Taxas de juros saltam na sessão e corte de 0,5 pp da Selic em março é colocado em xeque
Os juros futuros negociados na B3 registraram mais uma sessão de firme alta nesta sexta-feira, 6, em movimento destoante dos demais ativos domésticos de risco. Segundo agentes, a abertura forte mesmo com a acentuação da queda do dólar na segunda etapa do pregão pode refletir ajustes técnicos, com investidores zerando posições aplicadas frente ao estresse observado nos últimos dias.
Na ponta curta, o acirramento do conflito no Oriente Médio e consequente disparada nos preços do petróleo, cujo barril tipo Brent para maio atingiu US$ 92,63, tem levado profissionais do mercado a rever estimativas para a inflação e reavaliar a perspectiva de curto prazo para a política monetária.
Antes tido como quase certo, um corte de 0,5 ponto porcentual da Selic em março agora é chance minoritária na precificação da curva a termo. E já há quem considere a possibilidade de que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central mantenha o juro inalterado na próxima reunião.
Os trechos intermediários e longos, por sua vez, chegaram a abrir cerca de 30 pontos-base no início da sessão com a aversão ao risco, devido à intensificação da guerra. E, mesmo reduzindo o ritmo ao longo da tarde, voltaram a avançar mais de 20 pontos nas horas finais do pregão, em um movimento que, para participantes do mercado, refletiu ajustes de posição.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 aumentou de 13,505% no ajuste de quinta para 13,67%. O DI para janeiro de 2029 marcou 13,3%, vindo de 13,079% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 avançou de 13,469% no ajuste anterior a 13,715%.
Avanço semanal
No cômputo semanal, a curva acentuou a inclinação e teve expressivo deslocamento para cima, com a guerra e seus efeitos sobre a oferta mundial de petróleo elevando os prêmios de risco.
Em relação ao fechamento da última sexta-feira, o contrato de DI para janeiro de 2027 subiu 39 pontos-base, enquanto a taxa para janeiro de 2029 saltou 65 pontos-base e a de janeiro de 2031 disparou 68 pontos-base.
Apesar dos avanços militares reportados pelos EUA, Israel e aliados, a normalização do fluxo de petróleo, que é agora o ponto central para o desempenho dos ativos, ainda não ocorreu, observa Marcelo Fonseca, economista do Grupo CVPAR.
Ele menciona que o escoamento no Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do óleo produzido no mundo, não foi retomado, enquanto ataques iranianos a refinarias de outros países na região também comprometem a oferta da commodity.
Tendo como pano de fundo as tensões geopolíticas, Fonseca avalia que a deterioração mais expressiva dos DIs na sessão desta sexta se comparada à Bolsa e ao dólar também pode ter como indutor uma redução generalizada de posições.
“O DI tem volatilidade muito grande quando eventos assim acontecem. A liquidez desaparece e o mercado fica unidirecional. Dificilmente vai surgir muita gente querendo tomar a ponta contrária neste momento”, disse.
Dinâmica pior
Um economista de uma grande tesouraria afirmou à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, que, mesmo ajustando as movimentações de acordo com a volatilidade de cada ativo, os juros futuros mostraram dinâmica pior nesta sexta.
“Parece mais técnico, com pessoal ‘stopando’ mais o DI”, comentou, referindo-se a investidores que estavam posicionados para uma queda das taxas, mas decidiram zerar posições quando os juros começaram a subir para não ter mais prejuízos, em uma estratégia que fortalece ainda mais a abertura dos vértices.
Para ele, assim como para Fonseca, um corte de 0,5 ponto porcentual da Selic em março parece mais difícil após o aumento das incertezas no ambiente externo. “Se continuar assim, é um corte de 25 pontos, ou zero”, avaliou o economista da tesouraria.
Segundo cálculos do economista-chefe do banco BMG, Flávio Serrano, a curva precificava nesta tarde cerca de 65% de probabilidade de corte de 0,25 ponto do juro básico este mês, ante 50% na quinta. A taxa apontada para o final de 2026 subiu a 12,95%. “Sigo prevendo corte de 50 pontos-base em março. Mas pode ser 25 pontos a depender dos próximos dias”, pondera Serrano.