Porto (PSSA3): CFO abre o jogo sobre dividendos, ROE na casa dos 20% e expectativas para saúde e banking
A possibilidade de criar uma empresa com a Oncoclínicas (ONCO3) e o Fleury (FLRY3) colocou a Porto (PSSA3) no centro das atenções do mercado (leia mais aqui). Mas não é de hoje que a empresa vem se movimentando fora de sua zona de conforto.
Em entrevista ao Money Times, o CFO da Porto, Celso Damadi, detalhou a transformação na estratégia da companhia, que deixou de ser uma seguradora focada majoritariamente em automóveis para se consolidar como um ecossistema diversificado.
A mudança de perfil é significativa: o segmento de seguro automotivo, que historicamente chegou a representar 90% do portfólio da organização, passou por uma diluição estratégica e hoje representa menos de metade dos negócios totais.
A atual configuração estrutural divide a companhia em quatro verticais principais: seguros, saúde, banking e serviços. Segundo Damadi, embora o braço de automóveis ainda seja impulsionado pela melhora da frota brasileira, são as verticais de saúde e banking que têm ditado o ritmo de expansão, com crescimentos anuais superiores a 20%.
Essa diversificação visa garantir a perenidade dos resultados e um ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) resiliente, permitindo que a Porto mantenha sua rentabilidade mesmo diante de um cenário de queda na taxa de juros.
| Raio- X da Porto | |
| Valor de mercado | R$ 31,2 bilhões |
| Valorização em 5 anos | 170,57% |
| Valorização em 2026 | 0,77% |
| P/L média em 5 anos | 9,57 |
| ROE médio em 5 anos | 17,29% |
| Dividend yield média em 5 anos | 5,35% |
Fonte: TradeMap e B3, até 27/03/2026
ROE acima dos 20% e ações em alta
A Porto vem se destacando recentemente pelo alto ROE. O indicador de rentabilidade tem superado 20% nos últimos meses e, na média, entre 2021 e 2025, foi de 17,29%.
“O ROE tem perpetuidade no patamar de 20%, mas atualmente está em um nível máximo. Nos próximos anos, deve convergir para outros cenários, mas nenhum abaixo de 20%”, avalia Anahy Rios, analista do Santander.
Diferentemente das concorrentes na B3 – o BB Seguridade (BBSE3) e a Caixa Seguridade (CXSE3) –, a Porto propõe um pacote diferente ao investidor: um ROE resiliente à queda dos juros, potencial de crescimento da operação e das ações, misturado com dividendos moderados, e uma estratégia ativa de recompra dos papéis.
Aparentemente, esse formato vem rendendo frutos. Levantamento do TradeMap indica que, nos últimos cinco anos, as ações PSSA3 apresentaram uma valorização de 170,29%, acima do Ibovespa, que avançou 55,38% no mesmo período. A valorização em cinco anos também fica acima de CXSE3 (+162,88%) e BBSE3 (+120,74%).

Estratégia para lidar com a queda da Selic
Como é praxe, toda seguradora costuma ter uma relação ganha-ganha com os juros. O lucro é puxado pela receita operacional com juros baixos e, diante de uma Selic elevada, há uma receita financeira maior. Um corte na taxa básica de juros tende a se traduzir na redução de receita financeira.
Em concorrentes como o BB Seguridade, a queda de 1 ponto percentual da Selic representa baixa de R$ 100 milhões no lucro. Na Porto, porém, a dinâmica é diferente, afirma Damadi.
“Se eu não fizesse nenhuma posição protetiva para a minha receita financeira, meu lucro diminuiria R$ 80 milhões com a queda dos juros. Mas a Porto já se preparou para essa Selic menor em 2026 e o efeito não é de redução de lucro, mas, sim, de aumento da receita financeira nominal”, afirma o executivo.
Um dos motivos, segundo ele, é que a receita financeira da Porto está mais relacionada à inflação (IPCA) do que à Selic. Além disso, a companhia costuma fazer uma espécie de marcação no seu resultado para evitar o impacto dos juros caindo.
“Em 2025, fizemos rolagem de dívidas de cerca de R$ 2 bilhões para ter juros em 2026 e 2027 com o menor impacto possível nos nossos negócios”, disse Damadi.
Segundo o CFO, a seguradora gosta de trabalhar pensando nos próximos 12 a 18 meses, com prêmios retidos, de forma a criar uma espécie de equilíbrio. Quando há receita financeira menor, a companhia trabalha na redução da sinistralidade (uso dos planos) para compensar essa queda. O oposto também vale: com receita financeira maior diante de juros altos, a Porto se permite trabalhar com sinistralidade maior.
É por este motivo que Damadi projeta para 2026 uma receita financeira maior do que em 2025, mesmo com a Selic recuando. Já em 2027 esse ganho tende a cair nominalmente, se não for compensado. “No governo Dilma, quando os juros chegaram a 2%, a Porto entregou 8% no ganho financeiro”, lembra o executivo.
Isso justificaria a projeção (guidance) da seguradora de atingir uma receita financeira de R$ 1,4 bilhão a R$ 1,8 bilhão em 2026. A faixa do guidance, segundo Damadi, vai depender da velocidade do corte dos juros pelo BC e da taxa de sinistralidade.
Em busca da rentabilidade ideal
Embora uma rentabilidade elevada sobre o patrimônio seja atrativa, Damadi confessa que preferiria não manter um ROE de 23% nos próximos anos, porque isso implica um custo de capital elevado, da ordem de 16% a 17%.
Segundo o CFO, se os juros forem menores, o custo do capital da Porto recua também. “Eu não preciso dar um ROE de 23% para ser atrativo ao investidor. É muito melhor um ROE de 21%, com custo de capital de 12% ou 13%, do que um ROE de 23% com custo de 17%”, defende ele.
O motivo é que com um custo de capital menor, a economia do país cresce, facilitando que os brasileiros possam comprar mais coisas, como um carro, e fazer novos seguros. Segundo Damadi, o ROE tem sempre sido na proporção de 140% a 150% do custo de capital. “Um ROE de 15% seria interessante ao acionista e um de 21%, muito atrativo”, pondera.
Regis Chinchila, head de research da Terra Investimentos, acredita que mesmo com a normalização da Selic, a Porto tem condições de preservar um ROE próximo a 20% no longo prazo, apoiada pela expansão do seu braço de saúde e pelo cross-sell (venda de produtos complementares) dentro do ecossistema.
Outro fator que impulsiona o ROE é a digitalização e eficiência do Porto Bank, com maior controle de risco. “A projeção é de um ROE estrutural entre 19% e 22% nos próximos cinco anos, ainda elevado para o setor”, avalia o analista.
Menos Auto, mais Saúde e Bank
Damadi aponta que a queda dos juros deve impulsionar a vertical de automóveis da Porto, fomentando a melhora da frota de veículos no Brasil e o tíquete médio da seguradora. Segundo o CFO, o automóvel não perdeu espaço na receita da Porto. Porém, verticais como saúde, bancos e serviços têm despontado mais.
“Em 2025, crescemos 250 mil cientes na carteira de auto, mas a vertical de bank e saúde crescem acima de 20% ao ano”, diz. A Porto Saúde atingiu 831 mil vidas em dezembro de 2025, e o plano até 2027 é ultrapassar 1 milhão de vidas seguradas.
Apesar de ter uma participação de mercado menor se comparada com outras concorrentes, analistas destacam que a Porto Saúde se tornou a principal vertical de crescimento da seguradora. “É um modelo fechado, que não tem ambição de ser líder de mercado. Apesar disso, continuamos vendo forte crescimento”, destaca Anahy Rios, do Santander.
Em relação ao Porto Bank, o CFO defende que há um forte potencial de crescimento, apoiado principalmente pelo conhecimento do fluxo de pagamento e poder de crédito da base de fornecedores da companhia.
“Estamos chegando a quase 1 milhão de contas abertas, testando crédito de pessoa jurídica com fornecedores, fomentando o financiamento de carro com garantia. A avenida de crescimento é muito mais atrativa nos próximos anos do que Porto Saúde e Porto Serviços”, diz o executivo.
IPO das verticais
O CFO lembra ainda que tanto na Porto Saúde como na Porto Serviços, a seguradora sempre esteve aberta a ter um parceiro que traga dinheiro para fortalecer crescimento, fusões e aquisições, e investimentos. Um IPO (abertura de capital) destas verticais também não está descartado.
A Porto chegou, por questões de governança e preparação do mercado, a fazer o registro de IPO destas verticais na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), para estar pronta quando surgisse uma boa oportunidade. Mas, segundo Damadi, esta não é necessariamente a prioridade para 2026.
“Meu capital atual me permite crescer, mas não temos pressa de fazer isso a qualquer custo nem data. Pode ser ano que vem ou pode ser em 2028”, diz. Para Rios, do Santander, IPO de vertical não é algo que vai ocorrer neste ano.
E os dividendos?
Diferentemente da Caixa Seguridade e do BB Seguridade, que historicamente distribuem entre 80% e 90% do lucro aos acionistas sob a forma de dividendos, a Porto planeja trabalhar com um payout (parcela do lucro destinada a proventos) mais moderado, aliado a uma estratégia de recompra de ações e com uma folga de caixa para investimentos e crescimento.
“Gostaríamos de estabilizar em 55% de payout, mas tudo depende do nosso apetite de compra, de crescimento, fusões e aquisições”, diz Damadi. Para o CFO o cenário ideal seria manter esse patamar, aliado a recompras, que também deixariam o lucro por ação mais atrativo.
Damadi descarta dividendos extraordinários em 2026 e diz que a companhia está tentando distribuir duas vezes ao ano, em abril e novembro, após perceber uma demanda dos investidores por previsibilidade. “Quem compra Porto sabe que é uma empresa com foco principal na perenidade e solvência da companhia, mas que paga dividendos razoáveis”, destaca.
Para os analistas consultados, os dividendos ainda são modestos e não se destacam, ficando entre 5,50% e 7% para 2026. A maioria sugere olhar para a ação mais como uma estratégia de crescimento do que necessariamente renda passiva. Veja abaixo
| Dividend yield projetado para 2026 | Preço-teto de compra | Preço-alvo | Recomendação | Quem recomenda |
| 5,90% | — | R$ 55 | Neutro | Santander |
| 5,50% | R$ 53,50 | R$ 63 | Compra | VG Research |
| 6% a 7% | R$ 52 | R$ 60 | Compra | Terra Investimentos |