia reduzir o déficit primário projetado para o governo central, ajudando a aliviar parte da pressão fiscal.
“Caso o preço médio do barril se estabilize em US$ 80 (ante nossa hipótese original de US$ 65 e com câmbio médio de R$ 5,20 por dólar) o impacto total sobre a receita líquida seria de R$ 23 bilhões, equivalente a 0,2% do PIB. Nesse cenário, o déficit projetado cairia de R$ 50 bilhões para R$ 27 bilhões, uma redução também de 0,2% do PIB”, dizem os analistas.
A inflação pesa
Ao mesmo tempo, porém, o choque de energia também gera pressões inflacionárias. Combustíveis têm peso relevante nos índices de preços e costumam produzir efeitos indiretos sobre transporte, logística e custos de produção.
De acordo com o BTG, o atual nível do petróleo já adiciona cerca de 40 pontos-base às projeções de inflação no Brasil, elevando o balanço de riscos para o IPCA.
“Os riscos que estavam assimétricos viraram para baixo”, diz o relatório. “O petróleo no nível atual traz viés altista para nossa projeção de inflação em cerca de 40 bps.”
Esse cenário pode dificultar o processo de desinflação e reduzir o espaço para cortes de juros, especialmente em um ambiente em que as expectativas inflacionárias seguem pressionadas.
O documento destaca ainda que esse impacto pode ser maior dependendo das premissas utilizadas na política monetária.
Caso o BC utilize sua metodologia padrão para o preço do petróleo, que considera a trajetória da curva futura da commodity pelos próximos seis meses e, depois, crescimento anual de 2%, e adote uma taxa de câmbio de R$ 5,25 por dólar, um cenário com o Brent próximo de US$ 80 por barril elevaria a projeção de inflação para 3,4% no terceiro trimestre de 2027, horizonte relevante da política monetária.
Esse nível ficaria acima da estimativa apresentada na reunião de janeiro do Comitê de Política Monetária (Copom), quando a inflação projetada era de 3,2% para o mesmo período.
Já em um cenário alternativo em que a Selic permanece constante, a projeção de inflação ficaria em torno de 2,85%, portanto abaixo da meta de inflação.