Powell afasta expectativa de cortes e reforça independência do Fed sob pressão de Trump
O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, esfriou nesta quarta-feira (28) as expectativas de novos cortes de juros no curto prazo e reforçou a defesa da independência do banco central em meio ao aumento da pressão política do presidente Donald Trump.
Após a decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) de manter a taxa de juros inalterada e alertar para eventuais aumentos, Powell afirmou que a economia dos Estados Unidos entra em 2026 “com base sólida”, com crescimento em ritmo firme, desemprego “globalmente estável” e inflação ainda “um pouco elevada”.
Segundo ele, esse conjunto de dados dá ao Fed espaço para esperar e avaliar os próximos indicadores antes de fazer novos ajustes na política monetária.
“Depois de três cortes recentes, estamos bem posicionados para tomar decisões reunião a reunião, com base nos dados”, disse Powell, ao ser questionado sobre o calendário de novos afrouxamentos monetários. Ele evitou sinalizar qualquer cronograma e ressaltou que a política não segue “um caminho pré-definido”.
Na entrevista, Powell reconheceu que o mercado de trabalho perdeu força, mas indicou que há sinais de estabilização após meses de desaceleração. A taxa de desemprego ficou em 4,4% em dezembro e, segundo ele, mudou pouco nos últimos meses. Já a criação de empregos, afirmou, desacelerou para uma média de 22 mil vagas por mês, refletindo tanto uma demanda mais fraca quanto a perda de ritmo da oferta de mão de obra, com menor imigração e participação.
No diagnóstico da inflação, o presidente do Fed apontou que a alta de preços segue acima da meta de 2% e atribuiu boa parte do “excesso” ao impacto das tarifas sobre bens. Powell classificou esse movimento como um choque “pontual” de preços — e não um sinal de demanda superaquecida — e disse esperar que os efeitos tarifários atinjam um pico no meio do ano, desde que não haja novos aumentos relevantes de tarifas.
Enquanto isso, afirmou, o setor de serviços continua mostrando desinflação, o que reforça a avaliação de que o processo de desaceleração inflacionária ainda está em curso. Ele também destacou que as expectativas de inflação de longo prazo seguem “bem ancoradas”, em linha com o objetivo do Fed.
A coletiva também foi marcada por perguntas sobre o ambiente político em Washington. Powell se recusou a comentar o câmbio e disse que o tema cabe ao Departamento do Tesouro, mas foi mais direto ao tratar da autonomia do banco central. Segundo ele, a independência do Fed não existe para “proteger” autoridades, e sim para evitar que a política monetária seja usada com objetivos eleitorais.
“Se você perde isso, é difícil restaurar a credibilidade da instituição”, afirmou, ao defender que decisões devem ser tomadas com base no que é “melhor para todos”, e não para beneficiar grupos específicos.
O presidente do Fed também evitou responder sobre questões pessoais e institucionais, como sua permanência no cargo e eventuais intimações, mas admitiu preocupação com o quadro fiscal americano. Powell disse que o orçamento federal está em uma trajetória “insustentável”, com déficits elevados mesmo em um cenário de pleno emprego, e afirmou que quanto antes houver ação, melhor.
Ao final, Powell reiterou que o Fed seguirá atento aos dois lados do mandato — emprego e inflação — e que um novo corte dependerá de sinais mais claros de enfraquecimento do mercado de trabalho ou da confirmação de que a inflação voltará a convergir para 2% de forma sustentável.
Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, afirma que o Fomc cumpriu o script amplamente precificado ao manter as taxas de juros no intervalo de 3,5% e 3,75%, embora a não unanimidade da votação mostre uma racha no Fed entre aqueles preocupados com o risco inflacionário persistente e os que buscam um “soft landing perpétuo”.
“O presidente Powell reforçou a saúde do mercado de trabalho e da economia, que provavelmente foi um dos fatores mais relevantes para a opção pela estabilidade da taxa de juros, junto com riscos considerados assimétricos para cima sobre os preços de serviços”, destaca.
Já Étore Sanches, economista-chefe da Ativa Investimentos, aponta que as alterações no comunicado do Fomc foram hawkish, com a autoridade monetária reconhecendo o avanço da atividade, a estabilização da piora no desemprego e manifestando o incomodo com a inflação elevada.
“No final das contas, apesar da dissidência, avaliamos que o comunicado foi duro, e afasta, em alguma maneira, a perspectiva de cortes já na próxima reunião”, completa.