Coluna do Bankly

Como o Embedded Finance funciona na prática – Parte 2: O que são os créditos acoplados?

01 mar 2023, 10:00 - atualizado em 28 fev 2023, 12:55
Embedded Finance é a possibilidade de acoplar serviços financeiros a plataformas digitais; confira na séria especial sobre seguros e crédito acoplados (Imagem: Freepik)

Por Marilyn Hahn*

A Coluna do Bankly traz neste início de ano uma série especial sobre os diversos modelos de Embedded Finance. A proposta é falar sobre como os serviços financeiros acoplados às plataformas estão transformando a economia e a experiência dos consumidores. Cada artigo aborda produtos como seguros, crédito, criptomoedas, entre outros, que ganham uma nova dinâmica.

No primeiro artigo da série, tratou-se de um estudo da Deloitte, lançado no fim de 2022, com previsões para setores como varejo e telecomunicações. Nele, falou-se sobre a importância do desenvolvimento de seguros acoplados a jornadas já existentes para o amadurecimento e a transformação digital do setor.

Já nesta segunda parte, a proposta é explorar melhor o embedded lending – ou, no português, crédito acoplado. Confira como funciona, na prática.

O que é crédito acoplado?

O embedded lending prevê a oferta de serviços de crédito dos mais variados por meio de plataformas de produtos não necessariamente financeiros. Um dos exemplos mais conhecidos de embedded lending que vem crescendo exponencialmente nos últimos anos é o Buy Now Pay Later (BNPL).

O modelo é bastante similar ao “crediário” nas lojas físicas brasileiras ou no checkout das compras online dos principais e-commerces com ofertas que podem ser pagas semanal ou mensalmente.

Dessa forma, o usuário não precisa necessariamente ter um cartão de crédito em algum banco para financiar a compra. Ele pode contratar o crédito diretamente do estabelecimento para adquirir um produto ou serviço específico.

Neste modelo, é possível notar um dos benefícios do crédito acoplado. Em vez de contratar um cartão de crédito com limite preestabelecido e, muitas vezes, passar horas pesquisando melhores taxas, além de toda a jornada de abrir uma conta e adquirir o serviço, o consumidor contrata a oferta de empréstimo customizada para a necessidade do momento.

Crescimento do crédito

De acordo com um report da Bain & Company, em 2021 cerca de US$ 1,4 trilhão circularam entre varejistas e mercados online nos Estados Unidos. Desse volume, US$ 50 bilhões passaram por alguma plataforma de BNPL – ou seja, de 3% a 4% das vendas totais. Até 2026, esse volume deve chegar de 10% a 12% do total das vendas, atingindo um valor próximo a US$ 265 bilhões.

A tendência de crescimento do crédito não acontece apenas no âmbito do consumidor pessoa física, apesar de ser nele em que se pode ver a maior penetração. Ainda de acordo com o report da Bain & Company, destaca-se o crédito acoplado para pequenas e médias empresas. A estimativa é de aumento de cinco vezes no volume da contratação desse produto até 2026.

Ofertas de empréstimos para Pequenas e Médias Empresas (PMEs) sempre foram assunto delicado entre os grandes bancos, especialmente devido à falta de dados históricos dessas empresas e à taxa de mortalidade bastante alta (cerca de 30% fecham após cinco anos de atividade). Há alguns anos, porém, grandes players decidiram abrir estratégias de penetração específicas para esse mercado combinando dados com tecnologia.

O Itaú é um desses exemplos. No ano passado, a instituição financeira investiu cerca de R$ 1 bilhão para criar uma joint venture com a empresa de software TOTVS a fim de capturar o histórico financeiro dos seus clientes e conseguir ofertar produtos mais direcionados e customizados para as PMEs detentoras do ERP (Enterprise Resource Planning).

Assumir uma base mais qualificada, com dados legítimos e menor custo de distribuição é uma estratégia que encoraja o apetite dos detentores do funding e alavanca negócios que antes precisavam apenas de um empurrão para crescer. Estima-se que até 2026 o volume de crédito para as PMEs deva crescer de US$ 12 bilhões para algo entre US$ 50 bilhões e US$ 75 bilhões – ou seja, mais de 500%.

Quebrando barreiras

O mercado de crédito sempre teve inúmeras barreiras de crescimento não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Muito semelhantes às barreiras de oferta de seguros, observada no último artigo, o produto de crédito peca por ser genérico, caro e concentrado em poucos players:

  • Muitas ofertas, pouco fit: clientes têm receio de contratar produtos de crédito, seja porque sempre parecem maiores do que a necessidade do momento ou porque as taxas são desconhecidas. Além disso, a finalidade da contratação é facilmente desviada.
  • Pouca informação sobre o cliente: instituições e fintechs geralmente têm pouca informação sobre seu target market e esse cenário não muda quando o prospect vira cliente de fato. Em vez de buscar essas informações no mercado, as próprias plataformas podem direcionar o público-alvo dentro da base conforme o comportamento de consumo de seus clientes. É aí que o embedded lending pode contribuir para o desenvolvimento de ofertas mais customizadas usufruindo de dados em tempo real, o que barateia o produto.
  • Burocracia na hora da contratação: prover uma experiência mais fluida e digital na hora da contratação de um produto de crédito sem deixar de lado informações importantes para a melhor oferta é essencial para não perder o cliente que já está no funil.

Com a adesão ao open finance, a expectativa é que novos modelos de negócio ganhem ainda mais tração, transpondo essas barreiras citadas acima. Os dados serão o combustível que alimentará o go to market dos produtos de crédito. Com isso, o embedded finance será a estrada que levará essas ofertas aos clientes finais, percorrendo os melhores caminhos.

Confira os exemplos práticos de Embedded lending

A Freedom Finance, um marketplace de crédito digital, lançou um serviço de financiamento de automóveis para seus parceiros que querem oferecê-lo. Ao capturar uma série de informações adicionais, a empresa garante um serviço personalizado, flexibilizando as opções de financiamento.

Outro caso é a Toast, empresa de software de gestão e que se lançou com o conceito de one stop shop ao prover serviços de adquirência para restaurantes e criou o próprio produto de crédito através da Toast Capital. Nele, os clientes podem contratar financiamentos de US$ 5 mil a US$ 300 mil para financiar seu fluxo de caixa, contratar novos funcionários ou mesmo comprar equipamentos, tudo diretamente pelo sistema de gestão.

A Shopify Balance é outro exemplo de crédito integrado: a empresa oferece aos comerciantes um banco comercial para conta e cartão com tecnologia Stripe Treasury. Além disso, é disponibilizada uma API de empréstimos completa que permite financiamento para ajudar os clientes a expandirem seus negócios. O lançamento foi um sucesso imediato: mais de 100 mil pequenas empresas nos EUA abriram contas no Shopify Balance nos primeiros quatro meses.

Esse novo formato de distribuição fortalece o setor em todos os aspectos, principalmente no que diz respeito ao grau de confiança do consumidor, já que ele terá uma experiência completa dentro da plataforma.

Ou seja, à medida que crescem os casos de uso, o mercado também se expande, abrindo espaço para novos agentes. No fim, quem ganha são os consumidores, que experimentam serviços financeiros mais contextuais, integrados e acessíveis.

*Marilyn Hahn é COO e cofundadora do Bankly