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Bradesco (BBDC4): ‘Cada vez que tiramos sangue, a seringa aumenta’; vice CEO abre o jogo sobre resultados e expectativas

19 mar 2026, 18:04 - atualizado em 19 mar 2026, 18:04

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Em novembro, completaram-se quatro anos desde que o Bradesco, um dos maiores e mais importantes bancos do Brasil, sofreu a pior queda diária em 24 anos. Ao todo, R$ 30 bilhões evaporaram, somando perda de 17%.

A sangria não parou por ali, no entanto. Foram mais alguns trimestres de deterioração dos números. No pior momento, no primeiro trimestre de 2024, o ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) chegou a 7,2%, algo impensável para o banco, que sempre operou acima dos 15%.

Com 80 anos de história, o Bradesco (BBDC4) já havia enfrentado vários momentos de incerteza, desde crises como em 2008 até a recessão econômica do período Dilma Rousseff, em 2016. Mas parecia que o tombo do pós-pandemia era diferente. O próprio modelo havia sido colocado em xeque.

Com a explosão das fintechs, especialmente o Nubank (NU), alguns analistas diziam que os bancões, burocráticos e com mais tarifas e custos, iriam, na melhor das hipóteses, diminuir de tamanho.

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Claro que o Bradesco também não tinha feito a lição de casa naquele momento. A pandemia desregulou a economia e fez a taxa básica de juros sair de 2% para 13% em menos de um ano. Enquanto isso, o banco se expôs e viu a inadimplência disparar e a qualidade de crédito despencar.

E, como pouca notícia ruim não bastasse, também sofreu com a fraude da Americanas (AMER3). O resultado: cifras tenebrosas.

Plano de transformação

Mas, em 2024, o banco reagiu. Trouxe um novo CEO, Marcelo Noronha, que deu oxigenada na administração. Um plano de transformação foi colocado em prática, prometendo colocá-lo na rota do crescimento em quatro anos — tornando-o mais eficiente e digital.

Passados dois anos dessa mudança, os frutos começaram a ser colhidos. Já em 2024 houve melhoras, mas tímidas. Em 2025, porém, deslanchou.

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“Calculo que a gente esteja pelo menos uns 15% à frente do que poderia estar”, diz Cassiano Scarpelli, diretor financeiro e vice-presidente do Bradesco, em entrevista ao Money Minds, programa do Money Times.

O lucro em 2025 somou R$ 24,6 bilhões, alta de 26% em relação a 2024, enquanto o banco foi premiado com um ROE de 15,2%, ou seja, acima do custo de capital.

“Nos incomodava muito estar abaixo do custo de capital”, conta, afirmando que a equação era difícil. Ao mesmo tempo que precisava se recuperar, não poderia dar um passo maior que a perna, sob o risco de tropeçar novamente.

Mais melhora

Tanto conservadorismo, no entanto, levantou dúvidas entre analistas. Exigente — ou, nas palavras de Noronha, como um chefe enfurecido —, o mercado questionou o guidance (projeções).

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Em 2026, o Bradesco propôs crescer até 10,5% a carteira de crédito. Nos cálculos dos analistas, isso poderia somar lucro de R$ 28 bilhões no ano. As projeções anteriores eram de R$ 30 bilhões.

Outras casas chegaram a afirmar que o ROE não iria muito além de 16%, uma quebra de expectativas para quem sonha com rentabilidade na casa dos 20%.

“Cada vez que a gente tira o sangue, a bitola da seringa aumenta um pouquinho, mas isso é normal. Acho que faz parte um pouco do sucesso”, brinca Scarpelli.

Para o executivo, a resposta é clara: o Bradesco está com o pé no chão. Não tem intenção de acelerar demais e, mais à frente, ser obrigado a frear. “A gente quer ser continuamente crescente no plano de transformação.”

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“Se você olhar a banda de cima do guidance, como a gente entregou a maioria das linhas em 2025, você vai ver um crescimento maior — bem maior do que o que está hoje no centro do guidance.”

Alta renda vs baixa renda: por que não os dois?

Operar para a maior parte da população brasileira, que representa cerca de 50% da população, com riscos maiores, ou ampliar a parcela na alta renda, onde os retornos são maiores?

Nos últimos anos, especialmente com a disparada da inadimplência, os bancos parecem mais dispostos a navegar na segunda opção — ou seja, oferecer melhores condições e benefícios para os mais endinheirados.

Porém, no Bradesco, banco que sempre teve a baixa renda como um dos principais públicos, a ideia é equilibrar os pratinhos: crescer na alta renda sem, com isso, perder outras fatias do mercado.

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Scarpelli também rejeita a ideia de que o banco esteja abandonando a baixa renda, como alguns analistas dizem.

“Isso é mito. Porque, se a gente for ver, a gente é segmentado desde sempre.” Um dos pontos do plano de transformação é justamente diminuir custos e aumentar a eficiência, o que passa, entre outras coisas, pelo fechamento de agências.

Só em 2025, o banco fechou 1,3 mil unidades. De acordo com Scarpelli, isso não é sinal de abandono dessa fatia do mercado — pelo contrário. Hoje, a baixa renda é muito mais digital que a alta.

“Alta renda, por todas as pesquisas que a gente faz, valoriza o contato humanizado. Já a baixa renda vê o banco como uma porta de sorvete. Na prática, mais de 90% das transações são feitas pelo celular”.

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Fintechs são um risco?

A ideia de que bancos iriam sucumbir não se concretizou. Contudo, os bancos precisarem acelerar o passo e descarregar milhões de reais em investimentos em tecnologia.

De todas as formas, segundo Scarpelli fintechs não são um risco e, sim, um competidor. “A gente já teve competidores gigantescos aqui dentro. Se você pegar a história bancária, tivemos bancos americanos, bancos europeus”.

Para ele, até o momento, nenhuma fintechs conseguiu oferecer produtos completos como os bancões.

“Isso não é crítica. Nasceram algumas coisas importantes, em segmentos relevantes, que fazem distribuições em alguns modelos de negócios: cartão de crédito, investimento com a XP. Acho que isso é importante. Faz a gente ter releituras”, diz.

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“Eles geram risco? Não. Eles geram reflexão”, resume. O problema é o que se chama de assimetria regulatória. A ideia de que as fintechs não possuem as mesmas obrigações que os bancos.

Uma das principais acusações da Febraban (federação que reúne os principais bancos) é de que os bancos digitais pagam menos impostos e possuem menos obrigações.

“Precisa cada vez mais caminhar é para a simetria. Não ter assimetria regulatória. As assimetrias, em geral, são complexas. Isso não é choro. Se a gente puder ter equilíbrio na mesma arena, eu acho que tudo funciona melhor”.

Nessa semana, Nubank, a maior e principal fintech do país, e o Febraban estenderam a bandeira branca e, ao que parece, fizeram as pazes. O banco digital se filiou à federação, abrindo caminho para um diálogo maior nesse debate.

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Bradsaúde, no momento certo

E se o mercado esperava um IPO do Bradesco Seguros, um dos carros-chefes do banco, ganhou uma empresa turbinada na área da saúde com o lançamento da Bradsaúde, um conglomerado que reúne os ativos de saúde do grupo.

A criação decorre de uma reorganização societária que consolida os negócios de saúde na Odontoprev (ODPV3), companhia controlada indiretamente pelo banco.

Segundo Scarpelli, o mercado sempre questionou por que o Bradesco deixada sua joia da coroa guardada. Porém, era preciso esperar a hora certa. E ela chegou, em meio aos bons números do Bradesco e o momento da bolsa, que salta nos últimos meses.

Nos cálculos dos analistas, o Bradsaúde pode adicionar mais de R$ 1 ao preço do Bradesco.

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“E a gente achou que o momento de mercado é interessante — até porque também tem o momento do banco. A organização está muito bem no processo de transformação. Então acho que, ao dar uma roupagem adequada, a gente consegue dizer: olha, esse ecossistema tem valor”.

Guerra do Irã é ruim?

A questão agora é o potencial impacto da guerra envolvendo o Irã.

A disparada do petróleo pode pressionar os juros — como já aconteceu: o Banco Central do Brasil reduziu a taxa em apenas 0,25 ponto percentual, quando o mercado esperava 0,5 pp.

“A minha visão é tentar evitar os efeitos secundários e analisá-los dentro da política monetária.” O executivo segue otimista: “O importante é mostrar o caminho: estamos entrando em um ciclo e precisamos mantê-lo.”

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Editor-assistente
Formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, cobre mercados desde 2018. Ficou entre os jornalistas +Admirados da Imprensa de Economia e Finanças das edições de 2022, 2023 e 2024. Possui curso intesivo de mercado de capitais oferecido pelo Insper em parceria com a B3. É também setorista de bancos. Antes, atuou na assessoria de imprensa do Ministério Público do Trabalho e como repórter do portal Suno Notícias, da Suno Research.
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