China “acende” seu sol artificial e avança rumo a uma fonte de energia limpa e quase inesgotável
Enquanto o mundo debate a transição energética, a China resolveu ir direto à origem — literalmente. O país vem acumulando progressos relevantes na busca pelo chamado “sol artificial”, um experimento que tenta reproduzir na Terra o mesmo processo que mantém o Sol “aceso” há bilhões de anos.
O projeto leva o nome técnico de Experimental Advanced Superconducting Tokamak (EAST) e figura hoje entre os laboratórios de fusão nuclear mais avançados em operação no mundo.
A proposta é relativamente simples de explicar, mas extremamente difícil de executar: gerar energia unindo átomos, e não quebrando-os. Na prática, trata-se de um reator de fusão nuclear, tecnologia frequentemente apontada como o “Santo Graal” da energia limpa.
A promessa é ousada: produzir eletricidade abundante, em escala quase infinita, sem emissão de carbono e com resíduos muito menores do que os da energia nuclear convencional.
Não é marketing da China: é física de alto nível
Diferentemente das usinas nucleares atuais, que funcionam por fissão — a quebra de átomos —, a fusão faz o inverso: combina núcleos de hidrogênio para formar hélio, liberando energia no processo.
É exatamente isso que ocorre no núcleo do Sol. O desafio é que, para a reação acontecer, é necessário alcançar temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius e manter um plasma extremamente instável confinado por tempo suficiente.
É nesse ponto que entra o tokamak: uma câmara em forma de anel que utiliza campos magnéticos extremamente potentes para “conter” o plasma, impedindo que ele toque as paredes do reator.
Nos testes mais recentes, os cientistas chineses conseguiram manter esse plasma estável por períodos cada vez mais longos e em condições que, até pouco tempo atrás, eram consideradas inviáveis.
O recorde que animou a comunidade científica
O avanço mais recente do EAST foi operar acima de limites teóricos clássicos, como o chamado limite de Greenwald — nome dado em homenagem ao físico americano Martin Greenwald, que definiu esse parâmetro em 1988 e que estabelece a densidade máxima segura do plasma.
Em termos simples: os pesquisadores conseguiram inserir mais combustível no reator sem perder estabilidade, um passo fundamental para que a fusão, no futuro, produza mais energia do que consome.
É esse ponto que faz o “sol artificial” deixar de ser apenas uma curiosidade científica e passar a ser visto como um elemento estratégico na transição energética global.
Corrida global — e a China quer sair na frente
A China não está sozinha nessa aposta. O país é um dos principais participantes do ITER, o maior projeto internacional de fusão nuclear em construção na França, que reúne União Europeia, Estados Unidos, Japão, Rússia e Coreia do Sul.
A diferença é que, enquanto o ITER ainda está em fase de montagem, os chineses já acumulam anos de testes práticos, dados operacionais e recordes próprios.
Mas calma: ainda não dá para ligar na tomada
Apesar do otimismo, há um ponto crucial: nenhum reator de fusão no mundo ainda produz mais energia do que consome.
O “sol artificial” chinês não é uma usina, mas um laboratório experimental. A expectativa dos próprios cientistas é que a fusão comercial ainda leve décadas para se concretizar.
O caminho envolve o desenvolvimento de novos materiais, maior controle do plasma e uma redução significativa de custos. Ainda assim, o consenso é claro: nunca se esteve tão perto.