Como o blockchain está remodelando nossas ordens econômicas, ambientais e sociais

Brave New Coin
05/01/2020 - 19:00
Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento
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Como a desigualdade de riqueza pode ser solucionada com moedas digitais alternativas que fornecem uma forma de renda básica a fim de oferecer mais independência financeira? (Imagem: Pixabay/geralt)

Este é o sexto de seis textos, pois faz parte de uma série de três artigos, em que Andrew Gillick, da Brave New Coin, fala sobre “como o blockchain está remodelando nossas ordens econômicas, ambientais e sociais”.

Essa divisão foi feita para que você compreenda, pouco a pouco, a visão do autor em relação à revolução da tecnologia de blockchain no mercado financeiro internacional e, consequentemente, nas nossas vidas.

Parte 1 / Parte 2 / Parte 3 / Parte 4 / Parte 5 / Parte 6

Como os criptoativos e a tokeconomia estão sendo utilizados para reorganizar o comportamento humano e os ideias em relação ao dinheiro?

Como a desigualdade de riqueza pode ser solucionada com moedas digitais alternativas que fornecem uma forma de renda básica a fim de oferecer mais independência financeira?

Em todo o mundo, estamos enfrentando uma era de populismo político, de Trump ao Brexit.

Ray Dalio, CEO da Bridgewater, fala há anos sobre as analogias assombrosas entre a nossa situação econômica e social atual àquela dos anos 1930, que levou o populismo a um ponto insustentável e, em seguida, à Segunda Guerra Mundial.

Em seu livro, intitulado “Um Modelo para Entender Grandes Crises de Endividamento”, Dalio afirma que o populismo crescente é associado a uma amplitude da lacuna de desigualdade de riquezas:

A desigualdade de riquezas aumenta durante as bolhas e se tornam especialmente insustentáveis para aqueles menos privilegiados em épocas ruins.

Como uma regra geral, se as pessoas ricas dividirem um orçamento com pessoas pobres e haja uma queda na economia, haverá um conflito econômico e político. É nessas épocas que o populismo tanto da esquerda quanto da direita tende a surgir.

Então não é novidade que estamos vendo as primeiras revoltas violentas contra a desigualdade nos Estados Unidos, país que destituiu seu sistema feudal há mais de dois séculos mesmo com a perpetuação da mesma desigualdade de riquezas e de tributação pelo sistema industrial capitalista que o substituiu.

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A “quarta reviravolta” é uma era decisiva, em que o regime de valor propulsiona a substituição da antiga ordem cívica com uma nova (Imagem: Pixabay/mohamed_hassan)

Uma mudança geracional

Esse tipo de revolta populista não é inesperado. De acordo com a “Quarta Reviravolta”, conceito da teoria geracional de William Strauss e Neil Howe, estamos na etapa final da “crise”, ou a quarta reviravolta, de um ciclo geracional de 80 anos.

Essa é uma era decisiva de uma reviravolta temporal, em que o regime de valor propulsiona a substituição da antiga ordem cívica com uma nova.

Na “Quarta Reviravolta”, Strauss e Howe analisaram cada geração, voltando até o século XV e descobriram que existem quatro arquétipos geracionais: profeta, herói, artista e nômade.

Esses arquétipos são determinados por como foram criados e o que aconteceu quando eles ficaram adultos.

Seu alinhamento (fases relativas de vida) resultou em humores sociáveis, chamados de “reviravoltas”, que também seguem uma sequência previsível: “o Ponto Alto”, “o Despertar”, “o Desvendamento” e “a Crise”.

Strauss e Howe identificaram a Era da Revolução, as Revoluções Americana e Francesa, no fim do século XVIII, e a Guerra Civil americana como eventos que desencadearam as Quartas Reviravoltas.

A conclusão é que talvez já tenhamos tido os acontecimento da Guerra ao Terror e da crise financeira global.

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A única parte negativa sobre o desemprego é o estigma e a falta de uma rede segura para muitas pessoas que não consigam ter trabalhos mais significativos (Imagem: Pixabay/ahmedamiin)

Renda básica universal e dividendos sociais

Enfrentamos um sumiço em massa de muitos empregos mecânicos e intermediários nas últimas décadas por conta da automação e talvez iremos enfrentar uma fase de deflação temporal, já que o impacto da tecnologia e a inteligência artificial substituem o trabalho humano e, assim, a inflação salarial.

Apesar de sua péssima conotação, o desemprego não é necessariamente negativo, mas sim necessário para manter o aumento dos salários com o decorrer do tempo.

Hoje, muitos trabalhos de baixa remuneração já se tornaram obsoletos, mas servem para salvar as pessoas do estigma do desemprego. A única parte negativa sobre o desemprego é o estigma e a falta de uma rede segura para muitas pessoas que não consigam ter trabalhos mais significativos.

No entanto, isso também poderia ser aperfeiçoado com os criptoativos na forma de uma renda básica universal (ou UBI, na sigla em inglês).

Renda básica universal é um conceito controverso, mas interessante, pois atraiu o apoio de pensadores de vários contextos sociais, como os economistas Milton Friedman e Friedrich Hayek, o empreendedor Elon Musk, o ativista e pastor Martin Luther King Jr, o físico Stephen Hawking e o linguista Noam Chomsky.

É visto como um projeto utópico que poderia finalmente desbloquear o potencial criativo de todas as pessoas e libertá-las do ciclo de emprego de buscar por trabalhos mais significativos e urgentes.

No entanto, é politicamente muito sensível e praticamente muito difícil de ser implementado.

Porém, quando a criação de moedas digitais se torna tão fácil como o download de um arquivo, nossos ideias do que é dinheiro e do que é valor vão mudar, assim como o paradigma de referência de valores baseada em fiduciárias (por exemplo, US$ 1 = € 0,91) para o que o tempo (moeda) de uma pessoa vai conseguir comprar em termos de algo recém-produzido pela comunidade.

“Quando compramos muito barato, nós estimamos pouco;
é apenas o carinho que dá valor a tudo”Thomas Paine.

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Um dos criptoativos sendo criados no protocolo Duniter é o ğ1, uma moeda “que garante liberdade”, criada igualmente por todos os participantes do sistema (Imagem: YouTube/Monnaie Libre Occitanie)

O conceito de moeda “libre”

Pode-se dizer que o movimento de criação de um criptoativo para dividendo social está ganhando força na França. Inspirado pelo conceito de “moeda libre”, cuja emissão não é baseada em nenhum ativo nem em produção, mas coemitida por todos aqueles que fazem parte da comunidade.

Duniter é um software para produzir criptoativos “libres” e descentralizados.

Sob Licença Pública Geral (GPL, na sigla em inglês), o projeto não pode ser privatizado (enquanto projetos de código aberto do MIT podem ser). Foi criado pelo engenheiro de computação francês Cedric Moreau.

Um dos criptoativos sendo criados no protocolo Duniter é o ğ1, uma moeda “que garante liberdade”, criada igualmente por todos os participantes do sistema.

Assim, não existem mineradores, nenhum incentivo para acúmulo, nenhuma reserva ou banco central; todos têm o mesmo direito de emitir a moeda.

O design monetário do Duniter e seus algoritmos de consenso são baseados em quatro “liberdades” econômicas:

liberdade de escolha de moedas e metodologias contábeis;

liberdade de acesso aos recursos;

liberdade de produção;

liberdade de câmbio e determinação de preços.

Uma moeda só pode ser considerada “libre” se respeitar esses quatros princípios, em que o código monetário não os infrinja.

O euro, por exemplo, não é uma moeda “libre” porque tem curso forçado e, assim, é imposta aos cidadãos por uma ordem positiva. Bitcoin e ouro não são “libres” porque a produção está apenas na mão dos mineradores.

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Como uma moeda fiduciária, uma “libre” não tem valor intrínseco e é fixada à produção de quaisquer bens e apoiada por recursos (Imagem: Pixabay/geralt)

Renda universal: redistribuir ou recriar riquezas?

Duniter não é uma redistribuidora de riquezas. Seu dividendo é uma porcentagem da massa monetária total, não um compartilhamento de riquezas. É simplesmente uma coemissão de um meio de câmbio.

Nesse sistema, todos os cidadãos possuem a mesma distância da fonte de emissão de dinheiro, diferente do sistema atual.

Vamos usar a analogia de um sprinkler de jardim, em que a água da fonte é distribuída igualmente, ao contrário de uma fonte de vários níveis, em que água sai do topo da fonte e vai escorrendo, sendo distribuída para as poças maiores abaixo.

Só pessoas podem cocriar uma moeda e as empresas podem participar na compra e venda da moeda, mas não em sua criação. Como uma moeda fiduciária, uma “libre” não tem valor intrínseco e é fixada à produção de quaisquer bens e apoiada por recursos. É criada para as pessoas que estão “vivas”.

A distribuição da moeda é determinada por idade, expectativa de vida média e massa monetária da moeda na hora da emissão. Os mais velhos e os falecidos vão ganhar menos e, por fim, nenhuma. A “prova de vida” dos indivíduos será a base para emissão.

Dunirer vai ter nós validadores no seu blockchain, mas vão validar apenas as transações e a identidade dos cidadãos. Não haverá mineração feita pelos nós, então a taxa de hashes e a dificuldade de verificação de transações vai ser baixa o suficiente para ser feita em um notebook ou celular.

De fato, a mera ação de validar a identidade de seus amigos reais e a de executar nós são a fonte da criação de dinheiro.

OpenUDC é outra plataforma de software que permite aos usuários criarem suas próprias moedas livres baseadas na Teoria Relativa do Dinheiro, criada pelo engenheiro francês Stephane Laborde.

Essa teoria define um sistema monetário em que ninguém tem o privilégio de criar dinheiro nem no tempo nem no espaço. OpenUDC permite que cada comunidade que queira usar seu próprio dinheiro defina seu próprio conjunto de regras de Dividendo Universal.

Circles é um outro sistema monetário feito por moedas individuais que, juntas, criam uma economia que pode apoiar a renda básica universal.

Uma economia Circles é um diagrama social em que as pessoas criam suas próprias moedas (como a Bobcoin) e as moedas são cunhadas em quantidades iguais e ao mesmo tempo para cada indivíduo.

A confiança em uma pessoa é o que cria valor sobre suas moedas. Então quanto mais contas você tiver no seu diagrama social, maior será a confiança em você.

Se pensarmos que a estrutura, a própria arquitetura do dinheiro influencia nossa maneira de se comportar em nossas negociações, então a sociedade pode ser transformada por uma nova forma de dinheiro.

Será uma moeda mais transparente e simétrica, que gera mais riqueza, produtividade, cooperação e melhor bem-estar.

Hoje, as moedas oficiais têm características que nos levam à competição, incluindo a escassez, opacidade e assimetria, e nossos níveis de endividamento são um reflexo disso.

Enquanto uma moeda “libre” ou uma renda básica universal não vai trazer uma riqueza média alinhada com a dos ricos, seu benefício principal será libertar as pessoas da dependência de um salário mental e trabalhos forçados a um empregador para buscar um emprego mais significativo e criar mais valor na economia real.

Nunca desconfie que um pequeno grupo de cidadãos atenciosos
e comprometidos pode mudar o mundo.
De fato, é a única coisa que já aconteceu
” — Margaret Mead.

Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 19/06/2020 - 18:27

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