BTG Pactual (BPAC11): Faz sentido mercado estar ‘cauteloso’ com concessão de crédito, diz CFO
O BTG (BPAC11) divulgou resultados que, apesar de receberem elogios de analistas e ficarem acima das expectativas, não foram suficientes para afastar o mau humor que tomou conta do mercado. A ação lidera as perdas do Ibovespa, com tombo de 6%, enquanto o índice desaba mais de 2%.
Mesmo que os números tenham recebido elogios, analistas colocaram alguns pontos em questão. Um deles é o crédito ao consumidor.
A área, que é uma herança do Banco PAN, viu a carteira de crédito ao consumidor atingir R$ 78,2 bilhões no trimestre, alta de 6,2%, “impulsionada principalmente pela originação de crédito consignado privado”.
O temor é de que a linha possa aumentar a exposição do banco a uma carteira mais arriscada e levantar questões sobre a qualidade dos ativos.
Carteira garantida
Mas Renato Cohen, CFO do BTG, lembra alguns pontos. O primeiro é que o banco já possuía exposição a essa carteira há algum tempo.
O segundo é que a preferência do banco é oferecer crédito com garantias.
“Se você olhar a carteira do Banco PAN, basicamente 95% dela é de crédito que tem o próprio automóvel como garantia ou é crédito consignado. No passado, havia um volume maior de público e, mais recentemente, o banco se envolveu nesse novo produto, que foi o consignado privado”, destaca o executivo.
O produto existe desde 2003. Porém, passou por uma série de mudanças promovidas pelo Governo Federal no ano passado. A ideia era tornar a concessão mais democrática e barata. Para isso, o governo criou uma plataforma que centraliza a concessão.
Ele recorda ainda que, no consignado privado, uma parcela do salário é usada para o pagamento do empréstimo. Então, há uma excelente garantia para fazer frente aos juros e à amortização dessa dívida.
“É bastante diferente de comparar isso com o crédito direto ao consumidor e o crédito do cartão de crédito”, afirma.
“Estamos superconfortáveis com o crescimento que estamos vendo, com inadimplência menor do que a que vínhamos projetando ou modelando dentro do ambiente de concessão e originação de novos créditos”, completa.
Questionado sobre o fato de alguns bancos terem aumentado as provisões para esse tipo de empréstimo, Cohen respondeu que há vários tipos diferentes de clientes.
“Pode ser que um banco tenha escolhido um tipo um pouco mais complicado, mas isso depende muito de como você operacionaliza. Não só da escolha do tipo de cliente, mas do acompanhamento, de como você faz o acompanhamento do crédito.”
Uma parte da carteira
Cohen diz ainda que, dentro do BTG, essa é uma carteira menor. O crédito ao consumidor representa 13% do total das receitas do banco. “O banco é bem mais amplo do que isso”.
Mesmo assim, Cohen diz que o banco quer crescer nessa linha, mas também em todos os negócios “que temos”.
“Então, quando você olha o crescimento de Consumer Finance, é uma linha menor e, por isso, ela cresceu um pouco mais rápido.”
Ele recorda, porém, que a linha de Asset Management e a própria linha de Corporate Lending também cresceram.
“Quando você olha Consumer Finance, se a gente espera crescimento? Sim. Pode ser 13%? Hoje é 13%, pode ser 15%, pode ser 17%. Mas ela não vai ser uma linha dominante, como é nos casos dos bancos de varejo. Ela vai ser mais uma linha de negócio dentro do nosso portfólio, que é superdiversificado.”
Cautela
Cohen também foi questionado sobre a percepção do mercado em relação ao risco de crédito. Segundo o executivo, é natural que haja essa reação, até porque os juros continuam altos, na casa dos 14%.
“Todo mundo esperava que os juros caíssem de uma maneira um pouco mais acelerada, com cortes de 50, 50 pontos-base por reunião do Copom. Isso não aconteceu. O corte veio um pouco mais lento, mas, já saindo de 15% para 14%, eventualmente há mais suporte”, afirma.
O executivo diz ainda que o ambiente geopolítico trouxe uma série de incertezas. “Preços do petróleo e de energia, de maneira geral, um pouco mais altos. Então, faz sentido ter um pouco mais de cautela, mas não acho que o mercado esteja exagerando.”
Apesar disso, o executivo diz que, quando olha os indicadores do consumidor, vê alguns bons sinais.
“O desemprego está próximo da mínima, o número de empregados continua próximo da máxima e a renda disponível, a renda distribuída e a massa salarial estão na máxima. Então, você tem bons indicadores.”
O que não apaga o fato de que o cenário está um pouco pior do que se projetava. “Seis meses atrás, você viu uma certa deterioração. Então, faz sentido ter mais cautela na concessão de crédito. Acho que é um pouco esse o cenário.”