O problema do colecionador: quanto custa de verdade para completar o álbum da Copa 2026 — e dá para lucrar com figurinhas?
Com a Copa do Mundo de 2026 já em andamento, uma tradição volta a ganhar espaço muito antes de a bola rolar: o álbum de figurinhas. A febre do álbum da Copa passa de geração em geração. Crianças, pais, amigos, colegas de trabalho e até vizinhos entram no jogo de abrir pacotes, organizar repetidas e procurar aquela figurinha que, por algum motivo, parece nunca aparecer.
Em 2026, a brincadeira vem maior do que nunca. Pela primeira vez, a Copa do Mundo será disputada por 48 seleções e o álbum oficial da Panini acompanha essa expansão: são 980 figurinhas, um aumento de mais de 50% em comparação com as 670 figurinhas do Catar em 2022.
Mas o que parece uma coleção simples pode virar uma conta bem mais salgada do que o torcedor imagina. Afinal, quanto pode ficar a brincadeira?
Quanto custa completar o álbum da Copa do Mundo 2026?
À primeira vista, a conta parece acessível. O álbum da Copa pode ser adquirido por R$ 24,90 na versão brochura, enquanto versões capa dura e boxes especiais podem chegar a até R$ 359,90 em kits premium. Já os envelopes com 7 figurinhas custam R$ 7, ou R$ 1 por figurinha.
Na teoria, completar o álbum exigiria 980 figurinhas. Ou seja, o custo mínimo seria de R$ 980 em cromos, mais o valor do álbum. Só que essa é a conta do mundo perfeito — aquele em que nenhuma figurinha vem repetida. E quem já montou álbum sabe: esse mundo não existe.
O problema da equação é a distribuição aleatória nas bancas e envelopes, adicionada ao fator sorte de cada colecionador.
O problema do colecionador de cupons
A matemática por trás disso é conhecida como “problema do colecionador de cupons”, conceito de probabilidade associado ao matemático francês Abraham de Moivre, e que ajuda a explicar por que completar coleções aleatórias pode sair tão caro.
Para um álbum com 980 figurinhas, uma pessoa tentando completar tudo sozinha, apenas comprando envelopes e sem trocar repetidas, precisaria de cerca de 7.315 figurinhas. Isso equivale a 1.046 pacotes e a uma conta que pode chegar aos R$ 7.322. Em cenários de azar extremo, a brincadeira pode ficar ainda mais cara.
Além disso, quanto mais perto o colecionador estiver de completar o álbum da Copa, mais difícil ficará encontrar os últimos jogadores.
O modelo mostra que preencher os últimos 5% do álbum consome o mesmo valor financeiro que preencher os primeiros 95%. Isso ocorre devido à explosão estatística de figurinhas repetidas.
A boa notícia é que ninguém precisa enfrentar a matemática sozinho e há estratégias viáveis para minimizar — e muito — o custo final.
Trocar figurinhas pode derrubar em até 80% o custo do álbum da Copa
A grande jogada para driblar as repetidas é a troca. Quando amigos, familiares, colegas de escola ou de trabalho montam juntos, as repetidas de uma pessoa viram solução para outra, e o desperdício diminui.
Se dez colecionadores comprarem juntos e trocarem suas repetidas entre si, o custo médio por pessoa cai drasticamente. Em vez de R$ 7.322, cada um pode desembolsar, em média, cerca de R$ 1.600, uma redução de aproximadamente 80%.
E quanto maior a rede de troca, melhor a conta tende a ficar. Por isso, grandes cidades costumam formar pontos espontâneos de encontro entre colecionadores.
- Em São Paulo, lugares como o vão do Masp e a região do Pacaembu tradicionalmente atraem colecionadores do álbum da Copa.
- No Rio de Janeiro, os encontros costumam se concentrar na Praça XV e arredores do Maracanã.
- Em Curitiba, a Praça da Ucrânia é um dos pontos frequentados por colecionadores há décadas.
Além disso, shoppings, bancas e livrarias também ajudam a transformar a busca em rede em eventos para os colecionadores.
E, para quem não quer depender apenas da sorte, a própria Panini oferece o serviço de compra de cromos faltantes, que permite pedir figurinhas específicas para completar a coleção.
Dá para lucrar com álbum de figurinhas?
Para muita gente, o álbum da Copa é nostalgia, tradição e diversão em família. Mas há quem olhe para os cromos com outro interesse: o mercado de colecionáveis.
Figurinhas raras, especiais ou de grandes craques — como Messi, Cristiano Ronaldo e Mbappé — podem ganhar valor no mercado secundário, especialmente durante o auge da competição.
Na Copa de 2022, cromos especiais de Neymar chegaram a aparecer com ofertas de até R$ 9 mil no auge do torneio. Mas esse tipo de valorização costuma ser instável e despencar quando o torneio acaba.
Já no longo prazo, o jogo é outro. Álbuns antigos, completos e bem conservados podem se tornar itens de colecionador.
Edições passadas aparecem em plataformas por valores altos, como álbuns da Copa de 1970, com destaque para o cromo do Pelé, são ofertados por cerca de R$ 9 mil. Já edições nacionais raras, como a Vecchi da Copa de 1966, chegaram a registrar arremates de R$ 36 mil em leilões virtuais.
Mas, para efetivar uma venda futura, o mercado de colecionáveis depende de raridade, demanda e disposição real de compra. Por isso, como investimento, o lucro não é garantido.
Ainda assim, há um tipo de retorno que a matemática não calcula tão bem.
O álbum cria conversa, encontro e memória. Faz irmãos negociarem repetidas na mesa da sala, amigos combinarem trocas no trabalho e desconhecidos puxarem assunto em uma praça por causa de um jogador que falta.
No fim, talvez a figurinha mais valiosa não seja a mais rara, mas sim a lembrança de quem montou o álbum junto.