Caso Master: ‘Falharam BC, CVM, ratings, auditorias e FGC’, diz ex-Febraban, Roberto Troster
“Falharam Banco Central, CVM, empresas de rating, auditorias e FGC.” Foi dessa forma que Roberto Luis Troster, ex-economista-chefe da Febraban, resumiu o caso do Banco Master em entrevista ao programa Money Minds, do Money Times.
Para ele, o episódio é resultado de uma “autoridade difusa”, em que ninguém atuou no momento certo, permitindo que distorções se acumulassem até o colapso.
Em novembro do ano passado, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Master. A investigação se concentra em suspeitas de fraudes financeiras, possíveis prejuízos a um banco público e questionamentos sobre falhas na supervisão do sistema financeiro.
O desdobramento do caso atingiu outras peças do conglomerado. A autoridade monetária também liquidou a Reag Investimentos e, depois, o Will Bank. No centro das investigações está Daniel Vorcaro, dono do Master, preso pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero, acusado de liderar um esquema de emissão e negociação de títulos de crédito falsos.
Segundo o ex-Febraban, o problema começa na própria lógica de funcionamento do banco. “O banco Master captava [recursos] um pouco acima da taxa de mercado e aplicava em títulos não tão ortodoxos, como precatórios.”
Apesar disso, o economista afirma que, à primeira vista, os números não soavam alarmantes. “Se você analisasse o balanço, os indicadores, a alavancagem, liquidez, eficiência, rentabilidade… não era algo que destoasse muito do que tinha que ser feito.”
O problema, segundo ele, estava no tipo de análise predominante. “Muitas vezes as pessoas fazem análise de compliance: [veem] se está de acordo com os indicadores, ao invés de analisar por desempenho. E como [o Master] estava gerando lucro? De uma maneira arriscada.”
Troster também menciona a existência de distorções contábeis que inflavam os resultados do banco, como reavaliações de ativos que faziam o tamanho do ativo crescer e elevavam artificialmente a rentabilidade.
Para ele, a pergunta central é por que isso não foi detectado a tempo. A resposta passa, novamente, pela fragmentação da supervisão.
Troster questiona garantia do FCG
Sobre o Fundo Garantidor de Créditos, Troster é particularmente crítico. Ele diz que o desenho original do FGC pressupunha a proteção de depósitos usados para a concessão de crédito, o que ele considera razoável.
No entanto, no caso do Banco Master, essa lógica teria sido distorcida, já que a garantia acabou alcançando operações de tesouraria. “Não faz sentido isso.”
O economista também questiona o tamanho atual da garantia. “Quando foi feita a garantia, eu era um dos que propôs que fosse garantir até R$ 2 mil. Na época, isso cobria como 98% dos depositantes.”
Troster lembra que o valor acabou sendo elevado ao longo dos anos até chegar a R$ 250 mil e afirma: “É demais. São números redondos.” Para ele, garantias menores cobririam a maior parte dos depositantes com custo menor ao sistema.
‘TCU tinha que investigar’
Apesar da gravidade, Troster afirma que o episódio não se transformou em uma crise sistêmica. Ainda assim, ele faz um paralelo histórico. “É a mesma história do Banco Santos. A história se repete porque a plateia se renova.”
Para evitar novas repetições, o ex-Febraban defende uma revisão institucional clara. “É preciso, de algum maneira, acabar com essa incerteza institucional: quem manda? quem fiscaliza?”
Nesse contexto, ele afirma que o Tribunal de Contas da União deveria, sim, investigar o caso. “Eu acho que o TCU tinha que investigar como isso chegou aonde chegou.”
Segundo o economista, essa apuração não fere a autonomia das instituições. “Não é uma questão de corrigir Banco Central ou corrigir o FGC, mas de identificar onde estão as nossas falhas.”