Economia

BC “jogou a toalha” da meta de inflação em 2027? Meirelles alerta para risco de credibilidade

25 jun 2026, 7:00 - atualizado em 24 jun 2026, 15:36
Henrique Meirelles
Henrique Meirelles, ex-presidente do BC (Imagem: Divulgação/Henrique Meirelles)

O Banco Central flexibilizou o horizonte relevante de convergência da inflação e abriu espaço para dúvidas sobre a condução da política monetária após uma comunicação considerada confusa. Para o ex-presidente do BC Henrique Meirelles, esse ruído não é apenas semântico e pode afetar diretamente a credibilidade da autoridade monetária.

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Em entrevista ao Money Times, Meirelles afirma que o comunicado e a ata da última reunião do Copom foram percebidos como pouco claros pelo mercado, especialmente no que diz respeito ao horizonte relevante para o cumprimento da meta de inflação.

Segundo ele, parte das interpretações sugere que o Banco Central estaria mirando a convergência apenas mais à frente, em 2028, o que abre espaço para a leitura de que a meta de 2027 perdeu centralidade no processo decisório mais cedo do que deveria.

“O ponto aqui é que a comunicação ficou confusa. Se o mercado entende que o horizonte da meta foi empurrado para frente, isso muda as expectativas”, afirmou.

Meirelles destaca que, em experiências anteriores à frente da autoridade monetária, a clareza na comunicação era parte essencial da política de juros, justamente por seu impacto direto nas expectativas de inflação.

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Para ele, quando há ambiguidade sobre o horizonte de convergência, o mercado tende a recalibrar suas projeções, o que pode dificultar o próprio trabalho do Banco Central.

“A preocupação é quando isso passa a ser interpretado como uma disposição a aceitar inflação acima da meta por mais tempo”, disse.

O ex-presidente do BC reconhece que parte das pressões inflacionárias atuais vem de choques externos, como energia e petróleo, com efeitos em cadeia sobre transporte e preços ao consumidor.

Ainda assim, ele alerta que a persistência desses choques não pode ser tratada como justificativa para uma acomodação prolongada da inflação acima da meta.

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“O aumento de custos se espalha pela economia e torna mais difícil o controle da inflação depois”, afirmou.

Credibilidade como variável central

Na avaliação de Meirelles, o principal risco associado a uma comunicação pouco clara não é imediato, mas estrutural: a perda de credibilidade da política monetária.

Ele ressalta que, uma vez que as expectativas de inflação se desancoram, o custo de trazer os preços de volta à meta aumenta significativamente.

“O custo maior é sempre a credibilidade. Se o mercado passa a duvidar da reação do Banco Central, isso se reflete nas expectativas futuras e na inflação”, disse.

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Ao comentar discussões internacionais sobre reduzir a comunicação entre bancos centrais e mercado, como o visto na última coletiva realizado pelo Kevin Warsh, presidente do banco central norte-americano, Meirelles foi categórico ao defender o oposto. Para ele, transparência e previsibilidade são elementos fundamentais da política monetária moderna.

“É importante ter um comunicado claro, uma ata clara, explicando as razões das decisões e o que se espera à frente”, afirmou.

Próximos passos ainda incertos

Sobre a trajetória da taxa Selic, Meirelles avalia que ainda há incerteza relevante no mercado quanto ao ritmo de possíveis cortes, em um cenário de inflação ainda acima da meta e maior sensibilidade a choques externos e variáveis fiscais.

Segundo ele, essa falta de clareza na sinalização contribui para a cautela dos agentes econômicos. “Não está totalmente claro qual será o próximo movimento. E isso naturalmente afeta as expectativas”, disse.

Meta de inflação não deve ser revista

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Meirelles também rejeita a possibilidade de revisão da meta de inflação para cima como resposta a um ambiente global mais inflacionário. Atualmente, a meta é de 3%, com tolerância de um ponto e meio para cima e para baixo.

Na visão dele, essa mudança não resolve o problema e pode até agravá-lo ao desancorar expectativas. “Se você revê a meta para cima, o mercado se ajusta e você só fica com mais inflação”, afirmou.

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Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Economia, Finanças e Banking pela USP Esalq. Atua desde 2023 na redação do Money Times e, atualmente, cobre Macroeconomia.
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