Eleições 2026

Sem Tarcísio e com Alckmin ‘no governo errado’, ruralistas devem abraçar Flávio Bolsonaro na disputa para o Planalto

19 mar 2026, 7:00 - atualizado em 17 mar 2026, 16:45
Os deputados federais e membros da FPA Arnaldo Jardim (esquerda) e Pedro Lupion (direita) (Divulgação/FPA)

A relação da bancada ruralista com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), historicamente conturbada, foi praticamente rompida no atual mandato. Além de suceder a Jair Bolsonaro (PL), que “passou a boiada” com medidas e ações favoráveis ao agronegócio, Lula escolheu como ministro da Agricultura Carlos Fávaro (PSD).

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O senador mato-grossense logo se tornou um nome sem interlocução com o Congresso. Durante os mais de três anos de mandato, inviabilizou qualquer tipo de trégua do setor com o governo, de acordo com parlamentares e líderes ouvidos pelo Money Times.

Em abril de 2023, com o clima turbulento após a posse de Lula e a tentativa de golpe por parte de bolsonaristas, Fávaro foi desconvidado a participar da abertura da Agrishow, principal feira de agronegócios da América Latina, em Ribeirão Preto (SP). Em seguida, rompeu com o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado federal Pedro Lupion (PP-PR).

Principal porta-voz de uma bancada com 344 parlamentares — 294 deputados e 50 senadores –, Lupion sequer citou o nome de Fávaro na entrevista concedida ao Money Times. Para ele, o único elo entre a FPA e o governo é o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB).

“Alckmin é a única voz com que temos interlocução com governo, foi governador do Estado de São Paulo e entende o nosso setor produtivo. Infelizmente, é vice do governo errado”, resumiu Lupion.

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Para o presidente da FPA, com a bancada “majoritariamente contrária ao PT” e sem o govenador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), no páreo, a aproximação dos ruralistas com Flávio Bolsonaro (PL), pelo favoritismo, é natural.

“No Paraná, meu estado, há a aproximação do meu partido [PP] com Ratinho Junior. Se ele for candidato a presidente pelo PSD, é uma questão a ser considerada. Mas, no segundo turno, estaremos com qualquer candidato contrário ao PT”, afirmou.

Decano

Considerado o “decano da FPA”, no quinto e último mandato como deputado federal, Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) avalia que o nome Tarcísio teria “a unanimidade” do agronegócio e entre os parlamentares. Mas, com o governador paulista praticamente fora da disputa pela Presidência, Ratinho Junior seria um bom nome, e Flávio Bolsonaro o escolhido pelo setor como candidato ao Planalto caso a polarização entre o senador e Lula se mantenha.

Secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo entre 2015 e 2018, durante o governo de Geraldo Alckmin, então no PSDB, Jardim elogia a atuação do político. Ele cita como exemplo o decreto publicado no começo deste mês que regulamenta o procedimento de investigação e aplicação de salvaguardas no acordo Mercosul-União Europeia.

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Mas Jardim engrossa o coro de críticas ao ministro da Agricultura. “O Alckmin fez alguns sinais de conexão com o setor, conversou com a bancada e atuou bem em questões externas. O Fávaro sistematicamente jogou contra. Não defendeu políticas de financiamento, seguro rural e a pesquisa”, afirmou Jardim.

Outros parlamentares da bancada ruralista chegaram a elogiar até mesmo o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira. Deputado do PT, das alas mais à esquerda do partido, Teixeira foi apontado como um ministro mais próximo aos ruralistas do que o atual ministro da Agricultura.

“O Paulo Teixeira teve um diálogo muito melhor conosco do que o Fávaro”, resumiu um deputado.

Fávaro foi procurado seguidas vezes pela reportagem, por meio de sua assessoria de imprensa, desde a semana passada, mas não respondeu ao pedido de entrevista. Ele deve deixar o cargo e voltar ao Senado para tentar a reeleição por Mato Grosso.

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Futuro ministro

Nome provável para assumir o Ministério da Agricultura num potencial governo Lula 4 é o de André de Paula, atual ministro da Pesca e Aquicultura. Deputado federal por seis mandatos, o experiente parlamentar pernambucano é o oposto de Fávaro entre os ruralistas.

“É uma boa pessoa, foi deputado do PFL, colega do meu pai [o ex-deputado federal Abelardo Lupion]. Qualquer um que tem interesse claro em defender o setor agropecuário é importante”, afirmou Pedro Lupion, da FPA.

“André de Paula tem muito mais diálogo do que Fávaro”, completou Jardim.

Até mesmo auxiliares do atual ministro elogiam o possível substituto. “O André é uma grande alternativa, um grande nome”, relatou Guilherme Campos Júnior, secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e ex-deputado federal.

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Assim como Fávaro, Campos deve se desincompatibilizar do cargo até abril para se candidatar nas próximas eleições, possivelmente a deputado estadual em São Paulo.

Tarde demais

No setor privado, a percepção é de que o governo Lula, mesmo tardiamente, buscou aproximação com o agronegócio, principalmente com o exportador. Essa reconexão passa, na avaliação de empresários e executivos, com a chegada do publicitário Sidônio Palmeira ao cargo de ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, em janeiro de 2025.

O ponto alto dessa reaproximação foi a participação de representantes do setor na comitiva de Lula durante visita à Índia e à Coreia do Sul, em fevereiro.

“A comunicação feita após a viagem foi excelente. Colocaram o agro no lugar certo, do ponto de vista de narrativa, e o presidente defendeu o setor abertamente, retomando o papel de ‘caixeiro viajante’ do primeiro mandato”, afirmou um executivo de uma associação que integrou a comitiva.

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Mas, segundo esse representante, é tarde demais para Lula conquistar o apoio dos ruralistas em busca de um quarto mandato. “O candidato dos sonhos é o Tarcísio. Mas, mesmo sem o governador paulista, não há dúvida que o setor vai embarcar em qualquer candidatura da oposição”, afirmou.

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Jornalista formado pela PUC-Campinas, com pós-graduação em Agronegócios pela Faap. Com mais de 30 anos de profissão, atuou como repórter e editor na Folha de S.Paulo e na Broadcast/Estadão, entre outros veículos. Atualmente é editor-assistente de Política e Conjuntura no Money Times.
Jornalista formado pela PUC-Campinas, com pós-graduação em Agronegócios pela Faap. Com mais de 30 anos de profissão, atuou como repórter e editor na Folha de S.Paulo e na Broadcast/Estadão, entre outros veículos. Atualmente é editor-assistente de Política e Conjuntura no Money Times.
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