O mistério da ‘cidade sem sotaque’: o que pesquisadores descobriram ao analisar a fala dos brasilienses
Ao longo das décadas, Brasília ganhou a fama de ser uma “cidade sem sotaque“. A explicação parecia simples: construída por migrantes de diferentes regiões do país, a capital teria se tornado um grande ponto de encontro de formas distintas de falar. Mas uma pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) indica que a história pode ser um pouco diferente.
Após analisar gravações de moradores nascidos e criados no Distrito Federal, pesquisadores encontraram padrões recorrentes na fala brasiliense que sugerem a formação de uma identidade linguística própria. Em vez de ausência de sotaque, a hipótese é que Brasília tenha desenvolvido características próprias a partir da mistura de influências regionais.
“O sotaque brasiliense é resultado direto da história da cidade. Ele não imita nenhum outro, ele emerge do contato entre muitos. Isso é o que o torna tão interessante”, afirmou o professor Ronaldo Lima Júnior, coordenador do estudo e pesquisador do Laboratório de Fonética do Instituto de Letras da UnB, em uma entrevista ao jornal Correio da Manhã.
Como a pesquisa foi feita
O estudo reuniu 30 voluntários entre 18 e 40 anos nascidos no Distrito Federal e filhos de pais também nascidos na região.
A escolha permitiu aos pesquisadores observar um grupo que cresceu em Brasília e teve contato com um ambiente social já consolidado na capital, distante da geração pioneira formada por migrantes recém-chegados de outras partes do país.
Os participantes passaram por gravações controladas em laboratório. Além de entrevistas espontâneas, eles leram textos padronizados, como a tradicional fábula “O Vento Norte e o Sol”, frequentemente utilizada em pesquisas de fonética.
Todo o material foi analisado com o software PRAAT, ferramenta empregada para estudar aspectos físicos da fala, como frequência sonora, duração de sons, abertura vocálica e nasalidade.
O que diferencia a fala brasiliense
Segundo os pesquisadores, alguns sons aparecem de forma consistente entre os participantes.
Um dos exemplos envolve o chamado “S” no fim das sílabas. Na fala dos voluntários analisados, ele tende a ser pronunciado sem o chiado característico associado a algumas regiões do litoral brasileiro.
Outro traço observado está na pronúncia do “R”, que costuma surgir de forma mais suave do que em variedades do português conhecidas por suas articulações mais marcadas.
Os pesquisadores destacam que o objetivo do trabalho não é apontar um sotaque “melhor” ou “mais correto”, mas descrever cientificamente como os moradores da capital falam.
Um sotaque nascido da mistura
A principal hipótese do estudo é que o sotaque brasiliense tenha surgido justamente do encontro de diferentes tradições linguísticas trazidas para a construção da capital ao longo das últimas décadas.
Com o passar do tempo, características mais marcantes de determinadas regiões teriam perdido força em um ambiente de convivência intensa entre pessoas de origens diversas. Em seu lugar, alguns padrões comuns passaram a se consolidar entre as novas gerações.
Na avaliação dos pesquisadores, esse processo ajuda a explicar por que muitos brasileiros enxergam a fala de Brasília como “neutra”.
A neutralidade, porém, não significaria ausência de sotaque, mas sim a formação de uma variedade linguística resultante da combinação de múltiplas influências.
O próximo passo da pesquisa
O trabalho representa a primeira etapa de um projeto mais amplo sobre a evolução da fala no Distrito Federal.
A expectativa da equipe é ampliar a base de dados nos próximos anos para acompanhar possíveis mudanças entre diferentes gerações de brasilienses e aprofundar o entendimento sobre a formação da identidade linguística da capital.
Por enquanto, a pesquisa aponta para uma conclusão curiosa: talvez Brasília nunca tenha sido uma cidade sem sotaque. O que aconteceu foi justamente o contrário. A mistura de vozes vindas de todo o país pode ter criado uma voz própria.
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.