Rabobank acende ‘alerta amarelo’ com expansão do etanol de milho no Brasil
A forte expansão do etanol de milho no Brasil e seus reflexos sobre os mercados de açúcar e biocombustíveis foram tema do mais recente relatório do Rabobank, intitulado “Corn ethanol in Brazil – yellow alert for sugar?”.
Segundo o banco, a ameaça de um desequilíbrio no mercado de etanol acende um “alerta amarelo” para a indústria do açúcar, no Brasil e em outros países.
O crescimento da produção do biocombustível à base de milho tem sido acelerado, sustentado por um modelo de negócio robusto e competitivo. Como resultado, os investimentos em capacidade adicional seguem em ritmo intenso. No entanto, a perspectiva de uma expansão muito rápida levanta preocupações quanto a um possível excesso de oferta de etanol no curto e médio prazo no Brasil.
Pelo lado da demanda, um consumo adicional pode surgir de diversas formas, como o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina, uma mudança estrutural no consumo decorrente da reforma da tributação dos combustíveis e/ou o crescente interesse local e global por combustíveis sustentáveis para a aviação e o transporte marítimo.
Por outro lado, grande parte desses fatores é uma perspectiva de mais longo prazo (2029–2030) e, diante da rápida expansão da capacidade de produção de etanol de milho, pode ser difícil que a demanda cresça no mesmo ritmo no curto e médio prazo.
Essa ameaça de desequilíbrio no mercado de etanol reforça o sinal amarelo para a indústria sucroenergética, no Brasil e no mundo.
“Um excesso de oferta de etanol pressionaria os preços do biocombustível, o que poderia se traduzir em maior produção de açúcar, à medida que as usinas brasileiras arbitram as margens entre os dois produtos, levando os preços do açúcar e do etanol à paridade”, explica Andy Duff.
Para 2026, a expectativa de que a próxima safra de cana do Brasil (2026/27) seja robusta pode já ter precificado esse cenário.
“Olhando mais à frente, há, evidentemente, diversas razões pelas quais esse cenário pode não se repetir nos anos seguintes, apesar do crescimento da oferta de etanol no Brasil — por exemplo, eventos climáticos podem impactar negativamente a produção global de açúcar, ou uma alta nos preços do petróleo e da gasolina pode dar suporte aos preços do etanol”, avalia o analista.
Ainda assim, o Rabobank reforça que o tema merece atenção, uma vez que qualquer mudança relevante no mercado brasileiro de etanol pode ter repercussões para os agentes do setor sucroenergético ao redor do mundo.
Por dentro do rápido avanço do etanol de milho e seus efeitos
Há uma década, a indústria de etanol de milho praticamente não figurava no radar. Para a safra 2025/26, no entanto, a produção deve se aproximar de 10 bilhões de litros.
No Brasil, existem dois modelos de plantas de etanol de milho. O primeiro é a planta “full”, uma unidade industrial tradicional e independente; o segundo é a planta “flex”, uma unidade de etanol de milho anexa a uma usina de cana-de-açúcar já existente. A grande maioria da capacidade instalada ou em construção é do tipo “full”.
Olhando adiante, a expectativa é de continuidade dos investimentos em capacidade adicional.
A análise do RaboResearch sobre projetos autorizados pela ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), somada a projetos anunciados por patrocinadores considerados confiáveis, mas ainda não incluídos na lista da agência, sugere que, até o final de 2028, a capacidade operacional de produção de etanol pode alcançar até 16 bilhões de litros, principalmente a partir do milho, mas também de outros cereais, como sorgo e trigo.
Em um horizonte ainda mais distante, diversas projeções de agentes do setor e consultorias indicam que, no início da década de 2030, essa capacidade pode ultrapassar 20 bilhões de litros.
“O setor sucroenergético, que ainda responde por cerca de dois terços de todo o etanol produzido no Brasil, não pode deixar de observar a expansão do etanol de milho com preocupação. Nos últimos anos, o setor de etanol de cana tem se concentrado em maximizar a produção de açúcar, diante de preços de mercado atrativos”, observa o Rabobank.
Com isso, menos cana vem sendo destinada à produção de etanol, abrindo espaço para o crescimento do etanol de milho sem provocar, até agora, um desequilíbrio imediato entre oferta e demanda.
Com o pico cíclico dos preços do açúcar já no passado e a capacidade de etanol de milho crescendo de forma contínua, as perspectivas de curto e médio prazo apontam para desafios à frente.
Para 2026, a resposta tradicional do setor de cana a preços baixos em um mercado de açúcar superavitário — produzir mais etanol e menos açúcar — pode gerar um excesso de etanol no mercado doméstico.