A Raízen (RAIZ4) registrou um impairment de R$ 11,1 bilhões no terceiro trimestre da safra 2025/2026 (3T26), movimento que explica a maior parte do prejuízo de R$ 15,65 bilhões reportado no período. O ajuste contábil, sem efeito imediato no caixa, reflete uma revisão para baixo do valor de ativos diante de um cenário mais adverso para a companhia.
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Na prática, o impairment ocorre quando a empresa conclui que determinados ativos — como usinas, créditos fiscais, ativos imobilizados e intangíveis — valem menos do que o registrado anteriormente no balanço. A decisão é resultado do chamado “teste de recuperabilidade”, que considera as projeções de geração de caixa e as condições de mercado. Ao atualizar essas premissas, a companhia reconhece que poderá recuperar menos valor no futuro do que estimava antes.
Segundo a administração, se desconsiderados os efeitos não recorrentes, o prejuízo do trimestre teria sido de R$ 4,5 bilhões. Ainda assim, o número evidencia a pressão operacional e financeira enfrentada pela produtora de açúcar, etanol e distribuidora de combustíveis.
O que levou ao impairment
A Raízen apontou três fatores principais para o ajuste bilionário:
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Deterioração do perfil de crédito, após sucessivos rebaixamentos pelas agências S&P Global Ratings, Moody’s e Fitch Ratings, o que elevou o custo de capital e reduziu a previsibilidade financeira;
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Pressão de curto prazo nos preços de açúcar e etanol, afetando margens e projeções de geração de caixa;
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Estrutura de capital desbalanceada, com aumento relevante das despesas financeiras em um ambiente de juros elevados.
Com a perda do grau de investimento, a percepção de risco aumentou, tornando mais difícil vender ativos, recuperar créditos tributários e acessar financiamento em condições favoráveis. Esse novo contexto impactou diretamente as premissas utilizadas nos cálculos de valor recuperável dos ativos.
Além disso, fatores operacionais agravaram o cenário. Condições climáticas adversas, como seca e geadas, prejudicaram a produtividade dos canaviais, enquanto o Ebitda do segmento de açúcar, etanol e bioenergia caiu 28% em relação ao ano anterior.
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Endividamento no centro da equação
O impairment também dialoga com o elevado nível de endividamento da companhia. A dívida bruta somava R$ 55,32 bilhões ao fim do trimestre, equivalente a uma alavancagem de 5,3 vezes o Ebitda — ante 3 vezes um ano antes.
Para reduzir esse indicador, a empresa vem promovendo uma agenda de desinvestimentos. Nos últimos 12 meses, levantou cerca de R$ 5 bilhões com a venda de seis usinas e ativos de energia e eletromobilidade. Também encerrou sua participação na joint venture com a mexicana FEMSA no Grupo Nós, deixando a sociedade na rede Oxxo no Brasil.
A estratégia, segundo o CEO Nelson Gomes, é retomar o foco no core business: produção de açúcar e etanol e distribuição de combustíveis e lubrificantes. A venda de ativos na Argentina deve ser concluída até o fim do ano, e o objetivo é reduzir a alavancagem para algo entre 2 e 2,5 vezes.
Efeito dominó no grupo
Os rebaixamentos de rating também tiveram reflexos na controladora Cosan, cuja perspectiva foi revisada para negativa pela S&P, citando riscos associados à eventual reestruturação da dívida da Raízen.
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No mercado, a piora na percepção de crédito levou investidores a se desfazerem de bonds e debêntures da companhia. Detentores de títulos emitidos no exterior formaram um comitê e contrataram a consultoria Moelis & Company, além do escritório White & Case, para assessorar negociações relacionadas à dívida.
Apesar do cenário, a empresa afirma ter R$ 17 bilhões em caixa e sustenta que não há risco imediato à continuidade operacional.
O que o impairment sinaliza
O reconhecimento do impairment não implica desembolso imediato, mas é um indicativo claro de que as expectativas futuras de geração de valor foram reduzidas. Trata-se de um ajuste contábil que realinha o balanço à nova realidade financeira e operacional da companhia.
A reversão dessas perdas dependerá de uma combinação de melhora no cenário de preços, recuperação operacional e, principalmente, reequilíbrio da estrutura de capital. Até lá, o impairment de R$ 11 bilhões funciona como um retrato contábil da crise enfrentada pela Raízen — e como um alerta sobre os desafios que ainda estão por vir.