Empresas

“Quando a rentabilidade melhora, eles gastam”: acordo com Einstein reacende alerta sobre a Ânima (ANIM3)

21 out 2026, 14:10
ânima
(Imagem: Facebook/Ânima Educação)

“Parece que não pode ver um real sobrando.” Foi assim que um gestor de ações, que preferiu não se identificar, resumiu o acordo entre a Inspirali, controlada da Ânima (ANIM3), e o Hospital Israelita Albert Einstein.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A reação ajuda a explicar o desconforto dos investidores com a operação. Depois de anos tentando reduzir o endividamento e recuperar a confiança do mercado, a companhia voltou a assumir compromissos financeiros relevantes, enquanto o retorno dos investimentos ainda depende de resultados futuros.

Na terça-feira (20), após o anúncio da parceria, as ações ANIM3 fecharam em queda de mais de 9%, refletindo a preocupação dos investidores com os custos do contrato e a capacidade de a empresa gerar valor com a iniciativa.

O episódio também traz de volta uma discussão que ganhou força neste ano, quando a Ânima anunciou a recompra das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) por R$ 410 milhões. A operação já havia levantado questionamentos sobre a disciplina financeira da companhia.

Considerando a dívida da adquirida, o BTG Pactual estima que o valor econômico total da transação chegue a cerca de R$ 560 milhões, o equivalente a dez vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) anual da FMU. Na época, a própria Ânima era negociada a aproximadamente três vezes.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

No pregão em que a aquisição foi anunciada, as ações chegaram a cair mais de 20%.



Dividendos também entraram na conta

A desconfiança, porém, vem de antes. Em agosto de 2024, a Ânima surpreendeu o mercado ao anunciar a distribuição de R$ 178 milhões em dividendos. O pagamento de R$ 0,4712 por ação representava um dividend yield de 13,9%.

A decisão foi recebida com preocupação porque ocorreu no mesmo trimestre em que a companhia registrou prejuízo contábil e ainda enfrentava forte pressão de endividamento.

Para investidores, a distribuição de recursos naquele momento levantou dúvidas sobre as prioridades da administração, diante da necessidade de fortalecer o balanço e reduzir a alavancagem.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Agora, a parceria com o Einstein reacende o debate. “Quando o dinheiro começa a aparecer e a rentabilidade melhora um pouco, eles dão um jeito de gastar”, afirma outro gestor ouvido pela reportagem.

A crítica está relacionada ao histórico recente da companhia. Após anos de esforços para reduzir a dívida, a Ânima vinha avançando na desalavancagem, indicador que relaciona o endividamento à capacidade de geração de resultados.

Essa trajetória ajudava a reconstruir a confiança do mercado. Novas operações com desembolsos relevantes, contudo, voltam a colocar em xeque a disciplina na alocação de capital.

O que está em jogo no acordo com o Einstein

Do ponto de vista estratégico, a parceria tem uma justificativa clara para a Ânima. O acordo permitirá que a Inspirali associe sua marca à do Einstein, instituição reconhecida na área da saúde, além de contar com apoio técnico, científico e acadêmico para os cursos de Medicina.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A expectativa é que essa associação ajude a diferenciar a oferta educacional, fortaleça a percepção de qualidade e aumente a capacidade de atrair estudantes em um mercado cada vez mais competitivo.

A operação abrange 15 instituições da Inspirali, 1.892 vagas anuais autorizadas em Medicina e aproximadamente 12,6 mil alunos, segundo o BTG Pactual. O prazo inicial do contrato é de 20 anos, com renovação automática por mais 20.

Pelo acordo, o Einstein prestará serviços técnicos, científicos, pedagógicos e de consultoria, além de autorizar o uso de sua marca nos cursos, conforme as condições contratuais. A Inspirali continuará responsável pelas decisões acadêmicas e institucionais e pelo cumprimento das exigências regulatórias.

O ponto de atenção, para os analistas, está menos na lógica estratégica da parceria e mais na conta que precisa fechar.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O contrato prevê pagamentos fixos de R$ 150 milhões, divididos em duas parcelas de R$ 75 milhões e corrigidos pelo IPCA, além de uma comissão de 6% sobre a receita líquida dos alunos que ingressarem em novas turmas após a assinatura.

Na prática, a Ânima assume custos definidos para obter benefícios que ainda precisam ser comprovados. Para compensar as despesas, a Inspirali terá de conseguir atrair mais alunos, melhorar a retenção ou elevar as mensalidades — ou combinar essas frentes.

Ticket médio precisa subir para compensar custos

A XP estima que, considerando os pagamentos fixos e a comissão prevista no contrato, o ticket médio dos cursos precisaria aumentar cerca de 10% a partir de 2027 para que o valor presente líquido do acordo fosse neutro.

A projeção evidencia o desafio de transformar o prestígio da marca Einstein em retorno financeiro. O primeiro ciclo de captação de alunos sob a parceria deverá oferecer sinais mais concretos sobre a capacidade de a Inspirali elevar suas receitas.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O Itaú BBA também reconhece o potencial de fortalecimento da marca, mas pondera que ainda é difícil mensurar se os benefícios econômicos serão suficientes para compensar os custos do contrato.

Para o banco, a alavancagem da Ânima e sua capacidade de continuar reduzindo a dívida permanecem entre as principais preocupações dos investidores.

O questionamento, portanto, não é apenas se a parceria faz sentido do ponto de vista acadêmico ou comercial, mas se o retorno esperado justifica o compromisso financeiro assumido neste momento.

A herança da Laureate ainda pesa

A cautela do mercado tem raízes na própria trajetória da Ânima. Em 2021, a companhia concluiu a aquisição dos ativos brasileiros da Laureate, grupo que detinha instituições como a Anhembi Morumbi.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A operação ampliou significativamente a escala do negócio e fortaleceu a presença da companhia no ensino superior, especialmente em cursos de Medicina. Ao mesmo tempo, elevou o endividamento em um momento pouco favorável para quem dependia de crédito.

A negociação foi acirrada. A Laureate já tinha um acordo de venda com a Ser Educacional, mas a Ânima apresentou uma proposta superior, de R$ 4,4 bilhões, e pagou uma multa de rescisão de R$ 180 milhões para assumir o negócio.

O aumento da escala veio acompanhado de uma dívida maior justamente antes do ciclo de alta dos juros no Brasil, que levou a taxa básica de um dígito para mais de 15% ao ano. O encarecimento do crédito pressionou os resultados e obrigou a companhia a priorizar a geração de caixa, o controle de custos e a redução da alavancagem.

Nos anos seguintes, a desalavancagem se tornou uma das principais prioridades da administração e um fator importante para a recuperação da confiança dos investidores.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

É por isso que novas operações com compromissos financeiros expressivos despertam tanta atenção. O receio é que a companhia volte a acelerar a expansão antes de consolidar uma estrutura de capital mais confortável e de ter maior clareza sobre o ambiente de juros.

Alta das ações contrasta com preocupação sobre a dívida

A discussão sobre a disciplina financeira ocorre em meio a um movimento favorável para os papéis da Ânima. Em outubro, as ações acumulam valorização de quase 70%, segundo os dados considerados nesta reportagem.

O avanço ocorre em um ambiente de maior apetite por ativos brasileiros sensíveis à trajetória dos juros, impulsionado, entre outros fatores, pelas apostas dos investidores em uma eventual mudança no cenário político e fiscal do país. A possibilidade de um governo Flávio Bolsonaro tem sido associada por parte do mercado a uma perspectiva de maior responsabilidade fiscal, contribuindo para o alívio dos juros futuros.

Esse cenário tende a favorecer empresas mais endividadas ou expostas ao ciclo econômico doméstico, como a Ânima, ao melhorar as expectativas para o custo de financiamento e o desempenho operacional.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Compartilhar

WhatsAppTwitterLinkedinFacebookTelegram
Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP). Em 2025 e 2026, esteve entre os 50 jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. A cobertura atual é de empresas abertas na bolsa de valores, com foco em blue chips. Já trabalhou como coordenadora e editora de conteúdo das redes sociais do Seu Dinheiro e Money Times. Além disso, é pós-graduada em Comunicação digital e Business intelligence pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Linkedin
Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP). Em 2025 e 2026, esteve entre os 50 jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. A cobertura atual é de empresas abertas na bolsa de valores, com foco em blue chips. Já trabalhou como coordenadora e editora de conteúdo das redes sociais do Seu Dinheiro e Money Times. Além disso, é pós-graduada em Comunicação digital e Business intelligence pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Linkedin

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies.

Fechar