A história se repete? Por que o mercado não se abala mais por pesquisas eleitorais
Primeiro: o mercado já trabalha com uma disputa definida entre as duas correntes opostas da política brasileira nas eleições presidenciais deste ano. O lulismo versus bolsonarismo de 2022 persiste em 2026.
Segundo: as próprias pesquisas eleitorais não têm ajudado. Desde que Flávio Bolsonaro (PL) foi ungido pelo pai, Jair Bolsonaro, como seu sucessor e candidato à presidência, o senador e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dividem a liderança nos principais levantamentos, com folga sobre os adversários.
O resultado: a polarização já está precificada pelo mercado financeiro, com a liderança de Lula mantida, enquanto Flávio Bolsonaro fica na cola do presidente e o Ibovespa (IBOV), principal índice da bolsa brasileira, não esboça reação aos dados divulgados por institutos de pesquisa, como mostra o agregador do Money Times.
Se não fossem dois movimentos factuais que pressionaram o indicador e ficaram conhecidos como “Flávio Day 1 e 2”, o impacto da política e das eleições nas ações e na B3 seria quase nulo.
O primeiro, em dezembro de 2025, foi a própria escolha de Flávio Bolsonaro e o escanteamento do governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato preferido do mercado. O segundo, em 13 de maio deste ano, foi a divulgação, do envolvimento do senador com Daniel Vorcaro, do Banco Master, para o financiamento de “Dark Horse“, filme sobre Jair Bolsonaro.
“Acho que, de alguma maneira, o cenário eleitoral está interiorizado. As movimentações eram mais intensas quando havia muita incerteza, seja em relação ao candidato, seja em relação ao resultado”, disse Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria.
Cortez lembra que o mercado até reagia positivamente quando as pesquisas ainda incluíam Tarcísio como o nome bolsonarista em cenários contra Lula. Mas a confirmação de Flávio Bolsonaro, seguida de episódios que avolumaram a agenda negativa do pré-candidato do PL, reforçaram o cenário de continuidade e de um quarto mandato para Lula.
“A ideia é de que a oposição vai ganhar vai perdendo um pouco de força e o mercado vai incorporando o cenário de continuidade”, disse Cortez. Para ele, uma reversão desse cenário, com o crescimento e uma liderança de Flávio Bolsonaro, poderia movimentar o mercado de ações. “Em alguma medida, o mercado tomaria um susto e se movimentaria ao perceber uma eleição mais competitiva do que se sugere”.
O que dita o humor do mercado
Com o marasmo eleitoral, o driver do mercado, na avaliação de Cortez, tem sido a instabilidade geopolítica e as crises causadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “O ambiente internacional tem chamado mais a atenção do que qualquer pesquisa eleitoral. Então, tem muito a ver também com o mundo mais agitado do que a gente esperava”.
A análise é corroborada pelo analista de ações da Empiricus Research Ruy Hungria que avalia que nenhuma das últimas pesquisas altera radicalmente o favoritismo de Lula, tanto no primeiro como no segundo turno.
Na última semana, o Ibovespa registrou o maior ganho desde 23 de março na sexta-feira (10), com avanço de 2,97%, após a inflação de junho surpreender para baixo, com alta de 0,16%, além de apresentar uma composição mais benigna.
Diante disso, bancos como o Bank of America (BofA) e o BTG Pactual calibraram as apostas de mais um corte na taxa Selic.
Já a pesquisa BTG Pactual/Nexus desta segunda-feira (13) pouco refletiu no mercado doméstico, com as atenções dos investidores voltadas ao Estreito de Ormuz.
No novo levantamento, Lula e Flávio repetiram as variações do levantamento de 29 de junho, com o petista liderando com 47%, enquanto o senador aparece com 44%.
Apesar da falta de novidades nas pesquisas, o analista considera que a ampliação de gastos por motivos eleitoreiros é um risco que deve continuar no radar dos investidores, bem como a falta de enderaçamento das questões fiscais, o que, segundo Hungria, aumenta em caso de vitória de Lula.
“Mas existem riscos positivos também, especialmente caso tenhamos a ascensão de um candidato mais comprometido com o corte de gastos, o que poderia provocar uma reprecificação mais forte dos ativos brasileiros”, diz.
Flávio Day 2.0 impactou menos o mercado?
Segundo estudo elaborado pela Warren Investimentos, apesar da relevância do Flávio Day 2.0 – quando veio à tona a troca de mensagens de Flávio Bolsonaro com Vorcaro –, a magnitude do evento foi inferior à de outros choques observados nos últimos anos.
A Warren considera que o anúncio da candidatura do senador, em dezembro, substituindo Tarcísio de Freitas, provocou reação mais intensa, em especial sobre a curva de juros.
“Embora tenha havido impacto positivo nos ativos à medida que seu desempenho nas pesquisas eleitorais melhorou desde então, a magnitude limitada da reação do mercado após as informações reveladas pelo portal Intercept Brasil surpreende”, afirma o time liderado por Luis Felipe Vital no relatório.
A corretora segue a linha de que o movimento foi relevante, introduziu uma incerteza importante no xadrez político, mas os mercados se beneficiaram de um cenário externo capaz de atenuar o impacto.
Para Hungria, da Empiricus, os episódios como o Flavio Day e o Flávio Day 2.0 tiveram impactos diferentes no mercado devido às causas de cada evento.
No primeiro, o mercado foi surpreendido negativamente porque a candidatura de Flávio reduzia drasticamente as chances de Tarísio de Freitas concorrer, que na visão do mercado era o candidato mais forte para superar Lula nas urnas, explica. “Já o Flávio Day 2.0 teve um impacto menor, porque apesar de ter perido força, Flávio já não era tido pelo mercado como o favorito para vencer as eleições.”
| Evento | Data | USD/BRL | IBOV | % Taxas Pré-fixadas 2 anos | % Taxas Pré-fixadas 10 anos | % Cupom Cambial 2 anos | % Cupom Cambial 10 anos |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Eleição Trump 1 | 9/nov/16 | 1,8% | -1,4% | 0,13 | 0,29 | 0,09 | 0,07 |
| Joesley Day | 18/mai/17 | 7,4% | -8,8% | 1,60 | 1,80 | 0,19 | 0,08 |
| Greve dos caminhoneiros | 18/mai/18 | 1,1% | -0,6% | 0,18 | 0,42 | 0,02 | 0,04 |
| Covid + Derrubada veto BPC | 11/mar/20 | 3,7% | -7,6% | 0,51 | 0,69 | 0,04 | 0,02 |
| Invasão da Ucrânia | 24/fev/22 | 2,2% | -0,4% | 0,11 | 0,12 | 0,01 | 0,05 |
| Anúncio Pacote Haddad | 27/nov/24 | 2,1% | -1,7% | 0,34 | 0,40 | 0,03 | 0,07 |
| Flávio Day 1 | 5/dez/25 | 2,6% | -4,3% | 0,52 | 0,56 | 0,07 | 0,04 |
| Início Conflito Irã | 28/fev/26 | 1,0% | 0,3% | 0,07 | 0,07 | 0,05 | 0,07 |
| Flávio Day 2 | 13/mai/26 | 2,3% | -1,8% | 0,27 | 0,28 | 0,02 | – |
Fonte: Warren/Bloomberg