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Armínio: problema político impede solução para economia; impostos vão subir e teto de gastos é insustentável

28/06/2017 - 20:54

Armínio Fraga

Por Ângelo Pavini, da Arena do Pavini

O problema econômico do Brasil é enorme, com a questão fiscal em uma trajetória insustentável, mesmo com a aprovação do que sobrou das reformas, mas sua solução depende da solução do problema político antes. A avaliação é do ex-presidente do Banco Central (BC) Armínio Fraga, sócio da Gávea Investimentos, durante evento promovido pela corretora XP Investimentos. Para ele, o teto de gastos aprovado pelo governo é “totalmente insustentável” e o aumento de impostos é inevitável para o governo conseguir cumprir as metas fiscais. “Os impostos vão subir, não tem jeito, e muitos deveriam subir mesmo”, afirmou, durante debate com os economistas Marcos Lisboa e Zeina Latif mediado pelo jornalista William Waack.

Para Armínio, apesar do tamanho do problema econômico, “infelizmente, o nosso problema político é muito maior”. Segundo ele, o país vivia um momento estranho pois, apesar de não haver respeito ou credibilidade nos políticos ou nos partidos, o sistema político funcionava. “As instituições estavam funcionando, algo até que chamava a nossa atenção e de quem olhava de fora”, afirmou.  “De repente, além desse zigue-zague econômico que vivemos, veio um zigue-zague na qualidade do funcionamento das instituições extremamente preocupante.”

Como o problema maior é o politico, de natureza cultural, ele deveria ser resolvido antes para destravar a economia, acredita Armínio. Mas isso não está acontecendo. ”Numa recessão profunda como a atual, deveria haver mecanismos de retomada, mas eles estão travados”, avaliou. “É isso que vem acontecendo com a decisão do TSE, por exemplo, que prejudicou muito essa trajetória” disse, numa referência à decisão do Tribunal Superior de Eleitoral de não cassar a chama Dilma-Temer em julgamento sobre uso de recursos ilícitos na campanha de 2014, apesar de todas as provas.

“Não é questão de ser melhor o Temer cair, mas decisões do Judiciário não podem ser pautadas por uma visão a meu ver equivocada sobre o que está acontecendo no país e na economia”, afirma. O ministro Gilmar Mendes, presidente do TSE, decidiu o impasse na votação indo contra a cassação da chapa, alegando que a saída do presidente traria consequências muito sérias para o país.

Teto insustentável

O ex-presidente do BC acredita também que algumas coisas que estão sendo feitas na economia não se sustentam, e citou o teto dos gastos públicos nos próximos 10 anos aprovado pelo governo. “Ele  é totalmente insustentável sem muitas reformas, sem uma mudança talvez inviável nos proximos dez anos”, disse.

Armínio lembrou que o mercado ainda via Temer com desconfiança, apesar das medidas econômicas acertadas. Segundo ele, a ex-presidente Dilma Rousseff estava acelerando na direção errada, dobrando apostas péssimas. “Veio o vice e puxou a cordinha do ônibus, fez ele parar e trouxe propostas surpreendentes que caminham em outra direção”, afirmou. “Mas Temer vice da Dilma, era acionista co-controlador do Brasil S/A, e ficava a tensão: será que vai dar, mas aí as coisas começam a piorar”.

Bom no longo prazo, incerto no curto

Para ele,  Temer é o Brasil velho, “com seus representantes que nós elegemos, e que estão  tentando se safar com uma agenda complicada”. Esse, disse, é um dos problemas, pois “temos hoje um governo que apresentou boas propostas, aprovou algumas, mas que trazem benefícios daqui a 5, 10, 15 anos, enquanto não conseguimos enxergar 18 meses, um grau de incerteza imenso”, explicou.

Eleições de 2018

Sobre a eleição presidencial de 2018, Armínio lembrou que os partidos políticos estão todos enrolados. “Temos de torcer para alguma coisa boa acontecer, mesmo sem saber o quê”, afirmou. “Os estrangeiros estão mais animados do que  nós parecem que acham que estamos condenados a dar certo, tomara que estejam certos, não há nenhuma garantia” acrescentou.

Sobre o efeito do cenário econômico sobre as eleições, Armínio acredita que as coisas não são tão simples. “ Um cenário bom, não sei a quem beneficiaria, se ele não elegeria alguém do Brasil velho , tenho minhas dúvidas”, afirmou. “E tem outro cenário, mais estranho, de as coisas esquentarem,  o pessoal ficar com medo e isso pode dar espaço para uma liderança com uma visão, um sonho de um Brasil mais bacana, decente, eficiente, que poderia se eleger.”

Nesse ponto, falta tempo para o Brasil se modernizar politicamente, avaliou Armínio. “Vejo muitos  jovens se modernizando, há um entendimento de que tem muito o que fazer e, se as condições forem tais para permitir isso, a  economia brasileira poderia crescer muito,  5% ao ano, não seria absurdo”, afirmou.

Troca à la Macron difícil no Brasil

Segundo ele, a mobilização que vem da base  da sociedade é que dá mais esperança. “Mas vejo em dimensão pré-politica ainda, são movimentos pequenos, e a troca de guarda pode não acontecer tão cedo”, disse. Mesmo que se eleja um bom presidente em 2018, observou, o Brasil velho vai estar presente,  e trabalhar as reformas vai ser demorado. “Uma troca à la Macron, na França, parece pouco provável ainda, existem bolsões de eleitorado que ainda provavelmente não entendem 100% do que está acontecendo e são vulneráveis a uma música populista ainda”, afirmou.

Dívida de 100% do PIB, sendo otimista

Para ele, o receio é que esse ajuste político  e econômico demore um pouco mais,  e como nossa dívida pública cresce num ritmo muito acelerado, o Brasil, com uma dívida de 100%, 110%  do PIB, que está nas contas hoje, isso contando com as reformas – sem elas será pior, alerta o ex-BC – a situação “apertará um pouco o calo”.

Apesar do cenário, Armínio se disse “uma pessoa muito positiva”, e lembrou que foi  três vezes para o governo, duas no BC e uma quando assessorou o candidato tucano derrotado Aécio Neves. “Não é falta de esperança, ela existe, mas a mobilização tem de ser maior, bem maior que a que estamos vendo.”

Impostos terão de subir

Ele destacou ainda que o país terá de elevar impostos, mesmo que não se queira. “Tem uma pequena diferença de interpretação sobre o que a sociedade está gritando, que é que não dá para aumentar imposto”, afirmou. “Os impostos vão subir, não tem jeito, e tem muitos impostos que deveriam subir, através da redução de subsídios para quem não precisa ou via  reforma de legislação, coisas do gênero”, disse.

Armínio acredita que o governo virá com uma reforma tributária boa, talvez com um pouco de erro na calibragem na tributação para mais, “até porque o buraco fiscal é muito grande,  a coisa foi longe demais”.

Sacrifícios planejados menores que os desorganizados

Nesse ponto o ex-BC diz que não sabe se isso será suficiente para detonar um processo mais ambicioso de reforma tributária. E alerta que é melhor arrumar a casa de uma vez a ficar adiando o problema. “O que a gente não percebe é que sem esses sacrifícios organizados, os sacrifícios desorganizados serão muito maiores”, afirmou. “Infelizmente, temos uma visão curtoprazista e iludida por um cardápio de alternativas que não existe mais.”

Apesar de concordar da estratégia de o governo tentar continuar com pequenos avanços nos ajustes, Armínio acredita que algumas coisas mais amplas terão de ser feitas. “O quadro é de tal gravidade que em algumas frentes vai ser preciso fazer os ajustes mais sérios de uma vez, dar alguns passos para mudar as expectativas”. A vantagem, disse, é que o caminho a ser seguido já é conhecido. A agenda de hoje é praticamente a mesma do início da década de 1990, não mudou muito, avalia. “Os problemas foram crescendo, fomos aprendendo, ficando mais óbvio, mas já havia um desenho, uma parte era o chamado Consenso de Washington, que onde foi feito deu certo”, disse.

Para ele, porém, o quadro que o país tem hoje não vai permitir resolver esses problemas. Por isso, a chegada de um presidente novo vai ser um evento importante. “O paciente está na UTI vai ter de colocar no mínimo colocar um stent ou fazer uns transplantes não vejo hoje como evitar isso”.

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Última atualização por - 05/11/2017 - 14:00

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