Economia

Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas desafio é transformar riqueza mineral em indústria

19 jun 2026, 17:07 - atualizado em 19 jun 2026, 17:07
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(Imagem: REUTERS/David Gray)

O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás apenas da China, e concentra cerca de 23,1% dos recursos globais já mapeados desses minerais estratégicos, segundo estudo elaborado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e divulgado nesta sexta-feira pelo Ministério de Minas e Energia (MME).

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Em meio à disputa internacional por insumos essenciais para veículos elétricos, turbinas eólicas, inteligência artificial e equipamentos de defesa, o país aparece como um dos principais candidatos a reduzir a dependência mundial da China. Mas especialistas alertam que a abundância geológica, por si só, não garante protagonismo econômico, de acordo com o relatório.

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos utilizados em tecnologias consideradas críticas para a transição energética e a digitalização da economia. Entre eles, neodímio, praseodímio, disprósio e térbio ganharam relevância por serem componentes fundamentais dos ímãs permanentes usados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs industriais e sistemas militares avançados.

Oportunidade criada pela disputa global

O interesse internacional pelas reservas brasileiras cresce em um momento de reconfiguração das cadeias globais de suprimentos.

Segundo o relatório, a China responde por cerca de 70% da produção mundial de terras raras e domina praticamente todas as etapas de processamento e refino desses materiais. No segmento de ímãs permanentes, a participação chinesa chega a 94%, o que levou Estados Unidos, Europa e outros países a buscarem fornecedores alternativos considerados mais confiáveis geopoliticamente.

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Nesse contexto, o Brasil passou a atrair investimentos e parcerias internacionais. O estudo destaca que o número de novos alvarás de pesquisa para terras raras e monazita cresceu 291% entre 2023 e 2024. Também cita investimentos anunciados de aproximadamente R$ 13,2 bilhões em projetos ligados ao setor.

Atualmente, apenas a Mineração Serra Verde, em Goiás, produz terras raras em escala comercial no país. Outras empresas, como Meteoric e Viridis, avançam em projetos que ainda estão em fase de desenvolvimento.

O gargalo está fora da mina

Embora o Brasil possua uma posição privilegiada em recursos minerais, o relatório conclui que o principal desafio está além da extração.

A cadeia de valor das terras raras é dividida em três etapas. A primeira, conhecida como upstream, envolve mineração e beneficiamento do minério. A segunda, chamada de midstream, inclui separação, purificação e refino dos elementos. Já a terceira, ou downstream, abrange a fabricação de ligas metálicas, ímãs permanentes e produtos industriais de maior valor agregado.

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O diagnóstico mostra que o Brasil já possui projetos competitivos na etapa de mineração, especialmente em depósitos de argilas de adsorção iônica localizados em Goiás e Minas Gerais. No entanto, ainda depende do exterior nas fases mais sofisticadas da cadeia, justamente aquelas que concentram maior geração de valor econômico e tecnológico.

“O desafio central brasileiro não está somente em identificar jazidas e ampliar a produção mineral, mas também em desenvolver capacidade nacional de processamento, transformação industrial, inovação e inserção em segmentos de maior valor agregado”, afirma o estudo.

Evitar ser exportador de matéria-prima

O documento recomenda que o país evite repetir o modelo de exportação de commodities com baixo grau de industrialização.

Em vez de tentar internalizar toda a cadeia produtiva de uma só vez, os autores defendem uma estratégia gradual de adensamento industrial, com foco inicial na expansão da capacidade de separação e refino, considerada hoje o principal gargalo global do setor.

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A proposta inclui medidas para reduzir riscos regulatórios, ampliar financiamentos, incentivar inovação e criar condições para que o país avance futuramente na produção de metais, ligas e ímãs permanentes. Entre as metas de longo prazo estão a formação de uma cadeia integrada entre mina, refino, metalurgia e fabricação de componentes avançados.

Para os autores, a oportunidade é rara não apenas do ponto de vista mineral, mas também geopolítico.

“A conclusão central é que o Brasil possui uma oportunidade histórica de se tornar ator estratégico nas cadeias globais de minerais críticos”, afirma o relatório.

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É jornalista formada pela ECA-USP, com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais para Jornalistas pela B3. Tem mais de 25 anos de experiência e passagem pelas principais redações do país – entre elas, Estadão, Folha, UOL e CNN Brasil. Atualmente, é editora-chefe do Money Times.
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