Recorde nos EUA, insumos, etanol, Irã e pressão baixista: O radar do milho em 2026
O relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), divulgado na segunda-feira (12), trouxe surpresas não apenas para a soja, mas também para o mercado de milho.
O USDA elevou a estimativa da safra norte-americana de 425,5 milhões para 432,4 milhões de toneladas, o que representaria a maior produção de milho da história do país.
As projeções para os estoques finais dos EUA também avançaram 9,8%, alcançando 56,6 milhões de toneladas, contrariando a expectativa do mercado, que apostava em uma redução.
Segundo Raphael Bulascoschi, analista da StoneX, o principal destaque do relatório foi o aumento da produtividade da safra americana. A produtividade média foi elevada para 11.707 kg por hectare, enquanto a área colhida foi revisada para 36,9 milhões de hectares.
“O mercado não esperava isso — pelo contrário, muitos analistas projetavam até uma redução de produtividade. Esse grande volume projetado para 2026 pressiona o mercado. Vimos o contrato março em Chicago recuar para US$ 4,20 por bushel, e ainda há espaço para novas quedas”, explica.
Por volta das 11h12 desta quinta-feira (15), o contrato março avançava 0,41%, cotado a US$ 4,23 por bushel.
O especialista aponta que a demanda por ração animal está menor do que o USDA estima. Já o consumo para etanol também segue ligeiramente abaixo das projeções oficiais, embora ainda exista incerteza, uma vez que faltam cerca de seis meses para o encerramento do ano-safra.
No caso das exportações, os Estados Unidos caminham para um ano recorde, após diversas revisões positivas. Ainda pode haver novos ajustes, mas o espaço para revisões adicionais é mais limitado.
Com isso, ao longo dos próximos meses, à medida que o USDA revisa o balanço, o mercado pode enfrentar um cenário ainda mais baixista.
O que deve ditar o mercado de milho em 2026?
No curto prazo, a tendência permanece baixista. Contudo, olhando para 2026, os Estados Unidos iniciarão o plantio de uma nova safra, e há uma expectativa consistente de redução da área dedicada ao milho. Esse movimento pode oferecer algum suporte aos preços, especialmente no segundo semestre.
Alguns fatores favorecem a soja em detrimento do milho na rotação de culturas da safra 2026/27, segundo Bulascoschi.
O primeiro é econômico: após o relatório do USDA, o milho recuou muito mais do que a soja, tornando a relação de preços mais favorável à oleaginosa — o oposto do observado no início de 2025.
Além disso, o milho é uma cultura mais intensiva em fertilizantes, e os preços dos insumos seguem elevados, pressionando as margens do produtor, que tende a optar pela soja.
Soma-se a isso a questão agronômica: poucos produtores plantam milho em dois anos consecutivos. Como a área foi muito grande em 2025, é natural que haja uma migração para a soja em 2026, por questões de manejo e saúde do solo.
Ainda assim, há muita incerteza, especialmente no mercado de soja.
“Não sabemos se a China voltará a comprar soja americana em volumes relevantes, nem como a EPA (agência ambiental dos EUA) vai definir as metas de biocombustíveis para os próximos anos. Se essas metas forem bem recebidas pelo mercado, podem incentivar ainda mais a soja; caso contrário, o efeito pode ser o oposto”, afirma.
De forma geral, o cenário aponta para menor área de milho nos Estados Unidos. Caso isso se confirme, em um contexto de demanda global ainda elevada — especialmente no México, hoje o principal importador do milho americano — o balanço pode ficar mais ajustado no fim do ano.
“Ainda assim, é difícil imaginar um cenário de escassez global após dois anos consecutivos de safras gigantes. Os estoques devem seguir confortáveis”, completa.
O Brasil e o etanol de milho
Em 2025, o Brasil também colheu uma safra recorde. No entanto, o consumo interno cresce ano após ano, impulsionado principalmente pela expansão do etanol de milho.
Ainda é cedo para falar em produtividade, já que o plantio da safrinha está no início, mas a StoneX estima um crescimento tímido da área, insuficiente para acompanhar o avanço do consumo. A área plantada deve crescer 2%, enquanto a demanda por milho para etanol pode avançar entre 7% e 8%.
“Devemos ver mais um ano de exportações pressionadas. Além disso, precisamos atravessar 2026 com estoques robustos, já que a safrinha só é colhida no segundo semestre. As usinas de etanol de milho que entram em operação em 2026 e no início de 2027 precisam estar abastecidas, o que reforça a necessidade de estoques”, destaca.
Na StoneX, a estimativa é de uma queda de cerca de 4 milhões de toneladas na produção, enquanto o consumo deve crescer aproximadamente 6 milhões de toneladas.
Com isso, a variável de ajuste tende a ser novamente a exportação. “O milho brasileiro deve seguir pouco competitivo no mercado internacional, operando com prêmio em relação ao mercado global”, avalia.
E o Irã?
O Irã, que enfrenta uma onda de protestos contra o regime dos aiatolás — já com mais de 3.400 mortes registradas — foi o principal importador do milho brasileiro em 2025, o que gera apreensão no mercado.
Além dos efeitos diretos de uma instabilidade política significativa em um parceiro comercial relevante, há o temor de que uma eventual retaliação tarifária dos Estados Unidos leve o Brasil a recuar nas negociações sobre tarifas, um dos principais temas do ano passado.
Além disso, o Irã é um importante exportador de ureia, insumo essencial para a cultura do milho, o que também levanta preocupações entre produtores brasileiros em relação aos custos da próxima safra.