Sem cortes nos juros dos EUA: Mercado zera aposta de início de afrouxamento monetário em 2026
O temor de um novo choque inflacionário, com a recente escalada dos preços do petróleo, refez as apostas sobre a trajetória dos juros nos Estados Unidos.
Nesta quinta-feira (19), o mercado zerou a possibilidade de algum corte na taxa referencial norte-americana pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) ao longo de 2026.
De acordo com a ferramenta FedWatch, do CME Group, os traders veem 93,8% de chance de o Fed manter os juros na próxima decisão, em 29 de abril. Para as decisões até dezembro, a aposta majoritária continua a ser de manutenção, com probabilidade acima de 80% em cada.
Ao longo do dia, o mercado passou a rever o ajuste nos juros até o final de 2027. Por volta de 13h30 (horário de Brasília), os traders viam apenas alguma chance de corte nos juros a partir do segundo semestre de 2027. Ainda de acordo com o CME, os operadores precificam 79,9% de redução, de algum nível, em setembro. Até o início da tarde de hoje, o mês mais provável para início do ciclo de afrouxamento monetário era julho, com 50% de chance.
A probabilidade de alta nos juros no próximo ano também entrou no radar, com 4,9% de chance.
Ontem (18), após a decisão do Fed de manter os juros inalterados na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, o mercado já havia adiado a aposta de um corte de dezembro para março de 2027.
Na coletiva de imprensa, o presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou que a chance de elevar os juros na próxima reunião foi debatida, em meio aos temores quanto aos impactos econômicos da guerra no Irã. “O assunto surgiu hoje. A possibilidade de que nosso próximo passo possa ser um aumento foi, sim, levantada na reunião, tal como ocorreu no encontro anterior”, disse.
Além da decisão, o Fed divulgou o sumário de projeção econômica (SEP) e o gráfico de pontos – conhecido como ‘dot plot‘ –, que são atualizados trimestralmente. De acordo com o SEP, o Fed prevê apenas um corte nos juros ao longo de 2026.
A mediana para o Fed Funds foi mantida em 3,4% neste ano, o que sugere a taxa de juros no intervalo de 3,25% a 3,50% em dezembro.
O que fez o mercado zerar os cortes nos EUA?
A expectativa de juros elevados no mundo por um período bastante prolongado ganhou força na manhã de hoje após a decisão de política monetária do Banco Central da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês).
O BoE manteve os juros em 3,75% ao ano, mas ressaltou que o conflito no Oriente Médio pode causar aumento na inflação no curto prazo – o que seria um novo choque na economia.
Alguns membros do Comitê de Política Monetário britânico já levantaram a possibilidade de um aumento nos juros a frente.
“A decisão do BoE, com alerta para as pressões inflacionárias, estressou as curvas [de juros futuros] globais. Por lá, o mercado migrou a aposta de uma para três altas de 0,25 pontos-base ao longo deste ano”, afirmou a analista de renda fixa da Empiricus Research, Laís Costa.
O BC britânico ainda destacou, em comunicado, que a política monetária não pode reverter o choque no fornecimento de energia, mas deve responder ao risco de um efeito mais persistente sobre a inflação ao consumidor do Reino Unido.
Durante a coletiva de imprensa, o presidente do BoE, Andrew Bailey, alertou que uma interrupção prolongada no fornecimento de petróleo, gás natural e outras commodities, como fertilizantes e gás neônio, aumenta o risco de alta da inflação.
O Banco Central da Europa (BCE), que também manteve os juros em 2% nesta quinta-feira, disse que o salto nos preços da energia elevou sua previsão de inflação para a zona do euro em 2026 a 2,6% – acima de sua meta de 2% – mas disse que o impacto de longo prazo ainda não está claro.
“A guerra no Oriente Médio tornou as perspectivas significativamente mais incertas, criando riscos de alta para a inflação e riscos de baixa para o crescimento econômico”, afirmou a presidente do BCE, Christine Lagarde.
Para Carsten Brzeski, diretor global de macroeconomia da ING Research, o retorno a expressão “monitorar de perto” (monitor closely) no comunicado da decisão é um sinal claro de que o BCE elevou seu nível de alerta. “No passado, esse termo sempre indicou atenção máxima — foi utilizado durante as tensões bancárias de março de 2023 e anteriormente em 2022”, disse o diretor, em nota.
“Em períodos mais anteriores, “monitorar de perto” era seguido por “vigilância”, geralmente no caminho para aumentos de juros. Seguindo a lógica da comunicação institucional do BCE, a combinação atual desse termo com a avaliação de Lagarde de que os riscos para a inflação estão inclinados para cima indica claramente maior estado de alerta”, acrescentou Brzeski.
Ele ainda considera que, embora o cenário atual é diferente do vivenciado em 2022, a alta de juros na zona do euro não pode ser descartada.
E o juros no Brasil?
No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a Selic de 15,00% para 14,75% ao ano na noite de ontem (18). Essa foi a primeira flexibilização do Banco Central desde julho, em linha com o esperado pelo mercado.
No comunicado, o BC disse estar dando início a um ciclo de “calibração” da política monetária, mas reforçou o “forte aumento da incerteza” e o “distanciamento adicional” das projeções de inflação em relação à meta.
O colegiado também destacou que ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio. Segundo o Comitê, o cenário exige cautela por parte dos países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.
Mas o temor de um choque inflacionário também repercute sobre a curva de juros futuros. Os investidores começaram a ajustar posições tendo como norte a possibilidade de o BC manter a Selic em 14,75% em abril, caso a incerteza gerada pela guerra permaneça.
Em reação, as taxas de Depósito Interfinanceiros (DIs) operam com altas firmes em todos os vencimentos, próximas a 30 pontos-base, acompanhando o movimento do exterior.
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Os economistas do Daycoval acreditam que o Copom manterá uma postura mais cautelosa, com adoção de ritmo lento de cortes nos juros, considerando as incertezas sobre o conflito no Oriente Médio, a inflação mais elevada, as expectativas ainda desancoradas e a inversão na composição da atividade econômica “com cíclicos mais fortes neste início do ano”.
A equipe, porém, considera que caso o “conflito seja solucionado com significativo impacto baixista para o preço do petróleo, o corte de juros mais forte pode voltar à mesa”.