Petróleo no radar: Como prisão de Maduro impacta os preços e a Petrobras (PETR4)
O setor de petróleo voltou a ganhar destaque no mercado após a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na prisão do presidente Nicolás Maduro.
Apesar de justificar a ação com o combate ao narcotráfico e ao governo ditatorial de Maduro, Donald Trump destacou que companhias petrolíferas norte-americanas começarão a atuar na indústria venezuelana, que, segundo ele, foi “roubada” pelo regime socialista.
“Nós construímos a indústria petrolífera da Venezuela com talento, empenho e habilidade americanos, e o regime socialista a roubou de nós”, disse Trump. Segundo o presidente dos EUA, as empresas investirão “bilhões de dólares” para recuperar a infraestrutura e “começar a gerar lucro para o país”.
Impacto imediato no mercado
O mercado ainda está dividido quanto ao efeito da operação sobre o petróleo. Atualmente, a Venezuela produz menos de 1 milhão de barris por dia — menos de 1% da produção global — devido à infraestrutura envelhecida e às sanções americanas, o que limita impactos imediatos nos preços.
Por outro lado, o país detém as maiores reservas comprovadas de petróleo bruto do mundo, estimadas em 303 bilhões de barris, equivalentes à cerca de 17% do total global, que, se exploradas, poderiam ampliar a oferta global e pressionar os preços para baixo.
Na manhã desta segunda-feira (5), os preços do petróleo abriram em queda. Por volta das 6h05 (horário de Brasília), o Brent recuava cerca de 1%, cotado a US$ 60 o barril, enquanto o WTI caía 1%, a US$ 56. Porém, por volta das 11h, a commodity se recuperou: o Brent avançava 0,79%, a US$ 61,23, e o WTI subia 0,94%, a US$ 57,86.
Rafael Passos, analista da Ajax Asset, observa que o maior envolvimento dos EUA no setor petrolífero venezuelano pode flexibilizar gradualmente sanções e elevar a produção da commodity. Segundo ele, a oferta poderia aumentar cerca de 250 mil barris por dia no curto prazo e atingir entre 1,3 milhão e 1,4 milhão de barris diários em até dois anos.
“Com a redução de riscos políticos e sanções econômicas, espera-se uma queda do prêmio geopolítico do preço do petróleo, o que tem efeito desinflacionário e traz maior estabilidade às cadeias produtivas de energia. O movimento indica abertura a capital privado, integração aos mercados internacionais e redução de políticas intervencionistas”, explica Passos.
Já Regis Cardoso, head de óleo, gás e petroquímicos da XP, ressalta que, apesar do potencial das reservas venezuelanas, a produção real do país é limitada.
“No curtíssimo prazo, esse aumento da tensão geopolítica e um bloqueio das exportações de petróleo da Venezuela poderiam levar a uma restrição na oferta e o que sugeriria um aumento nos preços. Mas, o mercado global já está sobreofertado, enquanto as exportações venezuelanas foram restringidas ao longo de dezembro por uma ação militar norte-americana no Caribe. Então, ainda que exista esse risco de uma redução da oferta que levaria a preços mais altos, a gente não espera um aumento na cotação do petróleo. Já no médio-longo prazo, a história muda um pouco, porque, a gente já fala em aumento da oferta”, afirma.
Para Cardoso, em 12 meses, a produção pode crescer entre 300 mil e 500 mil barris/dia; em 36 meses, o incremento poderia atingir 1 a 1,5 milhão de barris, aproximando a Venezuela de níveis de produção de uma década atrás.
Oportunidades para o Brasil: Petrobras (PETR4) e oil junior
A Genial Investimentos avalia que a prisão de Maduro representa um ponto potencial de inflexão estrutural para o mercado global de petróleo e para a geopolítica da América do Sul.
“Com as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, a Venezuela carrega um potencial singular de reintroduzir, ao longo dos próximos anos, um volume relevante de oferta estrutural no mercado internacional, alterando o equilíbrio hoje sustentado pela OPEP e, por extensão, os mecanismos tradicionais de controle de preços”, aponta em relatório.
Para o Brasil, a provável reabertura venezuelana ao capital estrangeiro cria oportunidades de aquisição de ativos depreciados, principalmente para empresas com expertise em desenvolvimento de reservatórios maduros e reestruturação operacional. Projetos exploratórios de maior risco, como a Margem Equatorial, podem perder relevância frente a reservas já provadas.
No caso da Petrobras (PETR3; PETR4), a empresa mantém como trunfo o menor custo de extração da indústria brasileira, mas sua política de maior fluxo de investimentos pode pressionar dividendos. Entre as empresas com menor custo e dívida controlada, a Prio (PRIO3) se destaca frente a concorrentes como Brava Energia (BRAV3) e PetroReconcavo (RECV3), mas oportunidades estrangeiras também podem surgir.
Jean-Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, avalia que a Venezuela deve entrar em uma espécie de “quarentena do petróleo”. Segundo ele, Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, afirmou que o país não precisa do petróleo venezuelano e que o objetivo é impedir que a indústria do país seja controlada por adversários dos Estados Unidos.
“O objetivo não é produzir mais petróleo, nem controlar preços no curto prazo. É negar acesso, controlando o destino, o financiamento e a governança da energia venezuelana, para impedir que China, Rússia e Irã consolidem influência no Hemisfério Ocidental”, escreveu Prates em artigo.
Para ele, a resposta brasileira precisa ser estratégica, coordenada e baseada em soberania energética, política externa ativa e uso inteligente da Petrobras.
“Num mundo em que grandes produtores passam a ser contidos ou alinhados à força, o Brasil se posiciona como origem segura, institucionalmente estável e fora de sanções. Isso aumenta nosso peso no tabuleiro energético global, especialmente diante da China, mas também eleva nossa responsabilidade: energia deixou de ser apenas mercado; voltou a ser poder”, conclui.