Vale (VALE3): Preços do minério de ferro devem limitar desempenho das ações neste ano
O minério de ferro em 2026 tende a ficar em um patamar de preço estável ou decrescente frente aos níveis recordes de anos anteriores, mas com a Vale (VALE3) ainda sustentando volumes elevados de exportação, segundo analistas do mercado financeiro.
O principal freio para o desempenho da ação da companhia não está na demanda física, mas nos preços da commodity, que já estariam refletidos no valuation da mineradora.
Analistas falam no minério de ferro mais como uma tese defensiva, focada em geração de caixa, dividendos e eficiência operacional. Ainda existe potencial de retorno, mas ele tende a vir mais da disciplina de capital das empresas do que de uma forte alta da commodity.
Na avaliação do BB Investimentos, a China continua sendo um fator de sustentação do mercado de minério, apesar da produção de aço mais fraca. “As importações de minério de ferro pelo país têm se mantido elevadas. Além disso, outras regiões devem apresentar crescimento relevante da produção siderúrgica em 2026, como é o caso da Índia, África e Oriente Médio, o que pode favorecer a demanda de minério”.
Com isso, o BB vê um ambiente construtivo para os embarques brasileiros. “As exportações brasileiras da commodity devem ser favorecidas, refletindo também a evolução operacional dos principais produtores, como a Vale, o que traz suporte para embarques ainda elevados no próximo ano”, disse o banco em relatório recente.
Além disso, o BB projeta que “é esperada uma recuperação nos EUA e Europa após o ciclo de queda das taxas de juros”.
Também está no radar do mercado o Simandou, projeto da Rio Tinto na Guiné que deverá remodelar os suprimentos e preços globais, embora analistas citem um impacto ainda marginal. Espera-se que Simandou, que possui cerca de 4 bilhões de toneladas de minério com teor médio de 65% de ferro, forneça 120 milhões de toneladas por ano em sua capacidade total, com SimFer contribuindo com metade.
Preços não oferecem grande estímulo
A XP Investimentos avalia que o preço do minério não oferece grande estímulo adicional para a Vale. “Ainda vemos a perspectiva para os preços do minério de ferro pouco inspiradora para 2026, apesar do risco limitado abaixo de US$ 90/t devido ao suporte de custos”, dizem os analistas Lucas Laghie e Guilherme Nippes.
Segundo a corretora, o mercado já embute esse patamar nos papéis da Vale. “Acreditamos que o valuation já reflete preços próximos a US$ 100/t (em linha com os preços spot), reduzindo espaço para upside adicional”, escreveram.
Na visão do Safra, os preços devem chegar a US$ 94 por tonelada até o final de 2026. Em siderurgia, os analistas destacam as margens negativas na China e veem pouco espaço para melhora.
“Esperamos queda na demanda por aço, decorrente do agravamento da atividade imobiliária e da redução das exportações chinesas, além de atrasos causados por exigências de licenciamento de exportação em 2026, o que deve pressionar ainda mais o equilíbrio entre oferta e demanda locais”, disse.
O BTG Pactual afirma que “a perspectiva para as commodities permanece mista e amplamente dependente de fatores macro e de dinâmicas cambiais, em vez de uma melhora generalizada dos fundamentos”. Além disso, o banco destaca que a visibilidade da demanda segue limitada, particularmente na China, onde o crescimento vem se tornando menos intensivo em commodities.
Como consequência, o banco disse ver “pouco espaço para uma alta generalizada”. Ainda assim, a Vale permanece entre as preferidas do BTG: seguimos favorecendo Vale e Aura entre as empresas sob nossa cobertura”.
Por que ainda VALE3
Para o economista e especialista em investimentos Lucas Girão, a Vale segue sendo o ativo com melhor visibilidade e menor risco operacional, especialmente pelo custo de produção mais baixo e pela forte geração de caixa, o que sustenta dividendos mesmo em cenários menos favoráveis.
Mineradoras menores até podem oferecer oportunidades assimétricas, mas “com risco significativamente maior”, disse.
Já as siderúrgicas, segundo ele, “carregam riscos adicionais ligados à demanda doméstica, ciclos de aço e margens mais voláteis”.
O cenário, no entanto, pode mudar de forma relevante diante de alguns gatilhos. Pelo lado positivo, Girão aponta que “uma retomada mais forte da economia chinesa, estímulos fiscais relevantes ou restrições de oferta seja por questões ambientais ou operacionais poderiam impulsionar os preços do minério”.
No campo dos riscos, ele alerta que “um agravamento da crise imobiliária chinesa, uma desaceleração global mais intensa ou aumento relevante da oferta por grandes produtores podem pressionar a commodity”. Além disso, “fatores geopolíticos e mudanças regulatórias ambientais seguem como riscos importantes no radar do investidor”.