Caso Master: Como o colapso do banco abalou o sistema financeiro e sacudiu Brasília
Daniel Vorcaro construiu sua reputação no mercado financeiro brasileiro como proprietário do Banco Master, um banco que cresceu rapidamente e despertou surpresa entre analistas e investidores.
Enquanto o banco crescia, discretamente aumentava também sua agenda de contatos no mundo político, incluindo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), presidentes do Senado e da Câmara, e altos funcionários do Banco Central.
Após a segunda prisão de Vorcaro na semana passada, o vazamento de conteúdos do seu celular por parlamentares que tiveram acesso a arquivos da Polícia Federal expôs uma rede de influências capaz de abalar figuras poderosas em ano eleitoral.
“É uma bomba-relógio”, disse o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que pressiona por uma CPI sobre a relação de Vorcaro com ministros do STF. “Há figuras muito poderosas da República com envolvimento claro.”
Outros dois pedidos de CPI sobre o caso Master estão protocolados no Congresso, mas não avançaram devido à resistência da cúpula das duas Casas e de parlamentares do centrão. Apesar de nomes graúdos da política aparecerem nas mensagens, nenhum deles foi oficialmente envolvido nas investigações até o momento.
O escândalo, no entanto, já deixou vítimas em Brasília: dois servidores do Banco Central — Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana — foram afastados após constatar-se que assessoravam Vorcaro. O ministro do STF Dias Toffoli se afastou da relatoria do caso devido a vínculos financeiros da empresa de sua família com o banqueiro, embora tenha negado ter recebido qualquer pagamento do Master ou de Vorcaro.
Em mensagens à namorada, Vorcaro chegou a comparar seu banco à máfia, afirmando que “ninguém sai bem disso”, sugerindo ainda que os grandes bancos tentavam derrubar o Master.
A Polícia Federal encontrou mensagens indicando que ele planejava intimidar pessoas consideradas inimigas, inclusive jornalistas, com ajuda de um associado chamado “Sicário”.
A defesa de Vorcaro negou irregularidades, intimidação de jornalistas ou tentativa de interferir em investigações.
Modelo de negócios insustentável
Vorcaro, 42 anos, começou no setor imobiliário da família em Belo Horizonte. Sua ascensão nas finanças começou ao comprar o Banco Máxima, rebatizado como Master em 2021, transformando-o em plataforma para novos negócios.
Apesar da falta de histórico bancário, o Master atraiu investidores com CDBs de rendimentos altos, distribuídos por grandes instituições, e garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Mas o banco investia em ativos de risco, como precatórios judiciais de longa liquidação, e enfrentou uma crise de liquidez após endurecimento das regras do Banco Central em 2023. Vorcaro prometeu captar US$ 3 bilhões no ano seguinte, mas não conseguiu.
Enquanto lutava para salvar o banco, Vorcaro investia na construção de imagem de azarão frente aos grandes bancos e consolidava influência política, gastando milhões em viagens e eventos de prestígio, como um fórum de US$ 6 milhões em Londres, frequentado por ministros do STF e o diretor-geral da Polícia Federal.
Também contratou a esposa do ministro Alexandre de Moraes como advogada e contou com o ex-ministro Guido Mantega para organizar reuniões com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Lula confirmou que a reunião tratou de uma investigação técnica, sem interferência política.
Entre 2024 e 2025, Vorcaro gastou cerca de US$ 120 milhões em viagens e festas luxuosas, incluindo um aniversário em Saint-Tropez com jatinhos, vilas e um iate alugado por quase US$ 2 milhões. A ostentação, segundo fontes, prejudicou sua reputação e despertou resistência no Banco Central.
Para um banco de R$ 80 bilhões em ativos, reguladores esperavam liquidez de R$ 3 a 4 bilhões; os livros contábeis de 2024 indicaram apenas R$ 4 milhões em caixa. Tentativas de captar recursos de fundos de pensão, lobby legislativo e até venda do banco ao BRB foram bloqueadas pelo Banco Central.
Em novembro, mensagens sugerem que Vorcaro buscava soluções de última hora: “Conseguiu bloquear?”, perguntou a um contato não identificado. Ele foi preso no aeroporto de São Paulo sob suspeita de tentar fugir, e o Master foi liquidado pelo Banco Central no dia seguinte. Posteriormente, um juiz o liberou, mas ele voltou à prisão por alegações de interferência em investigações.
Mesmo com restrições, a repercussão política de Vorcaro continua preocupando autoridades em Brasília. “Os fatos influenciam a política”, disse Vieira. “E os fatos são muito alarmantes, é impossível escondê-los.”