Fictor imitou REAG e transferiu administração de FIDCs para a QORE antes de RJ
Pouco antes de protocolar o pedido de recuperação judicial (RJ), e quando já enfrentava problemas com resgates, o grupo Fictor promoveu a transferência para a QORE da administração, controladoria, escrituração e custódia de três de seus Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs): Fictor Consignado, Fictor Consignado II e Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Fictor.
As mudanças foram feitas no dia 23 de janeiro. A RJ foi protocolada no dia dois de fevereiro.
Além disso, já sofrendo com resgates, a Fictor criou um novo FIDC: o Fictor Consignado III, que já nasceu, no dia 20, sob custódia da nova distribuidora.
O modus operandi da companhia se assemelha ao que fez a REAG, pouco antes da Carbono Oculto. Reportagem do Valor Econômico de janeiro mostrou que a Qore assumiu, entre junho e agosto do ano passado, a administração de um conjunto de fundos que anteriormente estavam sob gestão da empresa de João Carlos Mansur, hoje liquidada e investigada por elos com o PCC e com o Banco Master.
A troca desses prestadores significa substituir quem responde formalmente pelos fundos perante a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), quem valida o lastro das carteiras, quem calcula o valor das cotas e quem mantém o registro dos investidores. Trata-se, portanto, de uma alteração estrutural na governança e no fluxo de informações sensíveis das estruturas.
Em operações de direitos creditórios, o administrador fiduciário e o custodiante exercem papel central na verificação da existência, formalização e regularidade dos créditos. São eles que acompanham cessões, documentação e provisionamento.
Segundo uma fonte com conhecimento do asusnto, substituições simultâneas dessas funções — especialmente em bloco —, são incomuns em estruturas estáveis.
A ligação da Fictor com o Banco Master
No caso da REAG, parte dos fundos investia em empresas relacionadas a operações de crédito que passaram a ser investigadas no caso Banco Master.
Ao Money Times, a Fictor também já afirmou que adquiriu, em outubro do ano passado, parte de um fundo de direitos creditórios (FIDC) chamado Krispy, administrado em nome da Master Holding. A aquisição, segundo a companhia, explica a dívida de R$ 430 milhões com a Sefer, que aparece em sua RJ.
A Master Holding é a holding offshore do CEO do banco, Daniel Vorcaro, que reúne seus investimentos nas Ilhas Cayman, conhecido paraíso fiscal.
Um mês depois da aquisição da fatia no fundo, no dia 17 de novembro, a Fictor tentou comprar o Banco Master inteiro por R$ 3 bilhões. Na manhã seguinte à oferta, houve a liquidação do Master pelo Banco Central e a prisão de Vorcaro.
Reportagem do Valor Econômico mostrou ainda que a Qore, que assumiu fundos anteriormente administrados pela REAG, tem como controlador Marcos Jorge, empresário que ganhou destaque no mercado estruturando operações de crédito imobiliário,
Ainda segundo o jornal, Jorge construiu uma rede de securitizadoras e gestoras voltadas ao segmento, com foco em empreendimentos de multipropriedade. O modelo, no entanto, passou a ser alvo de questionamentos por potenciais conflitos de interesse, já que empresas do grupo atuavam em diferentes pontas das operações estruturadas, e enfrentou uma crise.
Após uma crise, em meados de 2023, passaram a existir conexões indiretas entre pessoas do círculo de Jorge e empresas que teriam tomado crédito considerado suspeito no caso Banco Master, embora não haja comprovação de controle societário direto.
Procurado, Fictor e QORE não responderam até a publicação desta matéria.